sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A FUGA do Danilo - 3ª parte


 ...continuação da postagem do dia 14nov.2010.

A MADRUGADA encontrou-o entorpecido, sonolento, abatido pelo cansaço, porém não vencido. Como havia lhe prometido, o italiano voltou, trazendo-lhe comida. Alimentou-se como pôde, pois o apetite não podia ser grande. As primeiras 24 horas tinham passado e ele não havia sido descoberto. Se o “inglês” sabia mesmo o que dizia, a sua possibilidade de fuga aumentara um pouco. Mais animado, convenceu o camponês de arranjar-lhe umas roupas civis, em troca das suas. O pobre italiano, embora relutante, concordou, ficando com a sua roupa de vôo. O gaúcho vestiu a roupa velha e surrada que conseguiu, conservando as calças de gabardine de lã do uniforme e as botinas, que pintou de preto, ainda com o auxílio do italiano. Ficou de posse de sua bolsa de fuga, com algum dinheiro italiano e com a bússola, os fósforos, os medicamentos especiais e os mapas da região estampados em seda. Distribuiu o que restou da bolsa de fuga pelos bolsos de sua “nova” roupa velha. Inadvertidamente conservou o seu relógio de pulso. Não pensou naquilo, só muito mais tarde notou que o conservava no pulso. Agora, com boné velho na cabeça, com uma broa bem italiana amarrada em um lenço estampado em vermelho metido debaixo do braço, como o costume da terra, com a sua famosa barba azulada de um dia de idade, poderia passar bem por qualquer italiano da Calábria. O seu moreno carregado e o seu otimismo invulgar lhe davam esta pretensão. Metido nesta roupagem, começou a sua fuga original. Com a ajuda de seus mapas e muito mais com ajuda do italiano, orientou-se na região em que se encontrava. Voando, a coisa era muito mais fácil do que em terra, afirmou o gaúcho. Não havia nenhuma referência a mão... o “inglês” do “Army” (Serviço Secreto) havia ensinado em suas aulas como deveria proceder em situações como a que se encontrava o nosso herói. Sim, devia seguir o caminho mais próximo de gente amiga, ou seguir para as montanhas, onde sabia existirem os partisanos, ou ainda procurar alcançar a fronteira suíça e ser internado.
Isso seria naturalmente o mais lógico, dado a posição em que se encontrava em relação àquelas alternativas. Não se preocupou com estes detalhes “sem importância”. Ele era mesmo diferente. A distância mais curta estava ao Norte. Não conversou. Meteu rumo Sul, que era o de Pisa, onde a “gaita” deveria sair no dia 28 de cada mês. Sim, tinha de chegar antes do pagamento, pois do contrário passaria a desaparecido, ou qualquer outra coisa burocrática, e seria o diabo para receber aquelas liras. Conta ter sido esta sua maior preocupação. Acredito sinceramente que seja verdade. As reações do homem eram todas diferentes. Outro igual será muito difícil existir.
Guiado pelo italiano, desembaraçou-se do reticulado das estradas secundárias, que não constavam no mapa de fuga, e de bicicleta – o camponês levou-o no quadro – alcançou a estrada principal que o levaria a Padova. Diz ele que, comovido sinceramente, despediu-se do “paisá”, que lhe desejou muitos “alguri” e quis beijá-lo à moda da terra. Mas ele não consentiu. Homem, não! Para encurtar a despedida, prometeu-lhe que, terminada a guerra, voltaria para revê-lo. Queria ver o vestido feito de pára-quedas que a irmã do “contadine” iria fazer, assim que s alemães saíssem da sua terra. –  sou testemunha de que o gaúcho cumpriu sua palavra, voltando para ver o vestido de seda branca de seu pára-quedas e que também deixou-se beijar à maneira daquele povo. Quando prometera que voltaria para rever o seu novo amigo, estava muito longe de pensar que isso realmente aconteceria.
Estava só, na estrada principal para Padova e durante o dia. Tudo ao contrário do que o “inglês” lhe dissera para fazer. Um ótimo começo, sem dúvida... Isto não preocupava em absoluto. Seria de quem tivesse as melhores cartas. Ele também era um bom jogador.
Continua... 


LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

CRIE filhos em vez de herdeiros

Campanha publicitária do Citibank espalhada pela cidade de São Paulo.
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    • "Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete."
    • "Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela."
    • "Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama."
    • "Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas."
    • "Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?"
    • "Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos."
    • "Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas..."
    • "...e quem sabe assim você seja promovido a melhor (amigo/pai/mãe/filho/filha/namorada/namorado/marido/esposa/irmão/irmã, etc.) do mundo"!
·         "Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos".
E para terminar:
    • "Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço." 

domingo, 14 de novembro de 2010

A FUGA do Danilo - 2ª parte

...Continuação do dia 11nov.2010.

DEVIDO à missão de que se ocupava na ocasião – metralhamento de composições ferroviárias num entroncamento fortemente defendido –, devia ter saltado à baixa altura, o que não encorajava a prognósticos muito otimistas acerca de sua “caveira”. Sentiu-se a falta do gaúcho, mas a guerra continuava, e se não tivesse sido ele seria um outro qualquer de nós. Não havia tempo para lamentações. Talvez por respeito, por sentimento, ou qualquer outro motivo, suas anedotas não eram mais contadas, mas lembradas com um cunho de saudades. Sua voz estridente não era mais ouvida na garagem, e penso mesmo que os praças que comandava sentiram a falta de suas ordens aparentemente gritadas, na maneira características que todos gozavam. Ele não voltou naquela manhã de inverno. O que teria acontecido? Era a dúvida de todos. Os dias se passaram e logo o pessoal se conformou, e a alegria foi até maior quando da sua volta, após sua fuga excepcional, que só ele mesmo conseguiria realizar com êxito.

O GAÚCHO foi abatido, por armas automáticas, muito distante de nossa base, Pisa. Aproximadamente uma distância equivalente entre as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, ou talvez mais. Saltou a baixa altura e, como Deus também é gaúcho, chegou ao solo com felicidade, nada mais lhe acontecendo do que um corte na língua, que mais tarde lhe foi providencial. Conta ele que, ao chegar ao chão – o que aconteceu muito rápido, pois o pára-quedas apenas se abriu, ele sentiu o tranco e logo em seguida tocou ao solo, mordendo a língua neste momento –, ficou um pouco desorientado, sem saber qual atitude a tomar. Venceu a indecisão inicial. Colhe rápido o pára-quedas e afastou-se do local da queda. O campo em que caíra estava coberto de neve. O trigo já havia sido colhido e sua palha empilhada para servir de alimento ao gado durante o inverno.
Encontrava-se em campo aberto, sem saber o que fazer. Recordou-se, disse ele, das aulas do “inglês”, dos “macetes” (Serviço Secreto), e ainda sem saber o que fazer ocultou-se no primeiro monte de palha, pois alguém se aproximava. Era um italiano, camponês, aparentemente inofensivo. Entretanto, naquela situação, não podia confiar em ninguém. Tinha que ter certeza. O “inglês” havia ensinado assim. O homem do campo aproximou-se, e ele ficou na indecisão de “pregar-lhe um tiro na cara” ou conversar com o “paisá”. Decidiu-se pela última alternativa. Esperou. O italiano falou-lhe primeiro. Ainda desconfiado, e com muito medo, dispôs-se a ouvir o italiano, que na sua simplicidade, no isolamento em que vivia, nunca poderia imaginar o quanto esteve próximo de levar um tiro na cara. É necessário que se faça uma ressalva para louvar a coragem, o desprendimento desinteressado destes camponeses italianos, que, mesmo sem ignorar as conseqüências – os alemães não faziam mistério das represálias e castigos que infligiriam a todos que ajudassem os Aliados -, ofereciam a sua ajuda a estranhos, da mais nobre maneira, dentro de suas limitadas possibilidades. O nosso gaúcho estava frente a um destes heróis anônimos. Este lhe perguntou, na sua maneira simples e substancial: inglês ou americano? O “Fabiano” prontamente respondeu: Americano. O bom homem não entrou em pormenores. Escondeu-o mais ainda no monte de palha, cobrindo-o todo, dizendo-lhe que voltaria mais tarde.

HORAS amargas deve ter passado o “Índio”, sozinho, debaixo daquela palha úmida, com frio e muito mais medo, sem sossego de espírito, aguardando o que viria depois, mas que imaginava ser o pior. Não teria sido melhor ter passado o “recibo” no italiano? Naquela solidão escura e umedecida do monte de palha a sua cabeça não o deixava em paz um só instante. Estava ficando desesperado, pensando que não mais suportaria a situação. Nessa luta íntima, o tempo foi passando e havia sempre uma esperança, a que, como bom jogador de pôquer – ele considerava todos os ângulos –, mantinha-o sempre com um restinho de moral. Foi justamente este “restinho” de moral que o fez suportar aquelas primeiras horas terríveis. A palha molhada o incomodava profundamente, porém o desconforto moral era muito maior. Se fosse outro, pensaria com raiva nas poesias que tanto falavam de odor úmido dos campos. Mas ele nunca tomou conhecimento da existência de poesias. Com muito frio e medo, foi suportando a noite inteira, muito mais fria que quase todo o dia que passara naquele estado deplorável. Sentiu-se enregelado, o corpo começava a se ressentir da posição forçada debaixo da palha, “mas tudo isso era bobagem – contou ele – comparado com o estado de ânimo de que me sentia possuído”. Confessou que esteve próximo a entregar-se ao desespero, desistindo de uma vez. Nessa indecisão, agüentou valentemente a noite fria. O gaúcho era especial de verdade. Valente, simples, inconsciente de sua força moral, enfrentou tudo aquilo com uma galhardia inigualável, com uma naturalidade nata, só compreendida pelos que com ele privaram. Ao contar a sua história, depois de sua volta, sentia-se que estava sendo sincero no seu relato, sem preocupações de se fazer herói.

continua ...

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

sábado, 13 de novembro de 2010

MARIDO de Mulher Boa, impagável apresentação de ZÉ Trindade

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A FUGA do Danilo - 1ª parte

(Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas)

Por ARMANDO de Sousa Coelho


ENTRE os gaúchos do 1º Grupo de Caça na Itália havia um todo especial. Um tipo diferente, ímpar por suas atitudes e reações, completamente despido de maldade, simplório na sua maneira de ser, sem inibições. Enfim, uma figura simpática, apesar de sua barba espessa, que azulava ao sol e parecia estar sempre por fazer. Embora muita gente não concorde comigo, era inteligente e vivo, mas recusava-se terminantemente a pensar durante muito ou mesmo pouco tempo, falando, por isso, de um modo todo peculiar, o que o tornou muito popular entre os fazedores de anedotas, que por sinal, foram muitas a seu respeito. Usava o “dialeto” gaúcho com perfeição, e até mesmo exagerava, diziam muitos... Tudo isso, mais outras coisinhas, e finalmente a sua fuga – o que contrariou todas as regras do bom senso, especialmente o dos técnicos no assunto -, tornaram-no personagem muito mais importante, pois passou da anedota para a “ópera”. Sim, uma “ópera” inédita aos estranhos ao Grupo, em que os poetas do 1º Grupo de Caça “imortalizaram” – para uso interno – os feitos daquele gaúcho de Cachoeira do Sul. É deste “pração” que ocuparei nesta história, que a muitos parecerá mais uma anedota, mas que é a pura verdade.

Num dia de inverno, ensolarado, mas bastante frio, com a neve ainda cobrindo o Norte da Itália, ele saiu para mais uma missão com sua esquadrilha. Estivemos juntos pouco antes, enquanto fazia os últimos preparativos para voar. Estava bonito, bem uniformizado, barbeado com um capricho até mesmo desnecessário, pois sua barbeado com um capricho até mesmo desnecessário, pois sua barba azulada ficaria oculta, de qualquer jeito, pela máscara de oxigênio. Ora! Afinal, ele era todo especial. Parecia pronto para ir ao encontro da “buona sera”. Vestiu sobre o fardamento caprichado, o macacão de vôo, forrado de tecido peludo e quente, próprio para grandes altitudes, começando a transpirar imediatamente, o que mais realçava o azul de sua barba. Aquela indumentária era realmente muito quente. Conversamos ainda um pouco. Partiu. E nessa manhã... ele não regressou! Foi abatido muito ao norte de nossa base. Ninguém soube exatamente o que acontecera. Ouviram-no dizer, pelo rádio, que ia saltar de pára-quedas.
(continua ...)