sábado, 15 de outubro de 2011

MARLETH Silva: vende-se casa com garagem de estar

Em relação ao uso de transportes alternativos, parte da sociedade parece estar disposta a experimentar alguma inovação, mas o poder público titubeia diante do medo de mexer com a maioria

UM VIZINHO que morou em algumas cidades do exterior, em lugares onde se virava bem com o transporte coletivo, nega-se a ter automóvel. Por isso, sua garagem fica vazia e ele pode dispor dela como bem entende. O rapaz decidiu transformar o espaço de 18 m2 em um prolongamento da sua sala de estar. Colocou lá uma poltroninha, um aparador onde descansam vasos e enfeites e, em um cantinho, instalou um abajur. É um uso inusitado daquele espaço e a cereja no bolo é o tal abajur. 

Abajur na garagem? Agora só falta um tapete. 


A garagem que virou sala de estar é algo para se ver. É também uma provocação para o senso comum. Todos os imóveis recentes têm garagem, certo? Agora imagine se esse espaço perde sua primeira utilidade e fica livre, podendo, portanto, ganhar outro fim. Nossas casas ganhariam uma nova sala e muitos prédios teriam mais área para jardins ou os apartamentos custariam menos. 

A “garagem de estar” do vizinho me ocorre quando leio a seguinte informação. Um estudo do Secovi sobre o mercado imobiliário de São Paulo mostrou que, em 2001, as garagens passaram a ocupar, na média, um espaço que equivale a 53% da área privativa dos imóveis. Fica mais fácil entender se imaginarmos um apartamento de um quarto (40 m2 de área útil) com uma vaga de garagem (20 m2). Vagas de garagem se tornaram obrigatórias em todo tipo de edifício e, em alguns casos, são duas ou três por apartamento. 

O estudo não inclui comparativo com outros países para sabermos se estamos diante de uma particularidade brasileira, mas seus autores (Hamilton de França Leite Júnior, Claudio de Alencar e Wanderley John) chamam a atenção para experiências internacionais que “ensinam que a facilidade para estacionar estimula a utilização do automóvel, e vice-versa, bem como, a ampliação das vias não resolve de forma alguma o problema de trânsito, pois a população passa a utilizá-la com maior frequência, anulando o benefício conquistado”. 

Seguindo essa lógica de vice-versa usada por França Leite podemos perguntar: a existência de lugares reservados para o automóvel estimula mesmo o uso do veículo e o abandono de outras formas de transporte? Ou é a ausência de formas alternativas de transporte com qualidade que faz com que as pessoas se apeguem ao automóvel? 


Provavelmente dá para responder “sim” às duas perguntas. 

Penso nisso diante da timidez das cidades brasileiras para adotar formas concretas de estimular o uso da bicicleta. Neste tema, parte da sociedade parece estar disposta a experimentar alguma inovação, mas o poder público titubeia diante do medo de mexer com a maioria. Acontece que nem sempre a maioria sabe o que é melhor. Aliás, a maioria tende a ser lerda e conservadora. Às vezes ela precisa ser cutucada. 

Tenho visto a moçada pedalando pelas ruas e sinto inveja. Mal sei andar de bicicleta e tenho um medo danado de acidentes. No meio do trânsito, não me arrisco. Se um dia você me vir pedalando pelas ruas, tenha certeza de que as condições para os ciclistas melhoraram muito e, quem sabe, haverá mais gente colocando abajur na garagem. (Gazeta do Povo, Curitiba, Brasil)

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