sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MINHA luta: perderam um cliente

Capítulo 24, continuação da postagem do dia  21out.2011 

 

QUANDO tudo parecia correr às mil maravilhas, eis que o aluno Quinze Setequatro é surpreendido com tal problema. E que problemão! Não bastassem a dificuldade nos exames, agora essa de ser acusado injustamente de uma arruaça que não praticara. Acusado, julgado e punido sumariamente sem nenhuma chance de defesa. Uma cópia de folha de caderno valia mais que sua palavra. A dona do bar não estava disposta a levar prejuízo diante da impossibilidade de identificar os brigões. Mais fácil seria imputar a um aluno, cujo comandante certamente mandaria fazer carga no salário, nada resolvendo este jurar inocência. Um grande ato de covardia, decerto.


Os alunos de minha esquadrilha se dividiam quanto à minha culpa ou inocência no caso. Uns, em razão da minha fama pela embriaguez, pesadelo e baixa ao hospital do semestre anterior, decidiram que eu realmente havia me envolvido na briga. As razões? Ninguém as sabia, mas devia ter uma. Quem te viu, quem te vê. Chegou à Escola tímido, raquítico como diz o Martins. Agora, ganhou massa muscular e já deu até para brigar. Muito bem, Quinze! Vibrei. Eu também não gosto desses caras. - dizia um, que passava por mim no corredor da Deí. Para esses, que eram a maioria,  de nada adiantava dizer da minha inocência; eles apenas aceitavam com naturalidade a minha atitude de defesa, era lícito defender-se. Para outros poucos, eu estava sendo vítima,estaria levando a culpa justamente por ser aluno, um forasteiro em Guaratinguetá, que estava a concorrer com os rapazes da cidade. Um terceiro grupo não dava a mínima, tão indiferentes às tragédias individuais que nem a prisão de Pontes fora capaz de fazê-los reagir. Era a vida que seguia.

Mas, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, eis que o socorro viria de onde menos se esperava. Chegou ao conhecimento do Caveirinha, ou melhor, o sargento Cunha Pinto,  o meu drama. Mostrando seu lado gente-boa, resolveu me ajudar. Contei-lhe da suspeita de que aqueles sargentos que vira numa outra vez conversando podiam saber de algo. Prometeu que iria falar com eles, fazer o possível para elucidar o caso, tirando-me daquela enrascada.


Enquanto isso a vida seguia seu curso no Ceá.

Naquele semestre iria acontecer o 11º Ficca, festival interno da canção do Ceá. Alguns colegas iam concorrer. Quantos dotes artísticos estavam ali escondidos naqueles jovens; jovens esses que, tivessem oportunidade, estivessem na hora certa no lugar certo, certamente brilhariam no cenário musical brasileiro, fazendo fama e fortuna. Em se tratando de dom artístico e de talento esportivo, não basta ser bom, tem que ter estrela, além de padrinho. Quantos jogadores de futebol, escritores, atores, comediantes ou cantores não dariam alguns daqueles jovens, que, não trocando o certo pelo duvidoso, optaram por seguir a carreira militar? 

O Ficca quebrou nossa rotina naquele semestre
A esposa do comandante da Escola fazia parte do juri. O aluno Alberto foi o grande campeão com a música "A procura da paz", ficando o segundo lugar para o colega Alvarino, com a música "Esperança". O talentoso Alberto também levou o terceiro lugar com a música "A esperança não é um lamento". O evento ocorreu na Sabap, sociedade amigos do bairro do Pedregulho. Segundo os mais antigos, nunca se vira nos festivais anteriores público tão numeroso e entusiasta. Um ano depois viria a ocorrer as olímpíadas do Ceá, que aconteciam a cada dois anos.

Cumpria resignado os dias de punição. Num final de tarde, chamaram-me novamente ao comando da esquadrilha. Deram-me a notícia que já esperava. Nada seria descontado do meu salário, tudo não passou de um lamentável engano. Não sei porque mas não fiquei satisfeito com isso, afinal o sofrimento pela injustiça não tinha como ser apagado. Bem mais tarde, só mais tarde fiquei sabendo da verdade: Cunha Pinto foi até ao bar, escondia sob a roupa um minigravador de voz. Conseguiu em conversa informal, entre uma pinga e outra, que um dos funcionários dissesse a verdade. Aquilo era já uma prática comum, não só lá, no bar da portuguesa, como em vários outros similares da cidade. Em caso de prejuízo material, era só escrever ao comandante da Escola informando que fora obra de aluno da Escola. No meu caso, ficou facilitada a mentira com a cópia da folha de caderno do findu. Estava lá o meu nome, número e assinatura. Não tinha como amargar o prejuízo, era só por a culpa no aluno.


Fiquei imensamente grato ao Cunha Pinto, recusando-me a partir de então a chamá-lo pelo apelido. Vejam quanta gente passa, ao longo deste estágio chamado vida, pelo nosso caminho a nos ajudar, a nos dar a mão amiga. Em consequência a punião foi anulada, e minha ficha refeita. No entanto, o trauma, que me permaneceu indelével na memória, deu-me a lição, e, a partir de então, excetuando ter ido ao local para saldar o débito, apagando aquela famigerada folha de caderno, nunca mais pus os pés no bar da portuguesa. Não mereciam a honra da minha presença, tampouco receber de mim os cruzeiros que conseguia com suor e lágrimas naquela Escola. Além de amargarem o prejuízo do quebra-quebra, perderam um cliente, um bom cliente. 


Noutro dia a anedota era sobre um tal Benito Fernandez, um primeiro-sargento. 
O cara era tão falador, fofoqueiro, que não parava em unidade nenhuma. Vivia sendo transferido como castigo. Era de Manaus pra Belém, Belém pra Salvador, Salvador pra Porto Alegre... Uma vez em Anápolis, ele em companhia do chefe, um major especialista, no hangar, fez o seguinte comentário: "Mas meu chefe, eu estou preocupado com o tenente Loureiro. Por que, Benito? quis saber o chefe.   Veja bem, não seria melhor mandar uma ambulância? deixe de rodeios. É porque faz dois dias que ele não vem trabalhar, meu chefe. Será que ele não está doente?" O apelido dele era Santelmo, aquele que não sabia mentir.



Esse era um Cunha Pinto que, por não o conhecermos, temíamos. Contava agora mais uma vez das suas anedotas, coisa que dantes somente o fazia entre os sargentos. De pouco tornara-se hábito ele contemplar também os alunos, os alunos da minha turma, levando-os às gargalhadas. Tudo era uma forma de tornar menos duros aqueles dois anos.

Não obstante, o tempo corria celeremente. Ao cabo de algumas semanas, já estaríamos sendo chamados para escolher a especialidade. Seria o ofício rotineiro que nos viria a acompanhar por mais 28 janeiros, pelo menos.


Continua... 


"LIBERDADE é uma palavra que o sonho humano alimenta, não ninguém que explique e ninguém que não entenda."  Cecília Meireles

 
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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