quarta-feira, 15 de junho de 2011

SOBRE o 'Baile da despedida' - 2ª parte

LIDA apenas a primeira parte do livro, como dito antes, o autor opta pela narração em primeira pessoa. O narrador-personagem não diz o seu nome, até agora. Visto não tenha lido outras obras de Josué Montello, não sei dizer se essa característica se extende a todas as obras do escritor, ou se é uma peculidade desse livro apenas. Isso, sendo uma singularidade, não é o mais importante na obra. Fosse assim, pouco diria.

O autor une a verdade histórica - o baile da Ilha Fiscal existiu - à capacidade imaginativa da narração, qualidade própria dos grandes escritores. O jornalista, personagem principal, consegue afinal, a despeito do pessimismo de todos com quantos ele conversa nas ruas de São Luís do Maranhão, e da mulata Salustiana, empregada de Catarina, conversar com a senhora. Não apenas conversar, mas, por ter caído nas graças da octogenária pela sua semelhança física com Benito, fazer parte da convivência da idosa, que lhe narra pormenores - inclusive detalhes da sua intimidade - do baile, dos seus antecedentes, do vestido da festa, que ela guarda exposto em uma vitrina, do seu grande amor Benito, o oficial chileno, em companhia de quem teria ido à grande noite da Ilha Fiscal.

NADA resulta fácil na missão de buscar a verdade, pois dessa forma, como já disse antes, o livro resultaria em poucas páginas, nada dizendo ao leitor além do fato histórico conhecido. O comportamento de Catarina - que esteve internada em um hospital psiquiátrico - oscila entre a narração de detalhes que outro - ainda mais na idade da anciã - não teria condições de guardar na memória, sem em nenhum momento cair em contradições por menores que fossem, mas - aí as dúvidas do jornalista e também dos leitores -, vez por outra, deixa cair por terra toda a credibilidade de sua narração, chegando ao ponto de dizer que a cada semana recebe visita do imperador. 

Isso, somado ao depoimento de seu médico, o doutor Djalma, leva o jornalista, por escrúpulo, à decisão de voltar ao Rio de Janeiro sem uma lauda sequer do assunto, contrariando os anseios de seu chefe e amigo, o Castrioto.  

"  - Pelo amor de Deus, não me digas que não trouxeste pronto o texto precioso. Era a pior notícia que podias me dar."

   - Não, não trouxe, Castrioto. Ainda estou em dúvida se a tal senhora foi mesmo ao baile da ilha Fiscal. O que ela diz tanto pode ser verdade quando pode não ser. Na dúvida, adiei a rerportagem. Mas, sobre a vida dela, trouxe matéria para escrever um livro, que já comecei."

Como os bons ficcionistas, à moda machadiana, Montello não dá clareza a respeito da realidade. Tanto Catarina foi ao baile realmente, tal a riqueza de detalhes que dá, quanto tudo pode ser apenas fruto da sua imaginação, que fez com os anos verdade para si. Quanto à insanidade de Catarina, não há dúvidas. Viveu alguns anos aos cuidados do doutor Juliano Moreira (que existiu historicamente), autoridade em psiquiatria, que, não lhe conseguindo a cura, fez-lhe dócil, permitindo-lhe a terapia do vestido de baile, ao qual dia após dia se dedicava à feitura. Era acabar um vestido e começar outro, terminar um e iniciar outro...  No entanto, tudo o que ela diz faz sentido e está de acordo com os jornais e revistas da época. A existência do convite, que em princípio dá a prova de que Catarina não foi ao baile (o convite deveria ter sido entregue aos recepcionistas a fim de evitar penetras), nada provou; Catarina recebeu do chileno dois convites, um para si e outro para sua amiga, Zuza, cuja existência o jornalista comprovou. Como Zuza não foi ao baile - tudo segundo dona Catarina - seu convite ficou exposto na vitrina como lembrança daquela noite magnífica.

O interessante nisso tudo é que, sem que o protagonista se desse conta, à essa altura praticamente toda a sociedade da provinciana São Luís dá a amizade do jornalista com dona Catarina como um romance, e do romance para o noivado, e assim era certo o casamento dos dois. Catarina, 80 anos, fora uma mulher muito bonita, e ainda guardava alguma beleza como a teimar com o tempo insistindo em conservar a juventude e a fantasia daquela noite de novembro de 1989, que ela a cada dia rememorava com os vestidos e com o convite, os jornais e tudo que lhe lembrasse a ocasião, relíquias guardadas num baú. O jornalista, 32 anos, bonito, famoso, certamente não teria de esperar muito para desfrutar dos milhões da octogenária, além de fazê-la feliz nesse tempo restante de vida, lembrando-lhe o seu Benito, cujo navio jamais regressou.

A notícia do romance de 'Benito' com Catarina chegara ao Rio de Janeiro. Em São Luís até lhe apareceu um oportunista, com uma conversa bem ensaiada, e cujo fim era não outro que lhe pedir dinheiro. O jornalista, noivo de uma milionária, também rico estava. Não conseguiu nada, nem o dinheiro do bonde.

Diante disso - o boato -, e também da incerteza quanto à ida de Catarina ao baile da Ilha Fiscal, o protagonista volta ao Rio de Janeiro, disposto não a fazer a matéria sobre o baile, como era o plano inicial, mas sim escrever sobre a vida de dona Catarina, que por si só já daria um bom livro.

Estou agora lendo o capítulo que conta a ida do jornalista e sua namorada, Denise, ao hospital em que se encontra internada a velha Zuza, 90 anos, amiga de Catarina

(Continuo a contar mais...)

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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