quinta-feira, 13 de outubro de 2011

MINHA luta: um lobo em pele de cordeiro

Capítulo 22, continuação da postagem do dia  10out.2011 



Nem sempre lembranças boas...
A ROTINA da Escola seguia seu curso, indiferente aos problemas de cada um. As baixas, que para os alunos, a parte interessada, significavam um grande trauma, para os oficiais, praças e funcionários do comando do Ceá, tudo não passava de mais um número; desligamento, uma coisa corriqueira como uma publicação em boletim, papéis com letras datilografadas, ações do dia a dia, atos administrativos, tais quais as matrículas, as promoções de série e as formaturas de cada turma. A prisão de um aluno, ainda que nas circunstâncias especiais que ocorrera a Pontes, também não era razão suficiente para alterar o cotidiano da instituição. Um ipeême ou uma sindicância com a publicação de seu resultado em boletim com a devida ação disciplinar ou policial. Nada além disso.


Cada um de nós, silente, procurava seguir a normalidade das suas tarefas, mesmo porque não havia como ser de outro jeito. Questão de sobrevivência individual, não havendo tempo algum para lamentações e lágrimas. Antes foi Almeida Silva e mais onze companheiros, porém nesse caso, o comportamento deles era coerente com o acontecido, não havendo muita surpresa; hoje pela madruga Pontes, o seu Padre, cujo afastamento, da forma insólita como ocorreu, e considerando a sua figura um pouco atrapalhada com seus olhos de fundo de garrafa e sua pasta sempre cheia de apostilas, realmente chocou-nos deveras. Sua prisão, assim, sem que nós, seus colegas, tivéssemos direito a nenhuma explicação, além de nos deixar pesarosos, produzira em nossa mente uma grande interrogação, uma curiosidade natural. Por quê? Em que fora indiciado? Um engano certamente. Necessariamente o comando da Escola agira no caso de forma precipitada. Aquele rapaz tímido, incapaz de fazer mal a uma mosca, fora necessariamente vítima de uma injustiça, de um grande engano com certeza, como já ocorrera outros equívocos naquele velho corpo de alunos.


O aluno xerife comunicou-nos que fomos dispensados do último tempo de aula para que o comandante da esquadrilha nos fizesse um comunicado formal, e dessa forma tudo fosse esclarecido.


Foram anunciadas as formalidades de hierarquia e de respeito com a chegada do comandante da esquadrilha, que de imediato mandou a todos nós sentarmos ali no pátio, enquanto ele falava à turma lá do alto, da sacada do prédio.


Sei que todos vocês estão curiosos, e, mais que isso, precisam saber da verdade. 


Começou o comandante a sua fala com todas as preliminares de praxe, que só aumentavam mais aquele estado de ansiedade em toda a turma. Mandou alguém ler o relatório de um ipeême, que a nós nada esclarecia; ao contrário, deixava-nos, sobretudo os mais jovens, mais confusos que dantes. Finalmente, ele foi objetivamente ao assunto.


Guilherme da Silva Pontes, na verdade Henrique da Silva Pontes. Esse é o verdadeiro nome do aluno Pontes, que hoje pela madrugada foi recolhido às dependências da companhia de polícia, acusado de homicídio duplamente qualificado, conforme conclusão de inquérito. Pontes esteve nesta mesma Escola como aluno três anos antes, e foi desligado na terceira série por indisciplina. Todos vocês sabem que alguém desligado por indisciplina não tem como voltar ao corpo de alunos. Pois bem. Pontes deu um jeito.   


A turma estava de queixo caído. Continuava o comandante.


No meio civil, tem uma razoável ficha policial por crimes que vão de pequenos furtos a estelionato, passando por assalto à mão armada, sendo procurado pela polícia do Rio de Janeiro por esses crimes. Mas Pontes arranjou uma maneira de livrar-se da procura policial. Em diligências aos cartórios do município de nascimento, descobrimos que Pontes teve um irmão, um irmão gêmeo, que faleceu aos cinco anos de idade. De posse da certidão de nascimento do irmão falecido, o verdadeiro Guilherme da Silva Pontes, Pontes Henrique da Silva Pontes, o nosso Pontes - assumiu a identidade do irmão, conseguindo outros documentos a partir da certidão de nascimento. Apresentando tais documentos fez novo exame à Escola, pois a idade ainda permitia.


O comandante fez uma pausa para tomar água. Vários alunos se olhavam reciprocamente, incrédulos.

Voltando à Escola na condição de aluno, Pontes arquitetou um álibi perfeito, bastando passar esses dois anos numa rotina que lhe não era estranha. Intelecto era o que não lhe faltava. Trata-se de um sujeito inteligentíssimo, e aquele jeito de rapaz tímido, matuto do interior, tudo era somente um estratagema. Já usava óculos anteriormente, mas desta vez alterou a lente, tentando alterar as suas feições. Em suas provas de matemática, que estão recolhidas à seção de avaliação, quase nenhum cálculo continham; ele fazia todas as contas de cabeça. Em suas apostilas nenhuma anotação havia, nenhum texto destacado à lápis ou caneta, coisa que não é usual nem nos alunos mais brilhantes... Mas não foi somente por isso que ele foi preso. Tudo isso era apenas um estratagema.
 
Ninguém tinha uma palavra para dizer de tão estupefato que cada um permanecia. Já não bastassem tantas revelações, tudo parecendo esclarecido. Mais relevações estavam a caminho, como uma metralhadora que não cessava de cuspir azeitonas quentes.

Em seu armário três calcinhas de mulher foram encontradas. Uma delas, em exame pericial, comprovou-se um material biológico coincidente com da tal moça encontrada morta na zona de paraquedismo. As razões para isso a polícia vai descobrir, levando Pontes a um júri popular.

Era uma enxurrada de informações. A turma estava aturdida. Murmúrios deixados escapar a cada nova informação. Por várias vezes, o comandante interrompia sua fala ordenando silêncio e atenção. Continuava o comandante.

Há muito ele vinha sendo investigado pelo nosso serviço de informações. E nem era pelo crime, que ainda nem tinha ocorrido. Sim pela suspeita de ter voltado à Escola de forma ilegal, não obstante seu comportamento desta feita fosse bem diferente do de antes, levando desta vez uma vida escolar irrepreensível e um comportamento disciplinar compatível com esta nova condição. A sua vida reclusa, jamais viajando para casa nos finais de semana, não passou despercebida ao nosso serviço de informações. Alguns sargentos também levantaram a suspeita pela semelhança com o aluno de antes, embora mais de três anos tenham decorrido, levando o comando a determinar as diligências ao município de origem, com a expedição de vários ofícios a cartórios, escolas e outros órgãos públicos. A razão de não sair do quartel neste período está agora explicada: era um álibi perfeito, e aqui na Escola sentia-se seguro, distante dos olhares da polícia. E tem mais...


Parou para a água. Depois de tomar água, prosseguiu.


Mesmo durante as férias o aluno Pontes não foi pra casa. Procurado por um de nossos agentes, devidamente descaracterizado naturalmente, não foi encontrado no endereço onde declarou passar as férias.  Foi visto em Guaratinguetá por, pelo menos, meia dúzia de vezes.



O comandante ainda teceu alguns comentários técnicos e depois dispensou a turma. Quase a totalidade permaneceu silente por alguns instantes, tentando digerir aquela torrente de informações. Um delinquente, um falsário, um frio e cruel assassino entre nós, isso tudo era coisa que jamais nenhum de nós, mais experiente que fosse, não esperava. Um lobo em pele de cordeiro era coisa de filme de suspense, coisa de novela ou romance. Foi aí que lembrei das conversas de alguns alunos, meses antes. Aqueles caras não estavam longe da verdade, ou será que?... Será que já sabiam de tudo? Ou...

A tarde foi vista uma viatura policial diante do prédio da companhia de polícia, de onde levou Pontes, o seu Padre, a uma penitenciária.

Uma nuvem negra vinda lá da serra da Mantiqueira ameaçava para a tarde um grande temporal.


Continua... 


"NÃO é suficiente que façamos o nosso melhor; às vezes temos que fazer o que é preciso."  Winston Churchill 

LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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