segunda-feira, 24 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O guardião cego  


Continuação da postagem de 21abr2017



"A pior cegueira não é aquela que anuvia os olhos,
 mas sim a outra - a que obscurece a alma".

QUANDO Zualil se aproximou do portão, onde eu me achava em companhia dos quatro homens, não pude dominar a minha exasperação. Exprobrei-lhe a forma incorreta e leviana com que procedera durante a minha ausência.

-- Para atender à tua exigência descabida -- disse-lhe com desagrado -- fui com o mestre-escola em busca de três ouvintes para a tal lenda que pretendias narrar; trouxe comigo dois sábios famosos (e apontei para os auxiliares do corretor Bechara); assegurei-lhes que estavas a nossa espera. E qual não foi o meu espanto ao verificar que havias ido, como um cameleiro em dia de folga, vaguear pelos arredores. E o mais grave, ainda, é que esta casa, entregue aos teus cuidados, deixaste, inteiramente abandonada, ou melhor, sob a vigilância inútil de um cego. Não me parece que este homem (e apontei para o cego) que vive mergulhado nas trevas da cegueira, seja o vigia mais indicado para zelar pela moradia e pelos bens de um amigo.

sábado, 22 de abril de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Jorge Aragão: Malandro, 1976






Malandro, eu ando querendo falar com você
Você tá sabendo que o Zeca morreu por causa
De brigas que teve com a lei,


Malandro, eu sei que você nem se liga no fato
De ser capoeira moleque mulato
Perdido no mundo morrendo de amor


sexta-feira, 21 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O matemático, o botânico e o mendigo 


Continuação da postagem de 17abr2017



NÃO MUITO longe, numa pequena casa, semi-oculta entre viçosos limoeiros, residia o corretor Chafid Bechara. Era homem corpulento, alto e direito de tronco, de um moreno cor de barro, rosto redondo e olhos vivos. Recebeu-nos em sua sala de trabalho. Amontoavam-se pelo chão amostras de mercadorias, sacos de cereais e caixas a transbordar de sementes.

Mais de uma vez eu tivera a oportunidade de oferecer a Bechara transações bem vantajosas. 

-- que negócio temos para hoje? -- perguntou-me com indisfarçável bom-humor -- algum terreno para vender? Uma boa casa para alugar?

Apressei-me em responder:

-- Não cogito, no momento, de negócio algum. A nossa visita tem objetivo inteiramente diverso. 

E sem mais preâmbulos, pois o tempo me parecia escasso, contei-lhe, tintim por tintim, tudo o que ocorrera em minha casa desde a chegada do egípcio, as singularidades de meu hóspede e a promessa da lenda surpreendente ("As sete pontas do quadrado") que merecia ser ouvida por 5.439 pessoas.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O burriqueiro surdo


Continuação da postagem de 15abr2017



... e respondeu-me: "As melancias
ainda estão verdes..."
FITEI-O cheio de assombro. Aquele homem singular pretendia pagar as gentilezas e atenções que recebera em minha casa com a moeda mais desvalorizada do mundo: segredos, lendas e conselhos!

Qualquer outro, em minha situação, diria ao forasteiro: "Que me importam as tuas lendas, os teus segredos ou os teus conselhos. Mal avisado vai quem se preocupa com tais baboseiras. Dispenso o teu pagamento. Podes seguir o teu caminho que eu nada mais desejo de ti". 

Julguei, entretanto, indelicado de minha parte tratá-lo assim. Disse-lhe, pois, meio sério e meio risonho:

-- Não há motivo algum para hesitar na escolha. Acabas de pôr à minha disposição um segredo, um conselho ou uma lenda. Que faria eu com o segredo? Nada. Tenho em meu poder centenas de outros que não me proporcionam a menor vantagem e deles não colho um dinar de juros. Guarda, pois, contigo o teu segredo. Não o aceito. Quanto ao conselho, julgo-o mais despiciendo ainda. É a mais comum e amenos valiosa das moedas correntes. Qualquer pasteleiro ignorante, em troca de uma fava seca, oferece-nos uma infinidade de juízos edificantes. Os livros que se amontoam pelas bibliotecas estão repletos de advertências que ninguém segue e recomendações que ninguém ouve. Ora, que faria eu com um conselho a mais a perder-se no tumulto de meus pensares? Prefiro, portanto, a lenda.Aceito-a e desejo ouvi-la.

-- Julgo muito acertada a escolha --- opinou com entusiasmo o mestre-escola. -- A justificação que a precedeu foi magnífica. Vamos ouvir a lenda adorável e profunda que esse nobre amigo vai narrar!

E ajuntou pesaroso:

-- Que pena não termos aqui dois ou três músicos para acompanhá-lo!

-- Iallah! -- acudiu risonhamente o meu hóspede. -- Que pressa é essa? A lenda que pretendo contar-te, como retribuição pelas boas horas que aqui passei, intitula-se "As sete pontas do quadrado" e é uma das histórias mais assombrosas do mundo. Deveria ser narrada para uma multidão que compreendesse, no mínimo, cinco mil quatrocentos e trinta e nove pessoas! Repara bem: essa lenda notável, o maior tesouro literário do mundo, deveria ser ouvida - repito - por 5.439 pessoas! Sei, porém, que esta casa não comporta os cinco mil quatrocentos e trinta e nove ouvintes. Por esse motivo, estou disposto a fazer uma concessão toda especial. Contarei a lenda logo que possas reunir aqui, nesta sala cinco ouvintes.

Iezid, o mestre-escola, riu gostosamente.

-- Pela glória de Salomão! Que extraordinária condescendência! O nosso ilustre e eloquente amigo Zualil concede o privilégio excepcional de narrar aqui, para cinco convidados, a lenda que deveria ser ouvida por 5.439 pessoas! Foi notável a redução feita no total exigido.

-- Torna-se, pois, necessário convidar mais três pessoas? -- insisti com bom humor.

-- De certo que sim -- confirmou Zualil -- vai procurar pelos arredores, ao longo da estrada, no caravançará junto à ponte, nas casas vizinhas, três conhecidos teus e traze-os aqui. Logo que os cinco estiverem reunidos, darei início à lenda.

Pela segunda vez assaltou-me o desejo de despedir o hóspede sem lenda e sem mais conversa. Que capricho tolo! Exigir que o dono da casa saísse a procurar pela vizinhança três pessoas que estivessem, naquela hora da manhã, disposta a ouvir uma narrativa fantasiosa. O melhor seria optar pelo conselho e abandonar a lenda.

domingo, 16 de abril de 2017

CLÁSSICOS do Valentim

Martinho da Vila: Mulheres



JÁ TIVE mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei

Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz

Mulheres cabeças e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz como você me faz

Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim.

sábado, 15 de abril de 2017

ESPAÇO Literário

Malba Tahan: O mestre-escola


Continuação da postagem de 14abr2017


Quando cheguei de volta à sala, tive a surpresa
de encontrar o meu hóspede em companhia de
um desconhecido
EM SEUS olhos claros brilhava uma grande alegria.

-- Não faltava mais nada! -- discordei com veemência -- Onde estaria eu no dia em que permitisse, em minha própria casa, o trabalho de um hóspede? Falemos linguagem singela e nua. Já não basta o que fizeste hoje? A jardinagem ficará para depois; dela encarregarei o meu ajudante. Vamos saborear, agora, qualquer gulodice, que já anda bem alto o sol e o Ramadã ainda não começou.

Convidei-o a voltar comigo à sala; abri a terceira janela e encostei a porta. No centro do tapete deixei o vistoso narguilé de prata, que refulgia como uma joia.

Voltando-me para o meu hóspede num tom não isento de cerimônia, disse-lhe:

-- Tem paciência, meu amigo. Ficarás sozinho por algum tempo. Vou preparar nossos manjares.