domingo, 4 de setembro de 2011

MINHA luta: chegou o dia da viagem

Chegava o dia: 
dois longos anos me esperavam
FOI longo aquele dia, um dos primeiros do calorento e úmido agosto de 1977. A turma a que eu iria integrar já se encontrava em plena atividade, com a maioria dos quinhentos e poucos alunos já em adiantado estágio de adaptação à vida militar e profissional que ora inicivam na Escola de Especialistas da Aeronáutica. Naquela manhã do dia, que iniciou para mim às cinco da matina, o jovem magrelo era apenas um candidato a passageiro do Bandeirante da FAB que me levaria ao Rio de Janeiro, escala anterior ao destino final: a desconhecida Guaratinguetá, estado de São Paulo. 


Consegui embarcar. Foi uma sensação que não consegui explicar, pois na verdade foi tudo muito rápido. Da notícia dada pelo amigo Francisco àquele vôo não decorreram mais que duas semanas; uns doze dias talvez e eu estava ali embarcado, cinto afivelado, no último banco de passageiros, que na realidade era o sanitário da aeronave adaptado para servir de cadeira.  Esse bizarro detalhe em nada diminuiu a importância da façanha daquele garoto de 16 para 17 anos: geograficamente, partia para uma região diferente da minha, do norte atrasado para o sul maravilha; socialmente, sairia do desemprego, de cuja problemática eu nem tinha a mínima noção, para uma ocupação cobiçada pelos rapazes da minha idade e pelos mais velhos; emocionalmente, estava ali extasiado, sem explicações lógicas em minha mente para tudo que me ocorria, assim de forma tão repentina. Isso também representaria prestígio, um status intelectual do qual milhares e milhares de jovens em Belém e no Brasil inteiro privavam-se, muitos em definitivo por causa da idade mínima exigida pela Aeronáutica. Não resta dúvida que aquele garoto imberbe e esmirrado estava naquela aeronave numa condição especial. Mas, como era ainda um garoto, a vida ainda não me dava noção daquela vitória, e de quanto eu fui afortunado pelo destino, de quanto fui eu iluminado pelo Divino Pai. A ficha somente cairia depois, muitos anos depois.

Minha mãe ficou lá naquele aeroporto em Belém, na área destinada aos aviões militares, a acenar-me, a desejar-me boa viagem, a rezar para que desse tudo certo: fizesse bom vôo, chegasse a contento no Rio de Janeiro, uma cidade para mim totalmente desconhecida, apanhasse o ônibus para Guaratinguetá, chegasse lá ainda em tempo suficiente para a necessária matrícula no curso. Enfim, que nada saísse errado. Ficou lá, rezando por mim. Disso jamais me esquecerei, a isso jamais terei condições de pagar. 

Igualmente jamais terei como pagar a Francisco - que já não está mais neste mundo - pelo gesto de magnitude, voluntariando-se a deslocar-se até a roça, lá nas brenhas, na missão de avisar-me, e, melhor, de levar-me até Belém. Sem isso, sem esse gesto desprendido daquele nosso vizinho, eu talvez não estivesse aqui escrevendo esta história; sem isso, minha vida teria certamente seguido outro curso. Mais tarde, muito mais tarde, percebi o verdadeiro autor dessas ações, dessa em particular e de muitas outras na minha vida: Deus. Sim, e isso somente a fé, que em mim era incipiente, fraca mesmo, mas que depois de anos e anos foi se fortalecendo gradativamente, somente esta fé que tenho no Criador, pode em mim explicar todas essas coisas. Naquele tempo, sem telefone, sem correio, sem outro meio, num local ermo, sem estradas, e onde somente a pé ou a cavalo podia se chegar; naquele lugar, e ainda por cima de noite, Francisco chegou lá, perguntando a um e a outro sobre meu pai e sobre mim. Lá, por volta das duas horas ou três da manhã, fomos acordados com a sua presença. Dava-nos a alvissareira notícia. Estava eu aprovado, e devia estar em Guaratinguetá até a primeira semana, depois disso perderia irremediavelmente o prazo. Haveria uma segunda chance? Só Deus sabe. É muito provável que não pelas razões da parca intelectualidade de que era portador. E a vida deste escriba teria seguido outro rumo. Francisco, em sua bondade, foi certamente um instrumento de Deus agindo na minha vida. Deus põe as pessoas boas na nossa vida. 

Tudo conspirava a meu favor. Até alguns anos atrás ainda conservava comigo o telegrama - mensagem radio-telegráfica, radiograma, ou simplesmente 'rádio',  no jargão aeronáutico -, que me convocara. O documento chegou até a nossa casa em Belém pelas mãos de um soldado, que fora incumbido por seus superiores dessa missão, certamente por morar no nosso bairro. Também a este, cujo nome nunca soube, devo a mudança de rumo da minha vida. Coisas impagáveis, que a Deus agradeço sempre e sempre.

O vôo ia normal. Primeira escala técnica: Carolina, estado do Maranhão. Segunda escala técnica: Brasília. Não lembro o que comi, só sei que na mala humilde algumas poucas roupas e objetos pessoais; no bolso, pouco dinheiro, o que meu pai pode me dar, que certamente foi conseguido pelo seu Manoel com muito suor, produto de muita mandioca cevada. Decolou por volta de duas horas da tarde a aeronave, de Brasília para seu destino final: Rio de Janeiro, aeroporto Santos Dumont. Por volta das quatro da tarde, estava aquele rapaz nortista sozinho com sua malinha naquela parada de ônibus, aguardando o coletivo que o levasse à rodoviária Novo Rio. O trocador foi gentil, informando-me certinho o ponto onde desceria. Agradeci. Desci lá e, uma vez lá dentro, fui sem perda de tempo ao guichê, pois uma segunda etapa daquele dia estava para começar. 

A essa altura, creio que já fosse por volta das quatro e meia daquela tarde ensolarada, que parecia dar-me boas-vindas à cidade do Rio de Janeiro, a cujas belezas naturais não prestei muita atenção em vista das naturais preocupações de que minha mente insistia em se ocupar incessantemente naquela jornada invulgar. Coisa boa o avião, não é mesmo?! Pela manhã, na região norte do Brasil; ao meio dia, na região central; e à tarde na região sudeste do país, onde tocaria minha vida de estudante por dois longos anos.

É necessário dizer que foram duas as grandes viagens da minha vida: a primeira, de que ora que ocupo em narrar, profissional (de cuja importância, como já explicitei, não tinha eu a noção exata naquele tempo); a segunda, que narrarei oportunamente, de cunho afetivo, e que só veio a ocorrer 31 anos e alguns meses depois. Coisas de Deus.

Continua...
"A ÚNICA maneira de ter amigos é ser amigo." Ralph Waldo Emerson

"AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado."

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