sexta-feira, 23 de abril de 2010

O LEÃO e a Hiena


 UMA DAS diversões da minha infância era assistir pela televisão aquelas séries de desenhos animados, inesquecíveis para um quase cinquentão como eu. Um de meus preferidos era um leão e uma hiena. Lippy era o leão, e Hardy, a hiena. Detalhe: Hardy era uma hiena que nunca ria, uma hiena pessimista. Viviam na cidade, sempre famintos. Lippy e Hardy, como é normal nos desenhos animados, desde as fábulas de Jean De La Fontaine, eram animais antropomórficos, ou seja, andavam como gente, falavam como gente, enfim agiam como gente. E, igual a maioria, viviam na cidade, para onde migraram, naturalmente expulsos pelo homem de seu habitat: a selva.
Os bichos personificavam o comportamento humano, sendo no fundo uma crítica à sociedade humana, principalmente a americana e seu ‘American Way of Life’, que copiamos por aqui no hemisfério sul. Lippy, um eterno otimista; Hardy, sempre pessimista – ou realista, conforme a ótica de cada um. Seu bordão predileto era assim: ‘oh dia, oh vida, oh azar’, ou então ‘nunca sairemos daqui com vida’, ou ainda ‘morreremos de fome’. Ao passo que Lippy sempre tentava confortá-lo, dizendo: ‘sossegue, Hardy, logo encontraremos comida’. Às vezes completava: ‘nem que tenhamos de fazer uma coisa horrível: trabalhar’.
Há no contexto outras facetas, somente visíveis a olhos adultos, mais experimentados, o que não era o nosso caso, que somente estávamos a procura de diversão ingênua, indiferentes aos problemas dos adultos. No seu íntimo, os autores, ainda que inconscientemente, queriam mostrar uma questão, que naquela época sequer era mencionada: a ecologia. Ecologia, naquela década, já distante, uma coisa impensável – não era moda –, quando o assunto maior era a guerra do Vietnã, e ainda os movimentos pacifistas ‘paz e amor’ dos hippies. Claro, a ideia reinante de progresso era derrubar árvores e construir estradas e prédios. Campos e selvas eram coisas inesgotáveis, para que se preocupar com isso?
Pela moral da série de desenho animado, com a invasão das matas pelo predador bicho-homem, os bichos tinham de buscar comida, já tão escassa, e com isso acabavam por invadir as cidades, arriscando-se, e o resultado era uma série interminável de perseguições e situações difíceis, vivenciadas pelos nossos heróis, Lippy, o leão, e Hardy, a hiena, que ao final sempre sobreviviam. E hoje ainda é comum nas estradas vermos raposas, tatus ou camaleões esmagados pelas rodas dos caminhões e automóveis.
Emblemática, e igualmente invisível aos nossos olhos infantis, era a simbologia ali embutida naqueles dois animais. De um lado, um leão, forte, imponente – ainda que, por estar como um peixe fora d’água, vivesse em condição humilhante na cidade –, significando comportamentos positivos como a força, a temperança, a altivez, a persistência, virtudes louvadas no ser humano. Em contraponto, a hiena, animal necrófago, repugnante, covarde, aproveitador que se alimenta dos restos deixados pelo leão e outros animais selvagens. Na sociedade ocorre a mesma coisa, convivendo pessoas dos mais diversos tipos de conduta, vícios e virtudes. A hiena evidenciando a fraqueza moral, incluindo aí a apatia e o pessimismo, comportamentos tão comuns no bicho-homem. Na selva de pedra, a exemplo da hiena, o homem, em significativa parcela, de certa forma também se alimenta de restos, restos que ele mesmo produz. Aproveita-se da força de trabalho alheia, explorando maquiavelicamente o seu semelhante. Alguma dúvida até aqui? O que dizer da criança pedindo esmola nos semáforos, cena degradante tão comum nas cidades grandes? O que dizer da prostituição infantil e das propagandas de bebidas, que mostram sorrisos e rostos e corpos bonitos? De certa forma, a sociedade acaba sobrevivendo dos restos.
De outro lado, a realidade comportamental dessas duas espécies apresenta-nos uma outra faceta: o comodismo. Sim, porque o leão na realidade é um bicho preguiçoso, explorador, acomodado com a fama de rei dos animais. Vive da força de trabalho da fêmea, encarregada de caçar e de lhe servir a melhor parte, para somente depois disso, servir a si mesma e aos filhotes. O comportamento de muitos humanos nesta selva de pedra também se assemelha ao do rei dos animais. O trabalho, para muitos, é apenas um castigo, como ficava patente na expressão de Lippy: ‘nem que tenhamos de fazer algo horrível: trabalhar’.
Mas, voltando às fantasias de nossa infância, era tudo diversão e, nós, na nossa meninice ingênua, porém feliz, não tínhamos olhos para enxergar esses problemas que não eram nossos, e que os adultos da época ainda não conseguiam ver. Meio ambiente agredido era uma coisa tão distante naquela época, ainda que o leão e a hiena, seres díspares, já estivessem na cidade em busca de alimento, igualmente ao homem do campo na cidade, perdido, em busca da sobrevivência. Tempos bons, que não voltam mais, como dizia o Lilico.
Agora, com licença, vou tomar um cafezinho.



Por incrível que pareça!

Vicente Mateus acompanhava o time do Corinthians, chefiando a delegação, para mais um jogo no interior pelo Campeonato Paulista. Como o ônibus quebrou, tiveram que pernoitar em um hotel da cidadezinha mais próxima até que outro ônibus fosse providenciado. O atendente então perguntou:
‘Vocês têm reservas?’
Mateus, irritado, respondeu: ‘Que reserva que nada, aqui no Corinthians todo mundo é titular!.’  



Caso tenha algo interessante para divulgar neste blogue, contate-nos: valentim1574@yahoo.com.br 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Um comentário:

  1. EXCELENTE esta crônica, Valentim. Parabéns, Lippy, o Leão, e Hardy, a Hiena, representam bem comportamentos humanos, como o otimismo (fé, esperança, força...) e o pessimismo, pensamento oposto, muito comum na sociedade. Prof. XP.

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