quarta-feira, 28 de setembro de 2011

MINHA luta: a esquadrilha da fumaça

Capítulo 16, continuação da postagem do dia 27set.2011


DIFERENTE do que era até então, na minha esquadrilha o comportamento da maioria em relação a dificuldades como a minha mudou radicalmente. Até os críticos mais mordazes como o Martins, se não ajudassem,  pelo menos  guardavam silêncio, dando uma trégua nas gozações e até mesmo nas eventuais ofensas. E isso já era um sinal de mudança de comportamento, uma concordância tácita destes à maioria, que se mostrava solidária.

Não que a a maioria da turma apoiasse a gente de forma ostensiva, mas a solidariedade já se fazia visível a olhares mais atentos, sempre aparecendo uma alma boa disposta a ajudar neste ou naquele assunto. Isto não era somente comigo, era com qualquer outro colega que, por ventura, estivesse em alguma dificuldade. O mesmo se dava de mim para com outros que me procuravam com alguma dúvida em Português, área em que eu me garantia. Com relação à parte intelectual, todos procuravam se ajudar. Não havia concorrência; se todos os quinhentos alunos obtivessem as médias mínimas exigidas, todos se formariam e ninguém seria prejudicado com isso.

A competição sim, mas uma competição silenciosa; esta existia sim, é verdade. E essa competição - que é diferente da concorrência - era para ser o primeiro da turma, o ambicionado título de aluno zero-um, ou até mesmo, mais tarde, o primeiro da especialidade. Isso era estimulado pelos prêmios oferecidos como estímulo aos três primeiros colocados e pela honra de ser o porta-estandarte da Escola, esta exclusiva do zero-um. Aos primeiros no ensino especializado, a vantagem seria a possibilidade de poder escolher o local para onde iriam trabalhar quando formados, já que aos últimos pouca ou nenhuma opção seria dada, e iria para o local que lhe sobrassem. Falando em nomenclaturas, havia um nome sujo dado ao último colocado, posição em que ninguém gostaria de ficar.

Dessa forma, colei no Martinelli e em outros como o Zé Bernardi, e até mesmo o Almeida Silva. Esses caras foram formidáveis comigo e com os outros colegas, dispendendo seu precioso tempo com estes zero-a-esquerda, para usar o mesmo termo do comandante da esquadrilha. Foram muitas noites em que, contrariando meus hábitos iniciais, tive de dispensar o brochante, e até, por umas duas vezes, tivemos que avançar a madrugada, de lanterna em punho, a fim de colocarmos à força o que antes nossa mente não conseguia fixar. Devemos muito a esses caras.

Seguiram-se os demais exames teóricos e as avaliações práticas constantes da grade curricular. Vieram a nova prova de Português, em que eu errei apenas uma questão; a de Inglês, onde eu fiquei a duas questões de obter a nota máxima; as demais matérias teóricas; e a de Tebê, assunto em que voltei a vacilar. Na segunda prova de Matemática tive que jurar por tudo que é mais sagrado que não criaria fórmulas nem cálculos mirabolantes, respondendo somente as que tivesse certeza absoluta. Obtive extraordinário progresso pois a nota minha foi de 7,40. Muitos se alegraram com essa nossa vitória parcial.

O portão de entrada da Escola
Houve muitas baixas, mesmo ainda naquele nosso primeiro semestre letivo. No decorrer desse período fomos surpreendidos com um acontecimento que abalou toda a turma, e que até hoje é comentado por todos. Durante a madruga, alguns alunos notaram movimento de pessoas conversando na sacada, e, logo mais, também observaram a presença do comandante da esquadrilha, que, com um balde de cola na mão, além de papel e pincel, e com a ajuda do aluno de dia, lacrava alguns armários. Lacrou também um, ao lado do meu.

No dia seguinte, entrando a noite e também nos demais dias que se seguiram durante a semana, não se falava em outra coisa no Ceá. É que, logo pela manhã, veio a notícia bombástica: Almeida Silva e mais doze alunos foram surpreendidos em consumo de tóxico. Foram presos e seriam, mais tarde, sumariamente licenciados a bem da disciplina, um nome técnico para expulsão da Aeronáutica. Todo o Ceá, mas de maneira mais forte a nossa esquadrilha, fervilhava com os mais diversos comentários sobre o acontecimento. Era um misto de curiosidade, surpresa e abatimento.

Para alguns com certeza não foi nenhuma surpresa. Acho até que a maioria da esquadrilha, dos noventa e poucos alunos, talvez uns setenta ou mais tivessem conhecimento de que havia uma turma da pesada. Para mim, o fato marcou por duas coisas: primeiro, fiquei triste pelo Almeida Silva, meu vizinho de armário,  que foi o cara que primeiro me orientou naquele serviço de plantão inaugural em que eu nada sabia, de nada tinha sido instruído por quem de direito; era ele, apesar do problema, um grande cara; segundo, pela surpresa, pois jamais poderia imaginar tal coisa, e, a bem da verdade, pela minha quase nenhuma experiência de vida e - porque não dizer - pela ingenuidade mesmo, jamais teria essa maldade de desconfiar de alguém, nunca passaria pela minha cabeça uma coisa dessas, nem ao ponto de reconhecer uma pessoa viciada em maconha ou qualquer outra droga ilícita. Isso poderia acontecer no cinema, na tevê ou nas notícias de jornal, mas nunca a alguém do nosso meio, principalmente com alguém do armário ao lado do meu.

Disseram na ocasião que o serviço de inteligência da Aeronáutica já vinha havia muito tempo investigando a turma, que, na visão irreverente de uns, ficou conhecida como esquadrilha da fumaça. Dizem até que um sargento estava infiltrado entre eles, e era um cara barbudo e despojado, de forma que nem o mais esperto dessa turma tinha a menor desconfiança do companheiro de fumo. Outros também falavam que nos exames médicos, na coleta de sangue, já tinham detectado algo diferente, que eu, na minha juventude de quase menino, nem sabia se era possível. Um Forrest Gump, como eu, passava sempre ao largo de tais coisas, que eram avançadas demais para um rapaz ingênuo igual àquele Quinze Setequatro da década de 1970. Dou graças a Deus pela caretice, ingenuidade ou qualquer outra palavra que se dê; Ele, que protege os inocentes.

Nessa hora, após a revista de pernoite, alguém tirando sarro de alguém disse que aluno só é pobre porque quer. Lembrei de já ter ouvido aquela expressão e não somente na Escola. Sim! Claro! Agora lembro do coroa, o tal Romeiro Dias, sim, era ele quem dizia isso. Claro, agora sei de onde - ou melhor, de quem - o Almeida arranjava dinheiro para vestir-se tão bem. Liguei os fatos e daquela turma pelo menos uns quatro eu conhecia de vista, e, somente depois, é que comecei a lembrar do jeito, moderno demais, de cada um.

Pobre Almeida Silva. Sei que, no íntimo, era um cara legal; tinha um grande coração, bons sentimentos; e, como qualquer outro ser humano, também susceptível às fraquezas e vícios. Outros acontecimentos tristes, desligamento de uns, desistência de outros, eram comuns no Ceá. Mas o fato é que, até hoje, a gente se lembra desse episódio inglório.

Chega o final do semestre letivo e a expectativa é grande para ver quem foi aprovado e quem ainda tinha de fazer a recuperação em alguma matéria. Quem estava tranquilo quanto a isso, era só esperar o grande dia da liberação para as férias de final de ano, com a volta somente em fevereiro próximo. Aos poucos que não tinham ido muito bem, ainda restava a grande chance da prova final, que era uma espécie de recuperação, em que a média mínima era ainda um pouco menor; caso não se houvessem bem nesta, ainda haveria a última, a derradeira prova, e dessa vez, se não passasse o desligamento seria inevitável. Na verdade, para os alunos de ficha limpa, ou seja, aqueles que nunca tiveram nenhuma punição disciplinar, o comandante da Escola ainda poderia autorizar excepcionalmente a permanência do felizardo. Essa última condição somente ocorreria se o aluno em questão somente tivesse ficado por poucos centésimos ou pentelésimos. Não havia como repetir o semestre, por isso se davam todas essas chances.

Fiquei em Matemática, para mim nenhuma surpresa, apesar da recuperação no segundo teste. Não me abalei com isso, pois meu nível nessa matéria já estava bem acima de antes, de forma que me sentia seguro. A grande surpresa, e onde realmente pisei na bola, foi a tal de Tebê, que também fiquei para a prova final. Meu astral baixou consideravelmente em relação a essa matéria, que, apesar de chatinha, não considerava assim tão complicada. A minha agonia, portanto, prolongava-se por alguns dias a mais.

Continua... 


"A CORRIDA não é sempre para o mais rápido, mas para aquele que continua correndo".  Autor desconhecido

AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.

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