terça-feira, 11 de maio de 2010

A LÂMPADA escondida


UM DIA passava certa mulher e se deixou a observar um acidente de trânsito. Era um caminhão acidentado, que, ao tombar, veio a atingir outros carros. Havia muitas pessoas em volta, igualmente curiosas. Chegaram os bombeiros, ambulância e polícia. Minutos depois chegaram também equipes de reportagens: jornais, televisão e rádio, todos ávidos por notícia. Para os curiosos, um assunto para a semana inteira com os familiares, amigos, vizinhos, conhecidos. Apenas mais um acidente com vítimas, entre tantos e tantos na cidade grande. Mais uma notícia nas páginas policiais, mais uma matéria nos telejornais. Morte, coisa tão banal.

Os bombeiros foram retirando as vítimas, uma a uma. De repente, um semblante a modificar-se: a curiosidade se mudando em desespero, horror, pânico, lágrimas, um sentimento de impotência, enfim. Uma das vítimas era filho da dita senhora, filho único.

É muito comum agirmos como a aquela senhora. A vida e seus meandros – alegrias e tristezas – naturalmente seguindo seu curso inexorável. Se conosco, desnorteados, sem rumo ficamos, sem ideia de para onde seguir; nenhuma noção de que atitudes tomar, inseguros. Quantas vezes na vida nos sentimos assim? E ao menor contratempo.

Recentemente – escrevo o texto ainda em janeiro de 2010 – os meios de comunicação social deram conta de duas catástrofes naturais: no Brasil, pela passagem de ano, deslizamentos de terra no estado do Rio de Janeiro, enchentes em São Paulo e no Rio Grande do Sul; no Caribe, Haiti, uma de proporções gigantescas, um terremoto que destruiu todo um país, afligindo todo um povo, não deixando esperança, e que veio a desolar a todos nós. Haiti, um país pobre, o mais pobre das Américas, um povo sofrido, miserável, vítima há mais de dois séculos de toda a sorte de problemas: da natureza ou provocados pela mediocridade da alma humana.

Temos a sensação de que as tragédias, os infortúnios – qualquer que seja a natureza – acontecem apenas com os outros; fatos (muitas vezes novelescos), de tão distantes de nós, que são apenas notícias, avidamente buscadas pelos profissionais de imprensa, friamente digeridas por nós ao café da manhã na leitura do jornal, um programa rotineiro após o almoço, ou jantar, nos telejornais. Coisas distantes da nossa vida, do nosso dia a dia.

Fatos se sucedem nesse corre-corre, nessa vida louca e agitada deste século XXI da informação imediata dos meios eletrônicos, dos comportamentos celeremente mutáveis a cada nova tecnologia divulgada. A tragédia do ontem já foi esquecida, substituída pela do hoje, que, por sua vez, será também facilmente por nós esquecida quando se tornarem públicos outros fatos, preferencialmente trágicos, qualquer que seja a sua natureza: política, por ter sido descoberta outra pessoa pública desviando dinheiro público; policial, por ter saído na tevê algum confronto de polícia versus bandido; de catástrofe natural, por algum tsunami, terremoto ou enchente de grandes proporções, preferencialmente com muitas vítimas.

Daqui a poucos dias virá o carnaval, e poucos se lembrarão de Angra dos Reis, de São Luís do Paraitinga, de Agudos no Rio Grande ou até mesmo do Haiti – ainda porque esse país está distante geograficamente de nós, não é mesmo?! E depois do carnaval virão os campeonatos de futebol. Nada contra carnaval e futebol, questão apenas de escalonar valores.

A vida assim se sucede. A dor, porém, permanecerá nos corações desafortunados, para quem os fatos não se resumem meramente às manchetes, aos comentários e imagens, mas à realidade nua e crua, dolorida, sem fundo musical ou trilha sonora.

Há pouco foi Natal e virada de ano. Natal, e a grande mídia – e todos nós, porque não dizer – festejando a figura do papai Noel: comércio cheio, compras, presentes, ceia; fim de ano, fogos, festas, e a roupa da virada – preocupação fútil de tantos. Enquanto isso poucos, poucos mesmo, lembrando do verdadeiro aniversariante e grande dádiva de Deus à humanidade: O grande mistério da encarnação de Nosso Senhor, o Deus menino.

Voltemos ao assunto. Quantos não se lamentaram – e continuarão a se lamentar por muito tempo – da natureza e das perdas de seus amigos, filhos e filhas, a dor – indescritível para quem não a sente – a permanecer em seus corações, quem sabe, pelo resto de suas vidas. Mas nem todos, nem todos têm a consciência de que a vida é uma dádiva de Deus, cabendo a nós, seus filhos, conservá-la, fazendo bom uso dela. No entanto, o Criador é o Senhor de todos nós, e assim como nos deu a vida também pode tirá-la, e não cabe a nós saber quando. E nós? Estamos preparados para isso? Ouso responder que não estamos, exceto poucos. Não sabemos do nosso amanhã.

Uma jovem – dezessete anos, se me lembro bem – filha única, todo um futuro pela frente, e – de repente – sua vida se foi. Cheia de sonhos e planos, tudo natural. Seu ciclo, porém, se concluiu.



— Como se concluiu? Alguém poderia perguntar. É natural para todos nós entendermos um ciclo de vida como sendo nascer, crescer, constituir família, reproduzir, envelhecer e morrer aos oitenta, noventa, cem anos. A todos é lícito entender dessa forma e assim vivermos, tentando levar adiante nossos planos e sonhos, erros e acertos (muitas vezes mais erros que acertos).

Não nos iludamos. Escondemos a lâmpada em baixo da mesa. Papai Noel é mais visível que o Jesus Menino – este nasceu pobre em um cocho, no frio e no odor forte dos animais, já aquele vende muito, aquece a economia; Momo, para muitos, é mais importante que o Jesus crucificado e ressuscitado, humildade, amor e paixão por todos nós, vis pecadores; aquele, porém, alegria – embora fugaz – e ... lucros. Mas, afinal de contas, é quem traz turistas para o nosso país, promovendo a imagem do Brasil no exterior.

A lâmpada existe para iluminar a todos nós, e não para ser escondida. É lícito sabermos quando será o fim do nosso ciclo? Óbvio que não. Se um boi soubesse o fim que lhe reserva o destino, não se deixaria abater e virar bife na mesa do homem. Nós, se soubéssemos o nosso dia, frágeis como somos, cairíamos – salvo as pessoas dotadas de grande espiritualidade – em desespero total. Devemos ser fortes, conscientes de que não somos senhores da nossa vida. Ela é um empréstimo, um talento que recebemos e do qual devemos prestar contas ao Dono, não sabendo o dia em que Ele chegará. Para cada um de nós, individualmente, poderá ser hoje, amanhã ou daqui a trinta anos. Não sabemos.


DIÁLOGO de um casal ainda no início da convivência! 


— Finalmente!!! Custou tanto esperar por este momento.

— Você quer que eu vá embora?

— Não! Nem pense nisso.

— Você me ama?

— Claro! Muito e muito.

— Alguma vez você já me traiu?

— Não! Por quê? Ainda pergunta?

— Me beija?

— Evidente! Sempre que possível!

— Você seria capaz de me bater?

— Você está doida? Não sou desse tipo de homem!

— Posso confiar em você?

— Sim.

— Querido!

(Extraído do Jornal de Beltrão, edição de 11 maio 2010)




Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 



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