quarta-feira, 28 de abril de 2010

O BARCO e o transatlântico

SEM MEDO de ficar discutindo o sexo do anjos, trato neste nosso blogue da invasão abusiva de palavras estrangeiras ao labutar diário do falante da língua portuguesa, habitante humilde aqui deste Brasil nosso. Para tal me utilizo de uma matéria divulgada pela excelente revista Língua Portuguesa (foto ao lado)publicação bacana, supimpa mesmo, que nos foi presenteada pelo professor Xisto Praxedes, um estudioso desta última e maltratada flor do Lácio. 
O título é “A fatia estrangeira do idioma”, que apresenta logo a seguir, em destaque, um comentário curto, como uma espécie de subtítulo, “Câmara dá fôlego a projeto avesso a estrangeirismos”. O assunto serve de ilustração a um ensaio de um professor do Departamento de Lingüística da USP, sumidade no assunto, tendo como base um discurso feito por um senador da República em 1998, ocasião em que este protestava contra o excesso de expressões inglesas no idioma. Fala a matéria que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, na época (dezembro de 2007), aprovou projeto de parlamentar proibindo o uso de estrangeirismos no país. O projeto, já aprovado pelo Senado, deveria ir ao plenário da Câmara. Confesso que sobre esse projeto em si não nos interessamos por acompanhá-lo, visto que, provavelmente, não deve ter dado em nada, sob talvez o argumento de que ‘há coisas mais importantes para se votar’. Visualizo nessa batalha inglória algo de quixotesco, coisa assemelhada à visão de um barquinho ao lado de um transatlântico.
Em suma, o professor diz que a língua convive naturalmente com palavras e expressões estrangeiras, e que isso – a invasão de palavras e expressões estrangeiras – está longe de lhe causar algum prejuízo. Diz também que as palavras estrangeiras usadas já no cotidiano brasileiro estão plenamente incorporadas pelo falante, e que não têm correspondentes em língua portuguesa, por isso não há problema algum em serem usadas normalmente. Por exemplo, brother não é o mesmo que irmão, tradução literal, mas amigo; book não é igual a livro, e sim um álbum de fotografias que os modelos entregam nas agências, para que se veja como eles fotografam. Entre outros argumentos, diz mais:
“Sobre os estrangeirismos, os que acreditam na desagregação do idioma acrescentam que eles vão descaracterizar a língua. Não é verdade, porque eles não estão atingindo a sintaxe, a morfologia, a fonética da língua. Não alcançam sequer o chamado fundo léxico comum, que individualiza o idioma”.
Língua Portuguesa enriquece a matéria com duas opiniões de artistas sobre a convivência do falante da língua portuguesa com o excesso de estrangeirismos: um totalmente contrário (intolerante, o adjetivo usado na matéria), o paraibano Zé Ramalho; outro, tolerante, – indiferente, eu diria – apresentado pela revista como favorável, encarando com bom humor essa relação desigual entre a língua inglesa e a portuguesa, o maranhense Zeca Baleiro. Numa leitura atenta, este escriba inferiu que a revista pretendeu sugerir a seus leitores que o autor da composição “Samba do Approach” não faz objeção ao uso abusivo das palavras inglesas pelo nosso falante comum, não tendo qualquer restrição, apesar de usar de uma ironia fina, em contraponto à opinião do intolerante Zé Ramalho.  A opinião do professor XP não é bem essa. 
Professor XP pensa diferente da revista Língua Portuguesa; eu também. Mas quem sou eu para questionar o pensamento de uma autoridade no assunto como o professor da USP, tampouco discordar dos renomados editores de uma publicação conceituada como Língua Portuguesa?  Porém, como temos liberdade de expressão, ouso dar meu humilde parecer, como dizia Lima Barreto, e aí vai ele:
Nesse contexto particular da língua, levemos em conta há três segmentos sociais. Vamos a eles, não necessariamente nessa ordem de importância: Primeiro, o falante intelectualizado, inserido num contexto social privilegiado, que muitas vezes pratica o idioma por puro esnobismo, sem necessidade de praticá-lo; segundo segmento, o falante menos escolarizado, que, por conta de uma falsa interação social, pratica a repetição de termos estrangeiros por influência do primeiro e terceiro segmento sociais; terceiro e último segmento, a mídia televisiva e demais meios de comunicação social adjacentes, a agirem como elemento propagador dos termos estrangeiros, interferindo no vernáculo e no falar da sociedade brasileira.
Houve época em que aqui, por este país tropical, o idioma estrangeiro da moda era o francês, língua facilmente assimilável pelo falante brasileiro em razão da abundância de sons oxítonos (brevêbangalôguichê ...), como também pelo parentesco. Naquele tempo, o uso desse idioma evidenciava o prestígio social do falante, principalmente o das classes sociais mais abastadas, que podiam estudar na Europa. Porém, até em razão da sua sonoridade, as palavras da língua francesa logo foram adaptadas pelo falante comum para a língua portuguesa, o que não causou danos maiores ao idioma nativo. A imprensa, por sua vez, embora inicialmente elitista, passou a registrar os galicismos da maneira exata como povo falava, dando a mão à palmatória. Mais adiante chegou o inglês, inicialmente patrocinado pela poderosa Inglaterra – pioneira da Revolução Industrial – e mais tarde pela ascensão econômica fulminante dos Estados Unidos, favorecidos que foram principalmente pelas consequências funestas das duas grandes tragédias do século XX, que arrasaram o continente europeu.
Com o surto tecnológico, cultural e político concomitante, a língua inglesa tornou-se o idioma do mundo, uma exigência quase impossível ao habitante do planeta Terra de ignorar, sob pena de perder o bonde da História. Inicialmente restrito aos meios mais intelectualizados da sociedade, saiu às ruas com a colaboração dos meios de comunicação, que reverberou o uso indiscriminado do idioma.
Analisemos o primeiro segmento do contexto. Como diz o gramático, filólogo e professor Evanildo Cavalcante Bechara, sobre o uso indiscriminado do idioma inglês, ‘há muito mais esnobismo que necessidade’ (Língua nº 29, p. 16). Sabemos que toda língua é dinâmica, heterogênea, viva, que, entre outras características, pede emprestado a outras línguas expressões e palavras, como diz o próprio professor Bechara. Sobre isso, nenhuma divergência. Pois bem, da mesma forma que palavras como álcool, açúcar, batuque e jibóia, se incorporaram com o tempo ao nosso vocabulário, com as necessárias adaptações de grafia e fonema, de idêntica maneira, um dia, nossos bisnetos poderão vir a  escrever anglicismos como  blogue,   mauserárduereniquineimeróialti, e falarem essas palavras com naturalidade, sem que precisem enrolar a língua. Se a tecnologia formadora de opinião assim o permitir.
Perguntemos ao intolerante Zé Ramalho se ele tem algo contra se falar em futebol, basquete, biquíni, e certamente o artista paraibano responderá negativamente, nenhuma restrição, pois tais palavras estão totalmente incorporadas ao nosso vocabulário, e, igualmente às de origem francesa, prejuízo algum causam à língua de Camões. Hoje falamos com naturalidade tantas palavras cuja origem nem percebemos: dible, que antes já foi dribbling ("O drible da vaca", Língua 29, p. 65); futebol, que nos primórdios já foi foot-ball; time, que um dia foi  team, e gol, que se escrevia goal. Mas não nos esqueçamos de que, naquele tempo, o Sol não se punha no Império Britânico, e, por aqui, a mídia impressa – mais zelosa com o vernáculo – reinava soberana. Menos mal que a Inglaterra mandava no planeta, pois, se fosse o filho – como hoje – nosso esporte mais popular seria o beisebol ou talvez o futebol da bola oval. Ahg!!!
O uso desnecessário de palavras inglesas – soltas – dá ao falante das classes mais humildes a falsa ideia de inclusão, sugerindo um prestígio que, na verdade, se resume apenas ao mero esnobismo estéril, fenômeno  habilmente explorado pelos fabricantes, comerciantes, publicitários e outros profissionais da área. Um estabelecimento chamado shopping center acaba passando à maioria de seus frequentadores a ideia de status, em desfavor a  um outro conjunto de lojas que se chame, por exemplo,  Conjunto Nacional ou Pátio Brasil (ambos estabelecimentos existem de fato e estão localizados em Brasília). Essas lojas – com nome em bom português – nada ficam a dever aos milhares de shoppings centers, espalhados pelo Brasil a fora e não precisam usar nomes estrangeiros para vender mais.
Vamos ao segmento segundo: No caso da sociedade brasileira, porém, a invasão indiscriminada do idioma ficou de tal forma vulgar, sem controle, a ponto de o falante comum, gente do povo, o praticar sem que tivesse a menor noção da tradução – literal ou não – da maioria das palavras e expressões. Está na moda e se considera chique quem reproduz uma expressão ou palavra inglesa, e quem não o faz se sente fora do contexto, inferior, ignorante, excluído socialmente. Como exemplo, temos o famoso “x-búrguer”, o sanduíche dos carros de lanche. Ora, a maioria dos falantes comuns não tem a menor noção de que o ‘x’ da palavra  se refere a queijo,  apenas a difunde como o papagaio, a repetir o que costuma ouvir. Menos mal que, nesse caso específico, a improvisação vale como uma espécie de aportuguesamento do vocábulo estrangeiro original, o famoso jeitinho que o brasileiro dá para sobreviver.
Chegamos, finalmente, ao terceiro segmento: Na maioria dos casos não existe a mínima necessidade de enrolar a língua. Vejamos um exemplo difundido pela televisão e demais meios de comunicação adjacentes. O que quer dizer a sigla AIDS? Respondo: Síndrome da Imuno-Deficiência Adquirida (Dividi o vocábulo 'imunodeficiência' por uma questão de didática). E por que não SIDA, como se escreve e fala nos países de língua espanhola? A resposta é simples: No início da década de 1980, quando se começou a falar na doença, a televisão apenas repetiu - por comodismo, por esnobismo, não sei a razão - a sigla inglesa, sem a preocupação em traduzi-la para a língua portuguesa. O resultado é que todo mundo, no Brasil, fala AIDS e não SIDA. 
O uso de outros idiomas interfere na cultura? Sim, claro que interfere. O que dizer do hoje famoso Halloeen (não sei se está certo assim), ou o dia das bruxas, festa juvenil que não existia há vinte ou trinta anos?
É preciso dizer que se existisse um veículo tão poderoso como a televisão no início do século passado hoje possivelmente não estaríamos escrevendo futebol e sim foot-ball, e assim por diante, da mesma forma como os anglicismos e galicismos hoje tão comuns. 
Como ilustração, reproduzimos adiante a letra de “Samba do Approach”.

‘Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat
Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é high-tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado já foi trash
Fica ligada no link
Que eu vou confessar, my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho engov
Eu tirei o meu green card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop star
Mas já não sou nouveau riche
Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz como Damon Hill
Tenaz como Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Quero jogar no dream team
De dia macho man
E de noite uma drag queen”.
Diferentemente do que pretendeu passar a revista Língua Portuguesa, publicação ímpar no assunto, este escrevinhador não crê que um artista do nível de Zeca Baleiro, deduzindo pela qualidade de suas composições, concorde irrestritamente com essa invasão estrangeira ao nosso idioma, apenas usou as palavras de forma inteligente, numa espécie de sátira ao falante esnobe, colhendo um efeito sonoro sem igual, uma rara figura de estilo musical, característica que lhe é peculiar. Somou o útil (a sátira às pessoas esnobes) ao agradável (o original efeito de estilo musical).  Se você não pode vencer o inimigo poderoso, una-se a ele. Isso não significa necessariamente concordância, apenas uma espécie de coexistência pacífica.  
A nossa preocupação não é em si com a língua, mas com falante dela. É preciso dizer que, se “o idioma vai muito bem, não está decaindo, não está ameaçado de desagregação nem está corrompendo-se”, como disse o ilustre professor, o mesmo não se dá com o falante da língua, agravado ao das classes mais humildes. Este, mais perdido que cego em tiroteio, vagueando ao sabor das ondas, e acaba por prestigiar uma língua estrangeira em prejuízo do seu próprio idioma, onde verdadeiramente reside sua nacionalidade, como bem disse Eça de Queirós. 
O problema é antigo. Já em 1959, o baiano Waldeck Artur de Macedo, nome de batismo do músico e humorista Gordurinha, denunciava a invasão cultural norte-americana nas letras da excelente Chiclete com banana, um samba-roque imortalizado na voz do paraibano Jackson do Pandeiro, outro genial autodidata. O que o idioma tem a ver com a cultura? A resposta é óbvia, e não preciso nem dizer. Gordurinha diz por meio da música que aceita os costumes norte-americanos desde que eles concordem com os nossos, uma relação desigual desde aquela época. Reproduzimos adiante a letra:

‘Eu só ponho bebop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba /
Quando ele aprender que o samba não é rumba //
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim
( ... )
Quero ver a grande confusão
Olha aí o samba-roque meu irmão
É mas em compensação
Eu quero ver o boogie-woogie 
de pandeiro e violão.
Quero ver o Tio Sam de frigideira
Numa batucada brasileira.’ 
O uso de expressões estrangeiras na música não é nenhuma novidade. Incluo nesta postagem outro exemplo de empréstimo musical. Reproduzimos adiante a letra da música “Pret-a-Porter de Tafetá”, em que o uso da imitação do som de palavras francesas, língua abundante em oxítonas, é  habilmente explorado pelo cantor e compositor mineiro João Bosco, que assim produziu um efeito sonoro interessante, divertido e bastante musical. Nenhum protesto, portanto; somente uma brincadeira, talvez sem pretensão política alguma:
 “Pagode em Cocotá /
Eu vi a nega rebolar/
Num preta-porter de tafetá /
Beijei meu patuá /
oi sambá oi ulalá/
Mé carrefour /
O randevú vai começar /
Além de me empurrar /
Kes que sé tamanduá /
Purquá jé suí du zanzibar/
Aí eu me criei /
Pas de bafo meu bombom /
Pra que zangar /
Sou primo do Villegaignón /
Voalá e çava patati patata /
Boulevar sarará /
Sou da praça Mauá /
Dendê matinê padedê /
Meu peticomitê /
Bambolê encaçapo você /
Taí seu Mitterrand /
Marcamos pra manhã /
Em Paquetá /
Num flamboyant en fleur /
Onde eu vou ter colher /
Pompadú zulu /
Manjei toá bocú.”/
Para concluir, o título do meu blogue já está aportuguesado. Lógico que não cultivo ojeriza ao uso, quando necessário, de expressões e palavras estrangeiras, o que combato é o exagero no uso. E se são realmente necessárias e vieram para ficar, que tal aportuguesá-las? 

Fiquem com Deus. E vamos às histórias dos subúrbios.

E DURMA-SE com um barulho desses!

CHICO Toicinho, depois de longa estada nos Istêitis, era agora outro homem. Fino, elegante, bem diferente daquele caipira rústico e simplório, que tinha saído do interior de Minas fazia alguns anos. Um gentleman, enfim. Mudou até de nome.
  – Chico Toicinho, não! –  protestava. – Francis Bacon!  



Caso tenha algo interessante para divulgar neste blogue, contate-nos: valentim1574@yahoo.com.br 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

2 comentários:

  1. Muito bom. O uso de expressões em inglês às vezes mostra só esnobismo de quem fala. Carlos

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  2. É verdade. Devemos valorizar o nosso idioma.

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