quinta-feira, 10 de novembro de 2011

MINHA luta: a visita do presidente

Capítulo 26, continuação da postagem do dia 02nov.2011.
 
O COMANDANTE da minha esquadrilha ficou meu peixe (ou seria o contrário? Bem, isso não vem ao caso agora). Desconfiei que tinha algo a ver com aquela punição injusta que ele me aplicou, mas que depois, provada minha inocência, anulou-a. O que não faz uma consciência pesada? Certamente pensou bem e pode até ser que tenha passado a monitorar os meus passos, concluindo ser eu apenas um garoto ingênuo, um nortista ali em Guará e suas dificuldades, o que se pensou assim   era a mais pura verdade. Concluí que era desses tipos que mordia e depois assoprava. Passei a pensar dessa forma quando, mais uma vez, me chamaram ao comando da esquadrilha. Fui, como sempre pensando em que tinha feito de errado, ou não feito mas que pudesse ser atribuído à minha pessoa, como ocorrera doutra vez. Fui assim procurando nos escaninhos da memória, mas nada, nada mesmo, achando.

Sim, senhor capitão (o capitão Saturnino tinha sido promovido no mês anterior). Quinze Setequatro se apresentando!
Sente-se, Quinze. 

Senti que o chefe estava mais descontraído, menos formal; até não me chamava mais de 'aluno' e sim pelo número pelo qual eu era conhecido. Mandou-me sentar, liberando-me da formal posição de sentido ou da de descansar correta, que era o padrão preconizado pelo regulamento (só faltou me servir o cafezinho).

O presidente vem aqui amanhã. 

Já Sei. E eu com isso? Pensei comigo, mas logo me arrependi, imaginando que a expressão facial pudesse me denunciar o pensamento mal-criado.

Sim, senhor! Entre os alunos é o que se comenta, capitão.

Respondi e esperei que o capitão Saturnino completasse a informação.

De ordem do comandante da Escola, cada targeta tem de mandar a representação de dois alunos. Isso dá oito. Sendo que um deles é obrigatoriamente o zero-um, e o outro, fica a critério do comandante de cada targeta, no caso, o segundo aluno da targeta Branca quem escolhe sou eu. 

E eu com isso? Voltou-me à mente o pensamento mal-criado. Mas desta vez não temi pela expressão facial. O que eu tenho a ver com isso. Vai o Délio, que é o zero-um, mais cada zero-um da verde, amarela e azul. O outro deve ser o aluno zero-dois, que é o Vale. Isso tudo passou naqueles dois ou três segundos em que o comandante se levantava para servir-se de um cafezinho.

Você sabe quem foi indicado para a segunda vaga?
Talvez o zero-dois? Não sei, não, senhor.
Você. Prepare seu quinto.

Fiquei sem palavras, e, como já estava sentado, não caí. Por qual razão eu teria sido escolhido pra compor aquela representação presidencial? Fiquei com a pulga atrás da orelha. Sabia, por comentários, que o comandante não tinha família em Guaratinguetá. Tinha vindo do Ceará havia dois anos e deixado por lá esposa, filhos e tudo o mais. Alarmei-me com aquela súbita mudança de comportamento: seria daquele time? Não, não tinha jeito pra boneca. Mas tinha ouvido falar de gente que dissimula muito bem esse desvio, e até sai com mulheres em público e tudo o mais. Deixa pra lá, de qualquer forma eu nada tenho a ver com essa gente.

Por que eu, capitão?
Não vem ao caso. Cumpra a ordem, só isso, aluno. O sargento tem todas as instruções e vai dar o treinamento de que vocês precisam. É só. Você está liberado.
Sendo assim, permissão para me retirar e obrigado.

O que se sucedeu na minha cabeça entre sair da sala e até o dia seguinte, quando o sargento me daria as instruções, treinamento e tudo o necessário para não fazermos fiasco perante à autoridade máxima, foi uma série de pensamentos com muitas interrogações e reticências. Uma hora desconfiava da masculinidade do comandante, outra vez que tinha sido escolhido para tal honraria por causa do peso de consciência dele, não tendo a humildade de pedir de desculpas, ele um oficial a um aluno, daí resolver me recompensar pela humilhação que sofri. Quase não dormi à noite. E se..., não isso não, mas... Examinava a cada uma situação para em seguida passar a outra, descartando a primeira, e assim giravam os ponteiros. De repente me veio à cabeça aquela célebre lâmpada. Claro! Só pode ser isso: um trote. Só pode ser um trote. Ora, em vez de premiar o zero-dois ou outro aluno destacado, ou até mesmo um desses puxa-sacos que vivem a visitar o comando e o sargento quase todos os dias, até mesmo um aluno de porte atlético, alto, vai mandar um baixinho e orelhudo como eu, que quase ficou reprovado, se não fosse a benevolência do  comandante da Escola. Esse último pensamento, sobre o aluno de porte atlético, que não foi escolhido, e sim eu, descartou para mim a dúvida sobre a masculinidade.  É claro, só podia ser um trote.

No dia seguinte, fiz como se nada tivesse ocorrido, dispondo-me a ignorar as instruções do comandante. Foi dito que às dez horas, eu teria que ir à sargenteação procurar o sargento, então fiz o propósito de esquecer tudo e voltar à sala de aula, depois daquele intervalo, para continuar a assistir a aula de português. Mas... quem disse que minha cabeça esquecia. Acabei indo, tendo antes o cuidado de ver se o Délio, o zero-um, também estava lá ou prá lá se dirigia, pois ele era um dos dois escolhidos para representar a turma na representação presidencial. Vi o Délio entrando lá na sargenteação, que fez um aceno para mim, aquele característico de ordem de acelerar o passo. Foi o que eu fiz.

Pontualmente às duas da tarde daquele dia seria a tal representação quando, no salão nobre da Escola, o grupo de alunos faria ao presidente a oferta de uma placa em nome do Ceá. À medida que o sargento dava as instruções, minha cabeça se convencia da veracidade do evento, descartando ao mesmo tempo a possibilidade de trote. Já estava gostando da ideia, apesar do nervosismo. No entanto, a minha participação limitava-se à minha presença, cabendo ao zero-um da azul, a quarta série, a fala e o oferecimento do brinde à autoridade máxima do Brasil. Certamente tudo já estava memorizado pelo aluno, que já detinha de véspera o texto previamente elaborado pelos assessores do comandante da Escola. Tudo certo, então. 

Quinze minutos para as duas horas e estávamos todos na ante-sala. Aquele movimento de entra e sai de autoridades, assessores, alguns ministros, entre eles o da Aeronáutica, muita gente empaletozada, agentes de segurança, a polícia da Aeronáutica toda em todos os cantos da Escola, bem assim a polícia militar, não só na Escola, como nas principais vias de Guaratinguetá, batedores, rádio, jornais e televisão, e tudo o que tinha direito a visita de uma autoridade daquela expressão. As autoridades iam chegando uma a uma, todas recepcionadas pelo comandante da Escola.

Chegou, finalmente, o momento em que entraríamos em cena e tudo ocorreu dentro do previsto, numa cerimônia rápida. O zero-um, aparentando naturalidade, ofertou a placa, em nome de todos os alunos da Escola de Especialistas de Aeronáutica ao excelentíssimo senhor presidente da República Federativa do Brasil. Não gaguejou nem nada, tendo, depois confidenciado, que passou boa parte da noite treinando em frente ao espelho. 

Fotografias à exaustão, aplausos e falas rápidas, em seguida todos foram convidados inclusive nós, os alunos a nos deslocar ao cassino de oficiais, onde haviam preparado uma recepção, e até a banda de música que, à borda da piscina, faria uma apresentação especial à autoridade do país. 

Ora, dentre os músicos mais talentosos da banda, escolhidos a dedo justamente pela extremosa habilidade na arte musical, havia um deles, um simples soldado, que se sobressaía com sobra em relação aos demais colegas: o S1 Daniel. Após a apresentação solo de dois músicos, chegou a vez de Daniel. Sua apresentação arrancou aplausos do presidente e logicamente de todos ali presentes, encantados  com o talento extraordinário do mais humilde músico da Escola. É bom dizer que os aplausos foram sinceros e não se motivaram apenas pelas regras de boas maneiras e, tampouco, pelo fato de o presidente ter puxado as palmas à arte do S1 Daniel.  Com efeito,  o músico, além de grande artista, emoldurava os harmoniosos arcordes de seu flautim com números de mímica, ora fazendo de conta que tocava por um dos ouvidos, ora pelo outro, às vezes também fazia de conta que tocava pelas narinas, em vez da boca. Diante do número de arte, o presidente, não se conteve, e dirigiu-se ao comandante da Escola:

Barata Filho, esse militar seu toca muito bem.

O brigadeiro Barata Filho, já demonstrando os efeitos do uísque que bebericava havia algum tempo, assim respondeu:

Presidente, esse militar toca até pelo...! (disse um monossílabo tônico indicando que o músico tocava por qualquer buraco)

Nessa hora os homens, com vergonha, viraram a cara; as mulheres, coradas, levaram as duas mãos ao rosto, abaixando-o. O presidente vai mandar prender o brigadeiro, pensaram. O que ele tinha de dizer essa palavra!

O constrangimento levou apenas alguns segundos. O presidente, que era um general, agiu com naturalidade. Mandou em seguida um de seus ajudantes-de-ordem tomar nota do nome e dos demais dados do músico, que, dentro de meses, seria promovido a sargento.


Continua... 
LOUVADO seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

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