sábado, 29 de outubro de 2011

MARLETH Silva: meu coração não é maior que o mundo


PARECE que ninguém mais lê poesia, ninguém mais compra livro de poesia. Portanto, poesia não é um assunto muito popular. Pelo menos ainda tem gente que lê crônica. Você, por exemplo. Aproveito as circunstâncias (o ocaso da poesia e a sobrevivência, mal ou bem, da crônica) para falar de Carlos Drummond de Andrade, que era poeta e cronista. Dia 31 de outubro comemora-se o aniversário dele.
Gosto muito do Drummond e tenho uma vontade danada de falar dele. Portanto, o tema desta coluna não é popular, mas é bonito. Veja só:

“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”

Sendo honesta, leitor, melhor seria não dizer nada, e apenas reproduzir alguns poemas dele. Qualquer coisa que eu escreva será lengalenga em relação ao que conta de verdade, que é a sensação que se tem ao ler poemas de Drummond. Experimente: 

“Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se
esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
– Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.”

O cronista Drummond escreveu sobre crianças, bichos (tem um texto sobre a morte de um elefante de circo, no Rio de Janeiro, vítima de uma infecção de garganta), pessoas esquisitas (como seria chato o mundo sem elas!), as conversas entreouvidas no transporte coletivo, as cidades onde moramos, que são nosso universo em miniatura. Sobre as cidades, Drummond escreveu também poemas. Ressentia-se de ver desaparecer a cidade de sua infância. Não que fosse um nostálgico que idealizava o passado; sua Itabira natal foi palco de uma das transformações mais radicais que uma paisagem urbana pode sofrer: a serra que dominava a paisagem foi inteiramente retirada porque era formada por hematita, um mineral explorado pela Vale (na época Vale do Rio Doce). No lugar da serra, hoje a cidade tem um buraco. Espantoso.
Pelas crônicas de Drummond pode se chegar a seus poemas. Pelos poemas de Drummond pode se chegar a muitos lugares:
“Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas os veremos
seja no claro céu ou no turvo inferno.”
Drummond era irônico e divertido nos seus textos. Há humor para nos surpreender na próxima frase.
“Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”
Há uma tentativa de se transformar o dia 31 de outubro em Dia D. D de Drummond – portanto, dia de coisas bonitas do Brasil.
Este ano, a data cai em uma segunda-feira (sim, estaremos muito ocupados) de uma semana com feriado (sim, teremos uma folga para fazer algo bom, como abrir um livro do Drummond). Aí vai mais um, para nos inspirar.
“Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.”
(Gazeta do Povo, Curitiba, Brasil)


"SE NÃO tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável; se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda." Anne Bradstreet
LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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