segunda-feira, 3 de outubro de 2011

OPINIÃO não se discute: na fronteira


Edyr Augusto Proença

NO FINAL dos anos 60, eles todos eram adolescentes, entre 14 e 16 anos de idade. Passavam o dia no colégio e aos finais de semana, encontravam para os primeiros flertes, com as meninas, em clubes da cidade. Reuniam-se antes na cada de um. Comentavam entre si as possibilidades, as pretensões. Claro, nem todos já tinham aquele olhar "matador" dos gaviões que pensavam em ser. Saíam com hora marcada para voltar e alguns trocados para o refrigerante. Lá fora, faziam coleta e uma vez no clube, dividiam garrafa de rum misturado com Coca Cola, a Cuba Libre, para dar mais coragem. Ficavam ao redor do bar, desfilando de copo na mão, fazendo pose, investigando quem chegava ou saía. E elas, reunidas, fofocando, ou emburradas ao lado dos pais, aguardando um convite. Quer dançar? Meu Deus, para alguns era tão fácil que mal começava a música estavam rodando o salão, trocando de par, levando essa ou aquela para uma conversa. E ele continuava ali, ensaiando o convite, por horas, ate criar coragem, testar a voz de locutor. E vem a dança, ele sente o perfume da garota, que vai chegando mais próximo até colar o rosto, sentir a protuberância discreta dos seios, My God, o que fazer agora? Ache palavras, frases, ou quem sabe, pergunte se ela não quer ir ali adiante conversar um pouquinho. Muito ousado, muito saído, hein? Então fazer o quê? Aguardar as músicas passarem até ela, aborrecida, dizer-se cansada e voltar para a mesa e você passar mais uma semana desesperado, ensaiando frases? E então tocam a última música e eles todos vão saindo porque hoje é domingo e amanhã tem aula. Muitos saíram antes, mais ajuizados. E na rua, antes da despedida, vem um e convida "vamos dar uma volta na Condor", e todos sentem, sem demonstrar, o frio na espinha. Com rapidez, respondem que não têm dinheiro para o taxi, para pagar a mulher, mas o amigo logo diz que tem uma sobra e dá para os quatro irem de taxi. Claro, todos respondem.


A Condor era ou é um pedaço do Guamá onde chegou a funcionar uma estação de recepção de passageiros que chegavam no hidroavião. Naquele tempo, ao redor da Praça Princesa Isabel, funcionavam boates populares onde prostitutas atendiam até na rua. A iniciação sexual dos rapazes era, quase sempre, com prostitutas, quase sempre entre 14 e 16 anos. Quase sempre. E ali, todos eram virgens. Aceitar o convite para ir à Condor era um desafio que os deixava ao mesmo tempo com os cabelos em pé e outros órgãos também. O amigo que convidou foi sentado no banco da frente. O motorista pergunta o endereço e ele diz: Condor! Todos nos entreolhamos. O motora abre um sorriso. Assim é que é bom. Tem que começar na sacanagem desde cedo. O amigo concorda e ele passa a contar suas próprias aventuras, deliciado. Não damos uma palavra. Só o amigo da frente. Há uma tensão crescente no banco de trás. Súbito, passamos de decorar frases para garotas tão virgens quanto nós para um encontro com as prostitutas. A fronteira entre a criança e o adulto em questão de minutos. Você revê todos os seus gestos, pensa no que dizer, lembra de fotos, filmes, causos, sonhos, masturbação e pergunta a si mesmo se está preparado para aquilo. A primeira resposta é NÃO. Naquele instante preferíamos, estranhamente, ser crianças inocentes, mas não podemos externar para não passar vergonha diante dos outros. Nem sequer nos consultamos. O silêncio pesa toneladas no banco de trás enquanto o motora prossegue e seu relato e ri com sua própria história. Chegamos. À nossa frente, a Praça Princesa Isabel, redonda, cercada por homens e mulheres que conversam, bebem, namoram, combinam e entram nas boates ou desaparecem por aqui e por ali. Frio no estomago. Onde eu páro? Dê a volta na Praça! Ah, já sei, querem dar uma olhada nas mulheres logo aqui do carro. Eu acho bom, acho muito bom. Tem que olhar antes a mercadoria, não é? Vocês, moleques.. Damos a volta. E agora? Paro aqui? Não. Pode voltar para o lugar onde nos apanhou! O motorista olha, incrédulo para o amigo que está na frente. Olha para nós, atrás. Dá de ombros, retoma o volante e retorna. Em silêncio, ele. Em silêncio, nós. Descemos, nos despedimos e voltamos a falar do assunto apenas no dia seguinte, no colégio. Bem, o assunto foi resolvido pouco tempo, para todos mas naquela noite, quase cruzávamos a fronteira. 



QUEM não tem uma história (respeitadas as peculiaridades de espaço, tempo e cultura), parecida com essa, para contar? A diferença é que normalmente só se contam as vitórias.

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