quarta-feira, 21 de setembro de 2011

MINHA luta: mais um final de semana

Capítulo 12, continuação da postagem do dia 19set.2011

É MAIS uma sexta-feira no Ceá. Dois mil alunos, mais uma vez, ali em forma naquela tarde nebulosa que ameaçava uma chuva torrencial para talvez meia-hora ou menos, trajavam o impecável quinto uniforme para a tradicional revista, leituras e avisos diversos.

Enquanto os sargentos e comandantes de esquadrão faziam a revista de uniforme dos seus  respectivos comandados, o adjunto ao Ceá chamava a atenção de um dos alunos, que se mexia: 'Não se mexe, guri!!!'

Feita a leitura do boletim e dados os avisos e recomendações de praxe, o adjunto ao Ceá, capitão Nunes Reis, fez uso do microfone. 

- Atenção, corrrrpo de alunos! - Começou o gordo adjunto com seu vozeirão de cantor de rádio, fazendo destacar os erres. Falava dos atos de indisciplina ocorridos no Cea durante a semana, destacando o caso de um aluno que informou ao anotante um número inexistente, na tentativa de livrar-se da punição certa. Não adiantou nada, pois foi reconhecido, para o agravamento da sua situação. - Isso é falta de hombridade!!! Não podemos admitir tamanha falta de hombridade num futuro sargento da Aeronáutica, alguém que vai fazer a manutenção de uma aeronave, alguém que vai escriturar o nosso pagamento, alguém que vai cuidar dos nossos doentes, alguém que vai controlar nosso tráfego aéreo... Como vamos confiar num profissional assim! - continuava o sapão, naquele sermão interminável, que prolongava por mais tempo a permanência incômoda de todos ali no grande pátio.

Mandou ler a sentença ao aluno sem hombridade, cabendo-lhe a pena de vinte dias de detenção, ficando pela bola sete, ou seja, qualquer pentelésimo de punição a mais e seria desligado por indisciplina. Finalmente, dado o fora-de-forma, os de São Paulo e Rio de Janeiro, em sua grande maioria, seguiram para a alameda onde já aguardavam estacionados os respectivos ônibus, fretados pela Sociedade dos Alunos; os demais, de origens diversas, uns dirigindo-se ao ponto de ônibus para pegar o Pássaro Marrom com destino a Guaratinguetá, alguns outros indo para o cassino ler, ver televisão, jogar um dominó ou praticar tênis de mesa, outros simplesmente tornando ao seu alojamento para descansar. 

Ônibus fretados para Rio de Janeiro e São Paulo aguardavam estacionados
Em geral, todos os do Rio de Janeiro, mesmo que não da capital, viajavam para ficar ao seio de seus familiares, exceto naturalmente os que tinham algum impedimento, como os escalados de serviço na sexta-feira, no sábado e no domingo, ou os que  tinham punição disciplinar a cumprir. 

Entretanto havia uma honrosa exceção: um carioca ou fluminense que jamais viajava, preferindo invariavelmente permanecer na tranquilidade em que se transformava o Ceá nos fins de semana. Pontes, do Estado do Rio, não me lembrando agora de qual cidade, jamais viajava para rever seus familiares, a não ser na época de férias escolares, e assim mesmo, provavelmente, a contra-gosto. O padre, como era chamado por alguns, tampouco ia à cidade, permanecia na Escola com uma inseparável apostila nas mãos. Sujeito tímido, pouca conversa, com óculos fundo de garrafa vivia sempre às carreiras, mesmo quando não estava atrasado. Inseguro, inseguro não, eu diria que o Padre vivia sempre em pânico, temendo sempre a guilhotina do desligamento, daí agarrar-se firmemente aos estudos. Foi por causa dessas características tão peculiares, no conjunto da obra, que alguns alunos lhe deram o apelido de 'Seu padre'. O Almeida Silva, que era um gaiato, não perdia oportunidade de zoar com o pobre do Pontes:

- Seu Padre, vamos à cidade, Seu Padre! Gastar esses quinhentos cruzeiros de adiantamento.
- Não dá.
- Seu Padre, vamos à cidade pegar gente, Seu Padre!
- ... (Pontes dava um sorriso amarelo de timidez) Tenho de estudar Matemática.
- Mas Seu Padre, vai dizer que aquele triângulo isósceles não tem tudo a ver com Matemática.

É claro que Almeida não falou exatamente com essas palavras, tendo ido direto às palavras mais chulas e bastante conhecidas de todos. Esse era o Almeida Silva, sempre com suas tiradas de ocasião, o meu vizinho de armário, algumas bem bobinhas. Quase todo dia ele tinha alguma brincadeira:

- Quinze Setequatro, porque a terra é virgem? - E antes que eu respondesse, ele mesmo completava - Porque a minhoca é mole. - E dava uma gargalhada.
- Quinze Setequatro, porque a floresta é virgem?
- Porque a minhoca é mole. - respondi dessa outra vez.
- Errado. Porque o vento é fresco.

Outra vez Almeida me deixava embaraçado.

- Quinze Setequatro, o que é que a mulher dá pra qualquer outro mas não pode dá pro marido?
- ... (dei uma risada) Sei lá!
- O afilhado. Já tava pensando bobagem, né Quinze.

Dessa vez Pontes tinha razão. Na semana seguinte era a vez da terrível Matemática, que para alguns era a melhor matéria, para mim e para outros igualmente de base frágil nessa ciência, como o amigo Pontes, era um bicho-de-sete-cabeças. Ainda assim, contrariando o bom senso, teimosamente resolvi sair naquela sexta. A minha estratégia era a de sempre, saindo na sexta e deixando o sábado e o domingo para os estudos. Sim, é o que eu faria; afinal, não era de ferro. Tomei o Pássaro Marrom.

Uma vez na cidade, depois de passar lá na loja do Romero Dias para a por o paisano, dei algumas voltas sem rumo, passando obrigatoriamente pela errepeeme na esperança de ver a Maria do Ceá, e quando dei por mim estava já escuro, talvez oito da noite. A chuva que antes ameaçava um terrível aguaceiro, rumou em direção a Lorena ou alguma outra cidade próxima, 
resolvendo quebrar o galho dos alunos. Ia pela rua do bar da portuguesa, quando vi uma turma, o Brito Souza, o Formoso e mais uns três, que me acenaram; entrei. Crédito à vontade, e o findu era a senha da casa, o que fazia do estabelecimento o campeão de audiência do Ceá. E desce uma cerveja, depois mais outra...

Lá pelas tantas não sei como retornei à Escola, chegando à nona esquadrilha depois do toque de silêncio. Deitei de quinto e tudo. Deus ajuda os inocentes, as crianças, os loucos e os bêbados. 

As pessoas iam chegando aos poucos, alguns por piedade sincera, outros por mera curiosidade ou uma espécie de obrigação. Primeiro os alunos,  depois os sargentos e os comandantes, e, por último, os familiares e o padre. Orações, lamentos, choros; chegou mais tarde o Caveirinha, que comandava a salva de tiros. O corneteiro tocava algo fúnebre, que fazia descer as lágrimas de quatro ou cinco mulheres. Abri os olhos e nada via, estava escuro, somente ouvia, mas podia visualizar por meio das vozes aquelas pessoas em volta de um caixão. Reconheci-me naquele defunto. Não, eu não podia estar morto. Mas todos achavam que eu tinha morrido. Não! Não! Me tirem daqui. Eu não morri, seus putos! Me tirem dessa escuridão! Não me enterrem vivo, esperem eu morrer primeiro!!! Não tenho nem dezoito anos! - Gritava assim, batendo desesperadamente na tampa do caixão, que na verdade era a lona do beliche, acordando a todos no alojamento. Ouvia ao longe o som de uma sirene, e de repente as pessoas em meu redor estavam de branco. Estaria no céu?

Continua... 


"A LIBERDADE para avançar a oportunidades novas e produzir resultados vem de viver no presente, não no passado." Brian Koslow

"AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado."

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