quarta-feira, 2 de novembro de 2011

MINHA luta: qual especialidade escolher?

Capítulo 25, continuação da postagem do dia  28out.2011 


MAIS uma manhã no corpo de alunos
. Alvoroço geral com aqueles dois milheiros de alunos  saindo de suas respectivas esquadrilhas, correndo para entrar em formação. Como era o previsto para a semana de segunda a sexta-feira, a imensa tropa, mais uma vez, fracionava-se em grupos menores conforme as salas de aula ou galpões de especialidade. Cada grupo com seu respectivo comandante, o aluno xerife, escalado para o dia, para cuidar que todos estivessem em seu lugar no devido tempo e na devida ordem, exigindo vivacidade, silêncio, imobilidade, pois ali não era lugar para molóides. Este aluno tinha que ser o primeiro a chegar ao local de formatura.


Rápido, moçada!
Entrou em forma, não mexe mais!
Posição de descansar correta!
Mãos coladas à coxa, dedos colados, cabeças erguidas. Polegar também é dedo!
Imobilidade! Vou apresentar ao aluno de dia.


Em torno dessas pequenas tropas, outros alunos também escalados de serviço, os alunos patrulhas, àvidos a avistar algum aluno em atraso ou se mexendo estes eram a maioria –  e outros que faziam vistas grossas a alguma possível transgressão de seus colegas a minoria. Cada aluno, comandante de cada pequena fração de tropa, depois de comandar sentido, cobrir, firme e descansar, sentido novamente, cobrir, firme e descansar, numa repetição enervante até que desse a alunada por pronta, e, outra vez, sentido, recomendando imobilidade total, fazia a apresentação ao aluno de dia ao Ceá, o aluno mais antigo escalado para o dia. 

Mais um dia de rotina no Ceá
Por sua vez, o aluno de dia, o todo-poderoso, uma vez recebidas todas as apresentações de rotina, dizia ao corneteiro os toques que deviam ser dados: reunir, sentido, cobrir, firme, descansar, até, finalmente dar outra vez sentido para a apresentação ao oficial de dia ao Ceá presente. Dava a tropa pronta para que seguissem destino. A partir de certo ponto, cada grupamento se desmembrava do todo, seguindo destino próprio, sob o comando de cada aluno comandante de grupamentos, e estes encaminhavam seus colegas comandados para a respectiva sala de aula, no caso as turmas de primeira e segunda séries, ou galpão de instrução, no caso das especialidades de terceira e quarta séries. Todos, exceto aqueles possuidores de dispensa médica do esforço físico, seguiam marchando em passo ordinário, disciplinadamente. 


Coisa interessante era essa figura de aluno de dia ao Ceá. Queria conhecer alguém de verdade? Que o escalasse de aluno de dia, que a sua verdadeira personalidade viria à mostra. Alguns tímidos, outros gente-boa, bonachões, ou simplesmente nem cheirando nem fedendo, transformavam-se quando investidos da autoridade que pensava ter o aluno de dia. Mandavam e desmandavam, cometendo abusos de autoridade contra seus próprios irmãos de luta.

Correu o bizu de que o presidente da República passaria pela cidade, não se sabendo dizer por qual razão nem em qual dia. Depois se soube que o presidente viria à Escola, e, além disso, por alguma razão inexplicada a alunos, ainda ficaria hospedado no hotel de trânsito de oficiais.

Foi marcado o dia para a escolha das especialidades. Certamente alguns alunos, ainda que quisessem, não poderiam ser destinados a determinadas especialidades. As razões eram variadas: alguns por dificuldade intelectual, outros por não ter aptidão, outros por saúde ou até pela própria dificuldade de fala, como era o caso da especialidade controle de vôo, bastante cobiçada por muitos. Na verdade, todos estavam ao longo daqueles dois semestres sendo observados, numa espécie de avaliação velada. Os critérios de eliminação, além dos exames intelectuais, levavam em conta os exames de saúde, pois havia alunos não indicados para enfermagem, ou especialidades de vôo, por exemplo; exames psicológicos também contra-indicavam para algumas especialidades; os exames práticos no galpão de eletricidade básica certamente desviaram outros alunos de especialidades da área de eletrônica, sistemas elétricos ou de eletricidade de aeroportos; a prática de tecnologia básica também interferiu na indicação ou não de colegas para as especialidades ligadas à metalurgia. Teve um colega que, por opção, fugiu das especialidades que envolvessem eletricidade. Ele tinha uma razão bem particular: sua irmã morreu eletrocutada.


Jamais passara antes pela cabeça de Zé Bernardi a questão das especialidades, sendo-lhe indiferente qualquer uma delas. Na véspera, contaram ao mineirinho que o salário dos sargentos das especialiades de vôo armamento e mecânico de aeronaves era mais gordo. Aumentava em quarenta por cento do soldo. Zé, dinheirista como era, não se conformou quando na relação que lhe cabia não havia opção dessas especialidades. 


O quê? Não pode ser.
O que foi, Zé? perguntei.
Não veio pra mim, Quinze, a opção pra armamento.
Ué, não veio, não veio. O que há de se fazer? Nada.
Não. Isso não pode ficar assim. Me falaram que aerre paga quarenta por cento do soldo a mais.
E daí?
E daí que eu tenho que pegar essa especialidade. Vou correndo à seção de psicologia ver isso. Eu tenho de pegar aerre, Quinze. São quarenta por cento. Quarenta por cento não é pouca coisa, não. Quarenta por cento não é de se jogar fora. Meu pai vai ficar orgulhoso de mim.
Boa sorte, então.


Quanto a mim, não vieram não só as de vôo como a de controlador de vôo, que era a minha preferida. Também resolvi ir à psicologia.
Com licença, suboficial Braga?
Já sei, aluno, quer reclamar que alguma especialidade não lhe foi indicada. Agora mesmo veio aqui outro aluno e, por sorte dele, vimos que houve um engano. 
Eu gostaria de saber porque não me indicaram para cevê, controlador de vôo, se as minhas notas em inglês foram ótimas.
Isso é fácil, aluno. Você talvez não perceba, e nem ninguém já te disse. A verdade é que a sua fala é péssima. Você é quase gago e tem até língua presa. Quer um conselho? Escolhe escrevente.


Saí de lá com raiva do sub. Quem era ele pra definir o meu destino? E o Prado, com aquela voz horrível, que escolheu cevê? 


Vim pelo caminho assim. Num momento praguejando contra o sub, que era formado em Psicologia; noutro momento meditando sobre o que seguir, daquela lista. Especialidade que mexesse com mecânica, não; não tinha habilidade alguma com mecânica. Que envolva muitos cálculos matemáticos, muito menos; queria distância dos números, que quase o fizeram retornar de mãos abanando para Belém. Enfermagem, também não; não era muito chegado a ver sangue. Infantaria, esta também não; ademais, não se sentia encorajado a saltar de paraquedas. Vinha assim pelo caminho. Ao chegar à esquadrilha já havia tomado a minha decisão. O sub estava certo. Escolhi escrevente, embora não soubesse datilografia.


Zé Bernardi conseguiu o que queria. Pegou aerre. Não que não tivesse aptidão, mas principalmente pelo fator financeiro. O mineirinho veio do Vale do Jequitinhonha com a mala e só o dinheiro de vinda, com a recomendação expressa de seu pai de que não voltasse a Minas ganhando seu próprio dinheiro. Foi pensando nessas instruções paternas que Zé decidiu que iria pelo máximo que a mãe Fab lhe oferecesse. Não importava que fosse uma especialidade penosa, conforme lhe disseram os sargentos antigos. Estava acostumado com a vida dura lá da roça, mas não estava disposto a voltar para lá senão feito financeiramente.


Para mim, que me acostumei a qualquer coisa, sair sargento, não me importando se me formasse escrevente ou outra especialidade. Seria para aquele aluno humilde uma grande vitória sair daquela Escola com as insígnias de terceiro sargento. O resto era indiferente. Depois, escrevente estava ótimo; não mexia com graxa, não envolvia operações aritméticas e cálculos complicados nem parecia ser tão complexo aquela área ligada à administração do dia a dia dos quarteis. Além do mais, Délio, o aluno que havia entrado na turma como zero-um, também tinha escolhido escrevente. Era isso: eu seria sargento escrevente. A decisão estava tomada, fosse o que Deus quisesse.

No dia seguinte o presidente chegava a Guaratinguetá.

Continua... 



ACOMPANHE os capítulos anteriores:


01 - A primeira grande viagem
02 - Chegou o dia daquela primeira grande viagem
03 - Chego finalmente a Guaratinguetá
04 - Os dois mais longos anos
05 - A dura rotina dos primeiros dias de batalha
06 - Coisa boa o que é?
07 - Fui à cidade passear
08 - Nova semana se inicia
09 - As primeiras avaliações
10 - O Caveirinha
11 - Palavras que ficaram
12 - Mais um final de semana
13 - O pior estava por vir
14 - O pesadelo continua
15 - Nada pode ser tão ruim que não possa piorar
16 - A esquadrilha da fumaça
17 - Fui reprovado
18 - O que era um peido pra quem já estava cagado
19 - De volta ao front
20 - Começa pra valer o segundo semestre
21 - A vida imita a arte
22 - Um lobo em pele de cordeiro
23 - É culpa do aluno


 
"SOMENTE quando você já esteve no mais profundo vale você consegue saber o quão magnífico é estar no topo da mais alta montanha."  Richard Nixon


 
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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