segunda-feira, 10 de outubro de 2011

NO ESTÁDIO Jalisco, um brinde a Pelé, Tostão e companhia

por Luiz Carlos Azenha
Luiz Carlos Azenha no Estádio Jalisco // Foto: Diário de Guadalajara

ONTEM à noite fomos ao estado Jalisco. Atlas, um dos times de Guadalajara, 2, Tijuana 2.

O time local marcou primeiro, tomou a virada mas empatou no fim, em um pênalti inventado pelo juiz.

Jogo muito ruim, disputado entre duas equipes que correm o risco de cair.
Mas valeu muitíssimo.

Em 1970, em Bauru, menino, vi esse estádio pela primeira vez. Pela TV. Foi na Copa do Mundo, com aquele espetacular time brasileiro.

Já contei anteriormente que meu pai, o seo José, era militante comunista. Ele sabia que a ditadura usava o futebol para animar o povo brasileiro, que enfrentava tremendo arrocho salarial — promover o arrocho tinha sido um dos objetivos do golpe de 64, garantindo aos empresários mão-de-obra farta e barata.

Porém, a seleção brasileira jogou tanto na Copa que todos torcemos por ela, inclusive meu pai.

Nossa TV, uma Rebratel, se não me engano, pifou durante o campeonato.  Recorremos ao famoso televizinho, que era comum numa época em que nem todos tinham TV em casa, ainda mais a colorida (a Copa de 70 foi a primeira a ser transmitida em cores).

Talvez por isso o campeonato tenha sido tão marcante. Decoramos todos a escalação do time (Felix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Gerson e Tostão; Jairzinho, Pelé e Rivelino). E vibrávamos com cada um dos gols, correndo para a rua para ouvir o pipocar dos rojões. Eventualmente, comprávamos nossas próprias bombinhas de 10 (centavos) ou traques (as bombinhas de vinte, diziam nossas mães, poderiam decepar nossos dedos, mas eu acho que elas queriam mesmo é economizar).

Os jogos eram seguidos por refeições de luxo, regadas com a água negra do imperialismo (Coca-Cola) ou, no aperto financeiro, com a famosa Tubaína, também conhecida como Taubaína ou Guaraná maçã. 

O Brasil fez gols inacreditáveis naquele campeonato. Três marcados no primeiro jogo, contra a Thecoslováquia (era assim que escrevíamos então) foram particularmente bonitos. Dois sairam de longos lançamentos de Gerson.  No primeiro, genial, Pelé matou no peito, deu um tempo para o goleiro sair e encheu o pé. No seguinte, foi a vez de Jairzinho matar, dar um lençol no goleiro e estufar as redes. Mais adiante, o próprio Jairzinho driblou três zagueiros e completou o placar: 4 a 1.

Mas o jogo ficou conhecido mesmo pelo não-gol de Pelé: ele notou o goleiro Victor adiantado e chutou do círculo central. Perdeu por pouco.

No mesmo estádio, na vitória de 3 a 1 sobre o Uruguai na semifinal, depois de um passe maravilhoso de Tostão, Pelé fez outra jogada genial: o mais bonito gol perdido na história. 

Confiram os lances nos vídeos abaixo. 

Ontem, no Jalisco, tivemos sorte de sentar bem perto de um mexicano que estava no estádio durante os jogos da Copa de 70 (o Brasil só saiu de Guadalajara para jogar a final no estádio Azteca, na Cidade do México). 

E ele rememorou cada lance, mostrando as posições em campo das jogadas geniais.
No México, a venda de cerveja é liberada nos estádios, mas a de tequila, não. Porém, o filho de Julio, o mexicano que refrescou nossa memória, trouxe ao estádio um binóculo, melhor dizendo, um falso binóculo, cujas lentes escondiam um mini-depósito de tequila. 

O jovem depositou o conteúdo num copo de papel e todos nós fizemos um brinde em memória daquele timaço. O aconchegante estádio Jalisco deveria ser tombado como patrimônio histórico brasileiro.



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