terça-feira, 25 de outubro de 2011

CHICO DAMIÃO, o sangrador de onça (reedição)


HÁ EM muitos lugares deste planeta gente que, embora não tenha freqüentado bancos escolares, sem ter recebido educação formal, esbanja conhecimento nos mais diversos assuntos do interesse humano. Gente que sabe de tudo um pouco, que tem resposta para tudo.
Lá no meu rincão não era diferente. E o artista daquela região recôndita do estado do Pará não era outro senão o velho Chico Damião, uns cinqüenta anos de idade. 

O velho era quem nas redondezas saciava a curiosidade do povo nos assuntos mais variados e intrigantes. Não era o caso de se dizer que em terra de cego quem tem um olho é rei. Creio que não era esse o caso, pois tudo o que ele dizia (à consulta posterior de livros e de outros mais letrados), fazia sentido – menos o caso da onça, de que me ocupo agora nestas linhas. A fala de Damião expressava uma lógica irrefutável, levando, de quando em vez, os mais velhos a se questionarem se era um exímio mentiroso, desses autodidatas de muita leitura, ou tudo mesmo era verdade absoluta. Desconhecia-se de onde o cérebro daquele velho, baixinho, fanho e meio corcunda, extraíra tanta informação. A seu modo era um sábio, desses que se estivesse no meio acadêmico seria capaz de levar o nome do país ao cenário científico internacional. Nunca esteve na hora certa e no lugar certo. Em vez disso, estava naquele instante, no meio daquele fim-de-mundo, filando um prato de comida em troca de uma boa prosa. 

Além de saciar a nossa sede de conhecimento e nossa curiosidade, transformando em ponto final ou de exclamação maioria  as nossas interrogações, velho Damião divertia a todos com o seu jeito aparente de pessoa simplória, aquele ar de homem erudito, mas que ao final se apresentava invariavelmente tão engraçado pela particularidade de ser fanho não só por esta. Olha que nem precisava dizer nada, visto que apenas um olhar, um jeito, trejeito ou maneirismo era suficiente para encantar e prender a atenção de todos, homens, mulheres, velhos e crianças. 

Tenho cá comigo de que o causo da onça, ele inventara com o propósito de acentuar o interesse sobre a sua figura, da qual irradiava todo um carisma. Servia ainda a determinada finalidade prática, a sobrevivência nesta selva chamada mundo, aplainando os duros caminhos da vida. 

De onde era? Não sabíamos. Uns diziam que era do Ceará, alguns outros que era do Rio Grande do Norte, havia também quem dissesse que o velho chegara quarenta anos antes do Paraná. Eu mesmo não me surpreenderia se viesse a saber que Chico Damião era mesmo de lá do Pará e daquela região, sem jamais ter-se afastado vinte léguas sequer do ponto em que morávamos. 

A cada quinzena chegava à nossa casa sempre por volta das onze e meia, hora em que a bóia estava quase no ponto de ser servida, com o tosco fogão de lenha que emanava aquele cheiro que atiçava o cérebro comandar a produção inevitável de água na boca. Chegava também nas outras casas naquele mesmo período do dia, e talvez fosse essa a sua única refeição decente de cada dia. 

Nunca perguntamos se era casado, solteiro ou viúvo, e também ele não o disse - pelo menos que eu esteja lembrado. Desconfio que nunca se casou. 

Mas, seu Damião, esse causo da onça...
Não é “causo”, não, seu Duca. Foi um fato verídico.
Sim, não querendo duvidar. O senhor, claro, um dia foi novo, igual eu também fui, e tudo o mais. Mas qualquer um de nós se mijaria de medo diante dum animal do porte de uma onça. Além do mais...
Sei, seu Duca. Onça é bicho ligeiro e feroz, e é a defesa do animal a ligeireza. Deus deu a cada vivente o instinto da sobrevivência. Aliás, deu dois instintos de sobrevivência: o individual, daí os bichos se defenderem, caçarem para comer, correrem quando ameaçados, conforme a sua natureza... 

O velho costumava usar de palavras rebuscadas, esbanjando sabedoria diante de nós, gente ignorante. Jamais viemos a saber se ele houvera freqüentado universidade, indo bem além da quarta série primária que era comum uns poucos daquela região distante. Podia ser que fosse até um bacharel, um doutor ou professor de História – quem sabe?! Podia ser também que tivesse sido um autodidata, desses que preenchem sua vida de solteirão mergulhado em livros – creio ser essa a hipótese mais acertada. Quem sabe um dia tenha sido pessoa abastada, que, por esses revezes que a vida impõe, tenha perdido sua fortuna em um negócio mal feito ou numa aposta mal sucedida. Nunca soubemos. O certo é que, por trás daquela erudição, havia um grande ser humano, que, por ser humano, também se divertia com a nossa curiosidade e a atenção que dispensávamos ao seu discurso. 

Chico Damião fez uma pausa para respirar e beber um gole do Cinzano que meu pai me mandara buscar lá dentro e que era destinado especialmente às visitas, enchendo o copo de seu Damião e o dele, meu velho, também.
E o outro instinto?
Sim, o outro instinto. É o da sobrevivência da espécie, por isso os animais se acasalam. Diferentemente dos seres humanos, eles acasalam apenas para procriar, gerar outros seres da sua espécie, sem constituir família. Esses são instintos primários, necessários à sobrevivência de todos. Veja a cadeia alimentar...
E a onça? – interrompeu meu pai, evitando que o assunto tomasse outra direção.
Eu já ia passando adiante, não é mesmo?! Sim, a onça. Mas acho que eu já contei esse caso aqui.
Eu só ouvi falar, mas contar mesmo o senhor não contou pra nós. Sabe, as pessoas aumentam muito, então é bom ouvir da boca do próprio autor da façanha. 

Na verdade o velho já havia contado a história havia uns anos antes, no entanto, depois vim a imaginar, quando pensava certa vez no caso, que essa seria uma estratégia de meu pai a fim de tirar as provas dos noves. Uma armadilha para pegar o velho em contradição. No entanto, velho Damião, macaco velho, não cairia nessa jamais. A história era sempre igual, talvez acrescentando palavras novas em vez de outras dantes, mas o fato em si era o mesmo, sem tirar nem por. 

O caso se deu lá pras bandas do Maranhão na década de trinta. Carregava comigo, e carrego até hoje, como o senhor pode ver, estes dois objetos inseparáveis: o chapéu e esta faquinha afiada. É claro que para caçar levamos também, cada um de nós, uma espingarda de chumbo e dois cães. 

Tirou a faca da bainha, mostrando-a. 

Continue, seu Damião.
Distraí-me naquela selva, e quando dei por mim estava mata a dentro, perdido de meus companheiros. Se ainda tivesse cachorro bem, mas os cães resolveram acompanhar meus companheiros, que eram em dois.
Isso é o que eu chamo de ficar no mato sem cachorro.
De fato, literalmente, seu Duca, ou seja, ao pé da letra, este seu amigo estava naquele mato sozinho, sem o melhor amigo do homem. Vi as pegadas do animal, e comecei a engendrar uma maneira de enfrentar a onça em caso de ela me achar primeiro, querendo me fazer de almoço. Não, comigo não, antes ela do que eu. Pensei na velha espingarda de chumbo, não, aquele trabuco velho não era páreo pruma onça. Além do mais, dificilmente o animal ficaria diante de mim na posição de caça, digo assim, numa distância suficiente para que eu fizesse uso da arma de fogo.
Dizem que onça é traiçoeira, inda mais naquela cor de mato  que não dá nem pra gente ver ela.
Isso mesmo. Trata-se de um animal cuja propriedade natural é exatamente essa, um ser possuidor de cores que se confundem com a vegetação, justamente para facilitar a sua sobrevivência. Além disso, trepa nas árvores, é ligeiro e traiçoeiro.
Então assim, as chances do senhor não eram grandes, né.
Mas não me avexei, não como já lhe disse. De repente, ela tava lá. Eu, sozinho naquela mata, frente a frente com aquela bicha enorme.
Vamos ver até aonde essa lorota vai dar. Era o que provavelmente pensava meu pai. Presumo isso pela expressão de seus olhos, a encararem os de Damião.
Como se virou, seu Damião?
Lembrei-me do chapéu, lembrei primeiro da faca. Era preciso pensar rápido. A faca... o chapéu... Por que não?! O chapéu na mão esquerda, a faca na direita. O gatinho se aproximou de mim, com certeza já de água na boca diante do almoço inesperado. 

É provável que o leitor esteja pensando que o velho fazia suspense para ganhar tempo, pensando em que desfecho daria ao caso de forma a resultar num final feliz. Meu pai talvez assim pensasse também. Mas não era o caso, velho Damião já contara o mesmo causo dezenas, talvez até mais de uma centena de vezes, tendo de cabeça todo o enredo. Eu quero convencer-me de que o prolongamento era devido à refeição que ainda não chegara de todo à mesa, e o desfecho coincidiria com a última garfada. Cá pra nós: é possível que por meia dúzia de dias ou mais o homem não estivesse à frente de uma refeição tão suculenta quanto a que minha família lhe proporcionava então. 

Deixe de mistério. Como se virou?
Como o senhor é impaciente, seu Duca! A gente nem pode fazer um pouco de mistério. Tá bem, vou direto ao ponto. Como me virei.
Sim, como se virou?
Num lance de extraordinária rapidez, que só o instinto de sobrevivência e a providência divina podem explicar, lancei o chapéu na cara da onça, pegando-a de surpresa com a minha ação. Ela, atarantada por conta da falta de visão, levantou as patas dianteiras meio que desesperada. Ato contínuo, levei com toda a minha força não esqueça que eu era novo nesse tempo a faca ao sovaco da onça. Foi um golpe certeiro.
Essa não! O senhor tá dizendo que esfaqueou o sovaco da onça?
Isso mesmo.
Com essa faquinha aí?
Com esta faquinha aqui.
Eu nunca vi uma onça, seu Damião, mas já vi dizer que couro de onça é duro.
Sei que o senhor duvida de mim, seu Duca. O senhor tem lá a sua razão em duvidar de semelhante história, pois quantos mentirosos já não sentaram a esta mesa desfrutando da sua hospitalidade. Mas eu fico triste com essa dúvida do amigo, que está a me considerar iguais aos outros. Mas me responda uma coisa: como o sapateiro corta o couro curtido, se não é com uma faca comum, mas bastante afiada, afiada igual a esta aqui. Esqueci-lhe de dizer que naquele tempo eu também me virava como sapateiro. Não, não estou contando para gabar minha valentia. Como lhe disse, atuou em mim o mero instinto de sobrevivência: era ela ou eu.

Desse causo da onça jamais me esqueci.

(reedição corrigida e complementada da postagem de 05out.2011)

"QUANDO chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva não existiria o arco-íris."  Gilbert Keith Cherteston


LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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