domingo, 19 de junho de 2011

SOBRE 'O Baile da despedida' - parte final

QUANDO chegaram à casa de saúde onde Zuza, que tinha sido amiga de Catarina quando jovem, estava internada, era tarde demais. Acabara de falecer aos 90 anos aquela que poderia esclarecer o jornalista (narrador que no livro não menciona seu nome da primeira à última página) sobre se era verídica ou não a participação de Catarina no último baile da monarquia brasileira, na ilha Fiscal, em 1989. Muito menos sobre o tal oficial de marinha chileno, Benito, do qual ninguém sabia, ninguém vira. Estava morta a única testemunha.

O narrador-personagem coloca em evidência sempre a loucura de dona Catarina. No entanto, tudo que ela conta, sem alterar a cada vez um pormenor sequer da grande festa e dos acontecimentos que a antecederam, faz sentido e está de pleno acordo com os jornais e revistas da época. Um baile de tal magnitude que reverberou até na Europa. Afinal, ela bem poderia ter ido ao baile. Foram convidadas 6 mil pessoas, e Catarina, jovem, bonita, rica e instruída, bem que poderia ter sido uma delas. Era ela a derradeira testemunha dessa festa que foi a despedida do império, gota d'águal possivelmente da proclamação da república. 

Delírio ou verdade? Delírio e verdade, para o doutor Juliano Moreira, diretor do hospício em que Catarina esteve interna durante 11 anos, acreditava que ela não mentia. Não que realmente ela tivesse ido ao tal baile, disso ele duvidava, mas era a verdade dela, essa verdade ele respeitava. Catarina tomou tudo como verdade - a sua verdade -  e fez dessa noite uma noite perpétua, trajando-se inclusive como na época, sendo que cada dia para ela era nada mais nada menos que o mesmo dia 9 de novembro de 1989.

Vasculhando o baú de lembranças, que dona Catarina, amiga do jornalista, franqueou-lhe, nada encontrava que apoiasse, que garantisse a veracidade do acontecimento como verdade histórica. Aconteceu de verdade? Dona Catarina foi ao baile? Ou tudo apenas delírio de uma louca? Tudo, a estória, os trajes, o vestido original conservado na vitrina, o convite, as lembranças, a forma de trajar-se, os jornais da época guardados em baú,  não seria uma forma de chamar a atenção para si?

Pois o jornalista da Nossa Revista e sua noiva, Denise, se lançam em busca de testemunhas, de elementos que venham a comprovar a ida ao baile por parte de dona Catarina naquela noite de novembro de 1989. As cartas trocadas entre Zuza, no Rio de Janeiro, e a mãe de Catarina, em São Luís, somente reforçam a loucura de Catarina. A jovem chegou mesmo ao ponto de, ainda em São Luís, aproveitando-se da ausência do pai, que estava em visitas às suas várias fazendas, ter dado liberdade a todos os escravos da família, imitando a assinatura do pai. Uma loucura, afinal.

No hospício, ela até chegou a ajudar financeiramente por mais de uma vez, quando a instituição fazia tempo não recebia as verbas do governo para fazer frente às elevadas despesas com os internos. E depois recusou pagamento.

Em viagem à Amazônia, a serviço, o narrador e Denise, prolongam o caminho até São Luís, a fim de visitarem Catarina. Esta os recebe efusivamente, simpatizando à primeira vista com Denise, já esperando João Augusto, primeiro filho do casal. Em conversa de mulher para mulher, a octogenária confirma tudo que já era de conhecimento do jornalista, e ainda lhe dá mais alguns papéis.

Catarina de Aragão Arantes morre, sem que a dúvida seja elucidada. Todavia, quando quase não havia mais esperanças de se confirmar ou desmentir de vez o caso do último baile, eis que localizam - o jornalista e a esposa -  entre bulas de remédios e calendários da época, um papel dobrado. Este era a peça que faltava no quebra-cabeça. Um recibo do hotel dos Estrangeiros, datado de 9 de novembro de 1989. Lá estava o nome: Benito Alvarez López, capitão de mar-e-guerra chileno.

Era tudo verdade. De fato, dona Catarina fantasiava algumas coisas, como a visita frequente que o imperador lhe fazia ao seu sobrado em São Luís, mas o restante era tudo verdade. Estivera realmente no último baile da monarquia; esteve de fato ao lado de Benito, o oficial chileno, um dos homenageados pela elite brasileira, e com o qual o narrador se parece; esteve em audiência com Pedro II, segundo ele mesmo confirmou em suas memórias ('jamais deixei de receber ninguém'). Catarina, jovem, rica e bonita, sempre foi dona de seu nariz, foi mulher muito avançada para a sociedade daquela época. Libertou os pretos, desafiando seu poderoso pai, viajou sozinha para o Rio, e, decidida a ter um filho, entregou-se ao oficial chileno, que por sinal era até casado na sua terra. Perdeu a criança, e - o narrador nada diz, mas permite ao leitor deduzir - essa era a razão principal de sua eterna fantasia. Foi ao Chile, disposta a estar novamente com Benito, porém este havia morrido. Volta então ao hospício, magra, abatida e despenteada.

Identifico na obra caracteres peculiares dos contos e romances machadianos. Não é sem razão que o autor omite o nome do narrador. Faz assim justamente para dar a suspeita ao leitor de que se trata o narrador do próprio autor, maranhense, jornalista na época. Há mesmo no livro outras características de Machado de Assis. É também um romance psicológico, denunciando a loucura existente em cada um de nós; e essa de não dar nome ao narrador é apenas uma delas: deixar para o leitor a dedução ou suspeita.

Conseguiu o jornalista em 'O Baile da Despedida', com extrema maestria, mesclar ficção - ao criar a dona Catarina e mais de uma dezena de personagens secundários - com um fato histórico, marco final da monarquia brasileira, levando ao exílio dom Pedro II, princesa Isabel e toda a família imperial.

Esse é o livro, em resumo. Vale a pena ler.


"A VERDADE é que você sempre sabe a coisa certa a fazer; a parte difícil é fazê-la". Norman Schwarzkopf

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

2 comentários:

  1. e um bom livro e devo dizer que o sonhor soube contar muito bem os acontecimento relatados ao longo do livro !
    Obrigada.

    ResponderExcluir
  2. Obrigada, amiga Tatyana. Realmente um ótimo livro em que Josué Montello apresenta a particularidade de não nominar o narrador-personagem, tendo como cenário o derradeiro e pomposo baile da monarquia, retrata a loucura numa de suas múltiplas nuances.
    Saudações.

    ResponderExcluir

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!