terça-feira, 21 de junho de 2011

ABRINDO o sarcófago: Eu também vou reclamar (Raul Seixas, 1976)

ERA ano de 1976. O BRASIL vivia tempos duros, de pouca liberdade de expressão, e a arte era bastante policiada. Raul Seixas era um dos poucos que quebrava o paradigma dos cantores bem-comportados, protestando de forma inteligente. Nessa época surgiram outros como Belchior e  Silvio Brito, que fugiam à regra, reclamando, protestando.  É também em referência a estes a letra irreverente de Raul.

Já que a onda era reclamar, Raul lançou essa música bem-humorada. Confira e veja porque Raul Seixas estava bem à frente de seu tempo.




Eu Também Vou Reclamar

Mas é que se agora pra fazer sucesso
Pra vender disco de protesto
Todo mundo tem que reclamar

Eu vou tirar meu pé da estrada
E vou entrar também nessa jogada
E vamos ver agora quem é que vai güentar

Porque eu fui o primeiro
E já passou tanto janeiro
Mas se todos gostam eu vou voltar

Tô trancado aqui no quarto
De pijama porque tem
Visita estranha na sala
Aí eu pego e passo a vista no jornal

Um piloto rouba um "mig"
Gelo em Marte, diz a Viking
Mas no entanto
Não há galinha em meu quintal


Compro móveis estofados
Me aposento com saúde pela assistência social

Dois problemas se misturam
A verdade do Universo
A prestação que vai vencer
Entro com a garrafa de bebida enrustida
Porque minha mulher não pode ver

Ligo o rádio e ouço um chato
Que me grita nos ouvidos
Pare o mundo que eu quero descer

Olhos os livros na minha estante
Que nada dizem de importante
Servem só prá quem não sabe ler

E a empregada me bate à porta
Me explicando que tá toda torta
E já que não sabe
O que vai dá prá mim comer

Falam em nuvens passageiras
Mandam ver qualquer besteira
E eu não tenho nada prá escolher

Apesar dessa voz chata e renitente
Eu não tô aqui prá me queixar
E nem sou apenas o cantor

Que eu já passei por Elvis Presley
Imitei Mr. Bob Dylan, you know...
Eu já cansei de ver o Sol se pôr

Agora eu sou apenas um latino-americano
Que não tem cheiro nem sabor

E as perguntas continuam
Sempre as mesmas
Quem eu sou?
Da onde venho?
E aonde vou, dá?

E todo mundo explica tudo
Como a luz acende
Como um avião pode voar
Ao meu lado um dicionário
Cheio de palavras
Que eu sei que nunca vou usar

Mas agora eu também resolvi
Dar uma queixadinha porque eu sou um rapaz
Latino-americano que também sabe
Se lamentar

E sendo nuvem passageira
Não me leva nem à beira
Disso tudo que eu quero chegar
E fim de papo!

"A VIDA era bem mais simples quando o que honrávamos era pai e mãe ao invés de todos os principais cartões de crédito." Autor desconhecido

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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