quarta-feira, 30 de novembro de 2011

IMPERADOR no trono


(blog do Milton Neves)

A MANIPULAÇÃO da Globo nas eleições de 1989

O PROBLEMA de ficar velho nesta profissão de jornalista é que a gente viu, ouviu e viveu as coisas de perto, testemunha ocular e auricular. 

Sempre que ressurge no noticiário uma história de 20, 30, 40 anos atrás, pedem-me para escrever sobre o evento. Estudantes frequentemente me procuram para contar como aconteceram variados episódios da vida brasileira no último meio século. 

De vez em quando, a memória falha, mas tem certas passagens que testemunhei e nunca vou esquecer. Uma delas, certamente, foi o que aconteceu no debate decisivo entre Collor e Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 1989. 

Eu era assessor de imprensa do então candidato Lula e participava das reuniões com as emissoras e representantes dos adversários para definir o formato dos debates na televisão junto com algum dirigente do PT ou outro membro da campanha. 

Na última reunião para o segundo debate, na TV Bandeirantes, em São Paulo, fui sozinho no meu carro para a emissora porque morava lá perto. Cheguei cedo e me surpreendi quando vi Cláudio Humberto, o assessor de imprensa de Collor, entrando na sala junto com Alberico Souza Cruz, então diretor de jornalismo da TV Globo. 

Até brinquei com eles _ "estou f...." _, mas me garantiram que tudo não passara de uma coincidência. Os dois pegaram por acaso o mesmo vôo no Rio para São Paulo. 

Por acaso também, certamente, os dois tinham as mesmas propostas para o debate e eu me senti meio isolado na discussão. 

Lembrei-me na manhã desta terça-feira de novembro de 2011 do que aconteceu naquela tarde do final de 1989 ao ler na "Folha" o título da página A11: "Ex-executivo da Globo mentiu sobre debate, diz Collor". 

A polêmica surgiu após uma entrevista concedida no sábado à Globo News por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, manda-chuva da Globo na época, que agora está lançando seu livro de memórias. 

Nesta entrevista, Boni contou como a principal rede de televisão do país ajudou o candidato Fernando Collor de Mello na preparação para o debate decisivo. 

"Nós fomos procurados pela assessoria do Collor", revelou Boni, ao contar que recebeu ordens de Miguel Pires Gonçalves, então superintendente da Globo, para que "desse alguns palpites" na preparação do candidato do PRN. 

Boni contou mais: "Conseguimos tirar a gravata do Collor, botar um pouco de suor com uma glicerinazinha, e colocamos as pastas todas que estavam ali, com supostas denúncias contra o Lula, mas que estavam vazias ou com papéis em branco". 

Principal executivo da Rede Globo na época, Boni afirmou na entrevista que "todo aquele material foi produzido, na parte formal", cabendo a Collor "o conteúdo". 

Collor, ao seu estilo deixa que eu chuto, negou tudo: "Nunca pedi a ninguém para falar com o Boni, meu contato era direto com o doutor Roberto (Roberto Marinho, dono da emissora). Nunca tirei a gravata nos debates. Mentira. Suor: nem natural nem aspergido pelo Boni. Glicerina: mais uma viajada na maionese. Pastas vazias: ao contrário, cheias de papéis, números da economia, que sequer utilizei. Em resumo, o Boni despirocou". 

O que de fato aconteceu do outro lado da disputa presidencial, só os dois podem dizer. Da minha parte, só sei que Collor sofreu uma derrota acachapante, como se diz no futebol, no primeiro debate, na TV Manchete, no Rio, e resolveu partir para o tudo ou nada no segundo. 

Furioso, demitiu quase toda sua equipe de campanha naquela mesma noite ao voltar para o hotel. Chamou seu irmão Leopoldo Collor de Mello, ex-executivo da Rede Globo, para comandar a mudança, contratou novos marqueteiros, gastou o que tinha e o que não tinha, dinheiro não era problema. 

Levou os últimos dias da campanha para a sarjeta e assim surgiu garboso e desafiante no palco do segundo debate. Estava de gravata e carregava um monte de pastas. 

Também escrevi um livro de memórias para me ajudar nestas horas ("Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de Repórter", Companhia das Letras, 2006) e foi de lá que tirei o texto transcrito abaixo sobre o que vi acontecer naquela noite:

Chovia forte em São Bernanrdo do Campo, e estava em cima da hora para irmos à TV Bandeirantes, no Morumbi. Lula já se encontrava no carro com Marisa quando Marcos, o filho mais velho, veio avisar que ligaram de Brasília informando que Collor levaria algumas pastas amarelas para o debate, com novas acusações contra ele no campo pessoal. No estúdio, Lula seguiu para o seu púlpito, sem sequer olhar para o oponente.
Mas, em vez de partir para o ataque, quando Boris Casoy lhe fez a primeira pergunta _ sobre a queda do Muro de Berlim, poucas semanas antes _, ele entrou direto na resposta. Com as mangas compridas do paletó escuro cobrindo-lhe até a metade das mãos, dispersivo, Lula em nada lembrava o candidato combativo da campanha.

Quando o debate terminou, eu o aguardava no corredor que liga os estúdios à sala reservada aos candidatos. Ele me deu um tapa nas costas e balançou a cabeça: "Perdemos a eleição. Eu me sinto como um lutador sonado". 

Já de madrugada, fomos jantar em sua casa, mas a comida ficou esfriando na mesa. Nas 48 horas seguintes, Lula ainda seria obrigado a enfrentar toda espécie de boatos difundidos pela imprensa marrom e no boca a boca. Caso vencesse a eleição, diziam, fecharia os templos não católicos, tomaria casas, barracos, carros, televisões, bicicletas e até galinhas de quem tivesse duas para dividir com os mais pobres.

(...) Sábio Frei Chico, o irmão mais velho de Lula que o levou para o sindicalismo. Homem de boa paz e comunista, ele foi buscar lá nas origens da família as explicações para a implosão do candidato no final da campanha, especialmente no último debate: "Lá em Pernambuco, quando alguém ofende a família, o sertanejo só tem dois tipos de reação: ou mata o desafeto ou fica magoado. Lula ficou magoado...". 

Deu para perceber isso na edição do debate que foi ao ar no telejornal Hoje, da TV Globo, na hora do almoço do dia seguinte. Lula não estava bem, perdeu. Mas o que se viu à noite, no Jornal Nacional, da mesma emissora, foi o resumo de outro debate. Editaram só os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. O resultado do jogo, que tinha sido 2 X 1 na edição do Hoje, transformou-se magicamente em 10 X 0. Empolgados, os seguidores de Collor, quietinhos até então, saíram às ruas com bandeiras para comemorar.

A história pode ser reescrita de várias formas, mas os fatos não podem ser reinventados. 

DURMA-SE com um barulho desses! (30nov.2011)


(Teodora Petrescu, Romênia)

DIRETO da Espanha: enroscou um anel no pênis e só os bombeiros puderam remover

DOIS CARROS de bombeiro com cinco bombeiros em cada um responderam a uma emergência no Hospital Rainha Elizabeth, Londres, para ajudar os enfermeiros a remover um anel enroscado no pênis de um paciente. Depois de 20 minutos de árduo trabalho os bombeiros puderam remover o objeto

Mais detalhes no blog espanhol Impresiones.

Durma-se com um barulho desses!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ALTER do Chão, a apaixonante Ilha do Amor no ‘Caribe amazônico’



Alter do Chão, em Santarém, já foi considerada uma das melhores praias do Brasil


Fernanda Krakovics

NÃO é à toa que a vila de Alter do Chão, a cerca de 35 quilômetros de Santarém, no Pará, é conhecida como o “Caribe amazônico”. O local é sucesso inclusive em publicações internacionais — já tendo sido citado pelo “The Guardian”, entre as melhores praias do Brasil. O Rio Tapajós é de um azul cristalino, a água é morna e a areia, branca. E sem mosquitos a incomodar, devido à acidez da água, resta aos visitantes relaxar em suas praias, passear de barco e, para quem quiser, explorar a Floresta Nacional do Tapajós, fazendo uma trilha, tomando banho de igarapé e conhecendo a realidade de uma comunidade ribeirinha. 

Diante da imensidão do Tapajós, às vezes é difícil acreditar que estamos num rio. Em alguns trechos, ele chega a ter impressionantes 18 quilômetros de largura. Em Alter, a praia que faz mais sucesso é a Ilha do Amor, localizada bem em frente à vila e seu cartão-postal. A travessia é feita em barquinhos a remo, leva cerca de cinco minutos e custa R$ 3. No mês de novembro as águas baixam ainda mais e é possível chegar lá a pé.
A Praia do Cajueiro também encanta os visitantes, e fica a dez minutos a pé do centro da vila. Nas duas há barracas que servem bolinho de piracuí (farinha feita de peixe seco socado no pilão), iscas de peixe e tucunaré na chapa.
Entre os passeios de barco, há o Lago Verde, que inclui passagem por igapós (áreas de floresta amazônica alagada); a praia de Ponta das Pedras, com formações rochosas; e a Ponta do Cururu, onde você verá um lindo pôr do sol e, com sorte, botos. Prepare-se para tomar um banho mesmo no barco, na ida ou na volta de Ponta das Pedras, dependendo da direção do vento.
Caminhada e banho de igarapé às margens do Rio Tapajós
Partindo de Alter do Chão, também vale a pena conhecer é a Floresta Nacional do Tapajós (Flona Tapajós), a uma hora e meia de voadeira (lancha veloz). O passeio inclui caminhada de três horas pela floresta, parando para apreciar árvores como Breu Branco, utilizada no preparo de remédios para sinusite, seringueiras e uma enorme sumaúma.
Apesar de ter um trecho de subida, a caminhada não é pesada, mas torna-se cansativa por causa do forte calor, principalmente na área de floresta secundária, que foi desmatada no passado, antes de o local ser transformado em Unidade de Conservação. Mas a vegetação é tão fechada nesse trecho que um leigo só percebe a diferença a sua volta por causa do aumento do calor e do solo arenoso. Depois da caminhada, a pedida é um bom banho de igarapé, com água bem mais gelada que a do Tapajós.
Um dos pontos de partida para a trilha é a comunidade de Jamaraquá, formada por 24 famílias que vivem da extração da borracha e do turismo. Mas, antes de fazer esse passeio, certifique-se de que o guia contratado tem autorização do Instituto Chico Mendes (ICMBio) para entrar na reserva florestal. O preço médio fica em torno de R$ 150 por pessoa para um grupo de três.
O verão amazônico vai de agosto a dezembro. A partir de novembro, o calor é muito intenso. A melhor época para visitar Alter do Chão é durante o mês de setembro, quando as águas do rio baixam, formando bancos de areia e praias, e a temperatura é amena. Mas é justamente nessa época que Alter vive seu período de altíssima temporada, com a realização do Sairé.
O Sairé, festa de cunho religioso e bastante importante para as comunidades da região, acontece na segunda quinzena de setembro. O evento é marcado pela procissão fluvial que dá início à programação e inclui shows de carimbó e uma disputa dos botos Tucuxi e Cor de Rosa, nos moldes dos bois de Parintins.
Mas o Sairé costuma superlotar a vila, expondo a frágil estrutura da região para comportar tantos visitantes de uma vez só. Por isso, quem quiser programar sua viagem para o mês de setembro deve fazê-lo com bastante antecedência, já que a oferta de quartos em pousadas e hotéis é limitada para o volume de visitantes que a localidade atrai nesse período.
Quatro dias são suficientes para explorar o lugar. Devido à proximidade de Santarém, principal cidade no oeste do Pará, a vila de Alter do Chão oferece infraestrutura razoável. Há bons hotéis e pousadas, mas não há muitos restaurantes. A especialidade são os pratos à base de peixe. Tucunaré, surubim, tambaqui e pirarucu são as grandes atrações, servidos na chapa, à escabeche, na manteiga ou na forma de moqueca.
Procure levar dinheiro em espécie, já que nenhum lugar aceita cartão e há somente um caixa eletrônico da Caixa Econômica, no mercadinho, e uma agência dos Correios que funciona como banco postal do Bradesco.
COMO CHEGAR
Alter do Chão: De Santarém saem ônibus diariamente, de hora em hora, para Alter do Chão. De táxi, a viagem é feita em menos de uma hora e custa cerca de R$ 80.
ONDE FICAR
Hotel Beloalter: Situado em uma praia particular do Lago Verde, cobra diárias a partir de R$ 184. Tel. (93) 3527-1230. beloalter.com.br
Hotel Mirante da Ilha: De frente para o rio Tapajós, o hotel fica ao lado da praia do Cajueiro. Diárias a partir de R$ 153. Rua Lauro Sodré 369. Tel. (93) 3527-1268. hotelmirantedailha.com.br
Pousada Vila da Praia: A um quarteirão da praia, a pousada oferece chalés com ar-condicionado a partir de R$ 100. Trav. Copacabana 145. Tel. (93) 8114.2694. viladapraiapousada.blogspot.com
PASSEIOS
Raimundo: É possível combinar de fazer os três passeios visitando as Ilhas do Amor e do Cajueiro, além do Lago Verde, todos de uma vez só, por um preço único em torno de R$ 70. Os passeios são tratados em uma barraca na Ilha do Amor ou pelo telefone (93) 9139-1680 (O Estado do Tapajós On Line, Santarém - PA, Brasil)
"NÃO desanimes... Frequentemente é a última chave do molho que abre a fechadura." Troty
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

BLOGUEIRO defende jogo extra para decidir campeonato


De Vitor Birner 

AS COMPETIÇÕES longas e de regularidade (por pontos corridos) não deveriam ser definidas pelo número de vitórias ou saldo de gols. 

Quando, após 38 rodadas, dois times terminam com o mesmo número de pontos, o mais justo é disputarem um jogo extra pelo título. 

O ideal seria marcá-lo em campo neutro. 

E se houvesse a necessidade de escolher a casa de um dos ‘finalistas’, deveria acontecer na de quem tiver melhor retrospecto nos dois jogos entre eles dentro da mesma competição.
Sem vantagem do empate para ninguém. 

Defendo essa tese faz tempo. 

Obviamente, quero a mudança da regra noutros campeonatos brasileiros.

O regulamento do atual deve ser cumprido sem questionamentos. (blog do Birner)

Pensando bem, não seria má ideia. Um jogo extra na casa de quem, entre os dois finalistas, tivesse melhor retrospecto nos dois jogos entre si. Caso houvesse empate em todos os critérios, o de melhor campanha (vitórias, saldo de gols, gols a favor etc) no geral teria a vantagem de decidir tudo em casa.

SEGUNDO turno para cidades com mais de 100 mil eleitores

Segundo turno para cidades com mais de 100 mil eleiores, prevê relator da reforma política


O RELATOR da Comissão Especial da Reforma Política, deputado Henrique Fontana (PT-RS), afirmou nesta quarta-feira (23) que acatou parcialmente cinco das 81 emendas oferecidas a seu parecer, apresentado dia 26 de outubro. Entre as novidades no texto, está o aumento do número de cidades que terão 2º turno nas eleições e a flexibilização da regra de domicílio eleitoral para candidatos a prefeito.

Fontana aceitou proposta do deputado Alfredo Kaefer (PSDB-PR) que prevê 2º turno nas cidades com mais de 100 mil eleitores – hoje só ocorre nos municípios com mais de 200 mil eleitores. O relator também incluiu a autorização para que um candidato possa concorrer a prefeito em uma cidade diferente da que possui domicílio eleitoral, desde que seja no mesmo estado.

O deputado afirmou ter acatado algumas das propostas da emenda substitutiva global apresentada pelo deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), inclusive o detalhamento do financiamento público exclusivo de campanha, eixo fundamental do seu relatório.

Também foram acolhidas as propostas de aumento de 10% para 20% do tempo de propaganda partidária gratuita dedicado à participação política feminina e de reserva de 10% para participação de jovens. Além disso, segundo o novo texto, os candidatos ficam proibidos de pagar as despesas dos convencionais de seu partido e os candidatos a vice devem participar, obrigatoriamente, da propaganda eleitoral gratuita.

Fontana aceitou ainda parte de emenda da deputada Luiza Erundina (PSB-SP) e incluiu no texto a possibilidade de os projetos de iniciativa popular terem coleta de assinatura pela internet. Por último, o relator reduziu a idade mínima para concorrer ao Senado, que passou de 35 para 30 anos. A proposta foi do deputado Luciano Castro (PR-RO).

Negociação
 
Fontana defendeu que haja negociação para que o relatório expresse a posição da maioria da comissão especial. “Tem de haver um esforço de todos porque o meu relatório não é o relatório que o PT gostaria de ter apresentado à Casa. É um relatório que busca abrir o caminho para compor uma maioria.”
Na reunião desta quarta, foi apresentado pedido de vista coletivo do parecer. O relator propôs que a comissão faça três reuniões semanais para discutir e votar os destaques ao texto, o que deve ocorrer após o intervalo de duas sessões do Plenário. Fontana espera que o relatório seja votado em até duas semanas. (O Estado do Tapajós On Line, Santarém, Brasil)

MORAR sozinho ou continuar com os pais?

Cristiane Sabadin

Os amigos Vadeir, Renato, Ana Carolina, Alan e Mateus, do Colégio Estadual Tancredo Neves, em Beltrão.



AINDA bem cedo, antes dos 20 anos de idade, os jovens precisam fazer uma escolha séria: decidir qual profissão seguir na fase adulta. É muita responsabilidade, afinal, é a carreira que ditará uma vida de sucesso. Com sonhos na cabeça, a maioria dos jovens do Ensino Médio já optou pelo curso. Mas essa não é a única escolha. Agora eles precisam optar por continuar morando com os pais ou se aventurar numa cidade maior para cursar a universidade. 

Quem fica na cidade natal, não experimenta certos desafios. Sair de casa para estudar tem seus pontos positivos. Os jovens aprendem, mesmo que na marra, a cuidar da própria vida, se tornam mais independentes. Antes quem cuidava da roupa suja era a mãe ou a empregada, agora é hora de se virar. Eles aprendem a cozinhar, deixam o ovo frito de lado: tudo pela sobrevivência. Mas tem a saudade da família e a tentação para festas. Se não tiver a cabeça no lugar, o jovem pode perder o rumo. 

O outro lado é mais cheio de regalias. Tornar-se um universitário na casa dos pais tem outro gosto. A comidinha na mesa, a roupa lavada, o apoio em todos os momentos são as partes positivas. O contraponto é: sem sair debaixo da saia dos pais, muitos jovens tendem a não crescer, demoram a assumir responsabilidades. Talvez este seja o único ponto negativo.

Eu fico em Beltrão ou me aventuro?

No Colégio Estadual Tancredo Neves, uma turma de alunos do terceirão prefere não sair de casa. Renato Oliveira de Lima, 17 anos, vai prestar vestibular para Direito. E não escolheu ficar na região apenas porque há o curso por aqui: “Não tem porque sair. Gosto muito dessa cidade”. Além disso, estudando em casa terá sempre o apoio dos pais. “Acho importante nessa fase, não gostaria de ficar longe”, afirmou o estudante.

O caso de Alan Batistelo, 18, é um pouco diferente. Ele escolheu o curso de Ciências Biológicas e pretende cursar na Unipar. Mas se pudesse faria outro. O problema é ter que sair da cidade. Para Alan, não seria viável. “Se tivesse condições de ir pra fora, faria outra escolha, com certeza.”

Mateus Bracilino, 17 anos, está na expectativa pelo resultado da Unisep. O vestibular aconteceu domingo, dia 20. Ele quer cursar Engenheira Civil e gosta da ideia de ficar na cidade. “Decidi seguir essa profissão porque meu pai é da área. Moro em Marmeleiro, na verdade, mas me criei em Beltrão, na Cidade Norte. Gosto muito de morar aqui, não abro mão disso somente para cursar uma universidade”, enfatizou.

Também na espera do resultado está Ana Carolina Casanova, 17. A estudante prestou vestibular para Engenharia de Produção na Unisep. Apesar de ser uma mudança pequena, acredita que vai transformar sua vida. “Sempre morei com meus pais no interior, na comunidade do Divisor. Agora vou morar aqui, em Beltrão. É uma mudança pra mim. Tenho grandes perspectivas.”
O aluno Valdeir Militz, 17, também escolheu Engenharia de Produção, mas optou pela Famper, em Ampere. “Pretendia fazer na Unisep, mas as condições financeiras não permitiram. Lá é mais barato e ainda posso, quem sabe, trabalhar em Beltrão durante o Ensino Superior.” O pai de Valdeir é cadeirante. Sem dúvida, essa condição o influenciou a ficar. “Meu pai precisa da minha ajuda”, ressaltou.

Faculdade é faculdade
Num país em que uma minoria tem acesso à universidade, esses jovens têm consciência de que são privilegiados. E acreditam que continuar os estudos morando com os pais ou fora, em grandes centros, não mude muita coisa. “Você é que faz sua formação”, declarou Alan. “Não interessa se vai cursar aqui ou em uma universidade melhor.”

De modo geral, essa turma de amigos do Tancredo Neves aposta que estudar perto da família é mais tranquilo. “Longe de casa a tentação pra fazer festas aumenta, e isso pode prejudicar. Já pensou eu morando sozinho?”, brincou Alan. 

Dos cinco, apenas Mateus sonha em trabalhar fora de Francisco Beltrão após a formatura. “Quero ser engenheiro da Petrobras, é meu sonho. Sei que terei que batalhar e ficar longe da família, mas vale a pena.” Já os demais confiam no desenvolvimento da região e apostam que o caminho é ser “bairrista”. “Beltrão está crescendo, vejo futuro aqui”, comentou Ana Carolina. “Lá fora tem muita concorrência, acho que ficando teremos mais chances”, acrescentou Valdeir. (Jornal de Beltrão, Francisco Beltrão - PR, Brasil)

E você, que é pai ou mãe, o que acha?

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A CHARGE do Tiago Recchia: sob controle

(Tiago Recchia, Curitiba, Brasil)

A SUBMISSÃO ao império personificada ao se tirar os sapatos

“Quem tirou os sapatos, de forma subalterna, não foi apenas o ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, mas, sobretudo, o governo entreguista e neoliberal de FHC”. Davis Sena Filho


A NOTÍCIA vergonhosa correu pelo Brasil em 31 de janeiro de 2002: “Ministro das Relações Exteriores Celso Lafer tira os sapatos no aeroporto de Miami”. 

Sempre quando tenho oportunidade cito este fato, este humilhante acontecimento para o Brasil e para o seu povo. O episódio é simbólico e retratou o Brasil colonizado, subserviente, dominado e sem esperança, porque autoridades descompromissadas com a grande Nação brasileira se submeteram aos ditames e aos interesses dos países considerados desenvolvidos, notadamente os EUA. Foi vergonhosa a conduta do senhor chanceler Celso Lafer, bem como demonstrou que quem tem complexo de vira-lata é uma parcela de nossa elite colonizada e atrasada, pois acostumada que é em receber ordens e migalhas de quem ela considera ser a Corte. 

domingo, 27 de novembro de 2011

UM AVIADOR brasileiro atrás das linhas inimigas (final)

…continuação da postagem anterior


AMANHECEU. Estremunhado com a noite mal-dormida, com forme, tomou seu rumo, que até aquele momento ignorava qual seria. Alcançou uma aldeia. Nela esperou, vagando quase todo o dia, e não foi “encontrado”. Achou os métodos ingleses bem falhos. Não eram tão bons assim. Se ele tivesse ao menos os endereços dos “homens”, ser “encontrado” seria muito mais fácil… 
O “abacaxi” era que “eles” não diziam e nem mesmo se conheciam.  

Ele tinha que esperar ser “encontrado”. Não o foi naquele dia, e nem muito menos no outro. Decididamente, ele tinha que resolver, por si, o problema. Deixou aquela estrada principal e derivou rumo à frente de combate, ao encontro dos Apeninos. Chegou à tardinha a uma pequena cidade que não conhecia e nem tinha tempo para ver qual seria nos seus mapas de fuga. Com o estômago muito vazio, deu diversas voltas pela cidadezinha, e nada conseguiu. Ninguém o achava. Estava ficando desanimado, e com muita vontade de desistir, mas, ao mesmo tempo, sem coragem bastante para tal. Seria submetido a um interrogatório tremendo por parte do serviço de inteligência alemão e, se falasse, muita gente seria envolvida. Seria um desastre completo. Sua fome aumentava muito. Já não sabia ao certo o que fazer. Nessa condição de quase desespero, avistou uma senhora num segundo andar de um daqueles sobrados altos, muito comuns na Itália. A senhora fazia tricô tranquilamente na sacada do sobrado. Nada indicava que ela o ajudaria.
A casa era “tecnicamente” muito “grã-fina” para partisanos. O Inglês frisara bem que era muito mais provável encontrar quem o ajudasse entre as pessoas mais simples, que, regra geral, constituía a maior parte dos partisanos ou da resistência. Mesmo que não o fossem, eram “fascistas” por necessidade, para se manterem nos seus empregos de acordo com a política da terra, e, muitas vezes, eram pessoas contrárias ao regime que vigorava na época. Pela “pinta”, aquela senhora nada tinha de partisan, muito pelo contrário, sua casa era das melhores da cidade, tudo indicando que era do outro “lado”. Mas a fome do gaúcho era maior do que a lógica e do que as razões do Inglês. O esfomeado olhou longamente para aquela senhora que, domesticamente, fazia o seu trabalho de agulhas. Talvez uma dor mais aguda no seu estômago vazio tenha feito com que decidisse pedir-lhe o que comer. Levantou a pesada bicicleta ao ombro e subiu os dois compridos lances de escada que o levariam ao segundo andar. A porta da moradia na qual pretendia bater já estava aberta, e nela a senhora, numa expectativa que ele não podia compreender, como que a sua espera. Desconfiado, no seu trôpego italiano um tanto brasileiro, parte “GI” (pouco instruído), e ainda conseguido com as primeiras “vassouradas” em Roma, dirigiu-se a ela com o mesmo refrão das vezes anteriores. Bem ou mal, ela conseguiu compreendê-lo, confessando-lhe mais tarde, que o italiano dele tinha sido o melhor que ouvira até então, da parte de “quem” a procurava. Ouviu toda a sua história cortesmente. Deu-lhe para comer o macarrão habitual e um colchão de palha que era tudo o podia oferecer, mas que era muito mais do que o gaúcho esperava. Disse-lhe a senhora que poderia ficar ali até o dia seguinte, e que à noite seu sobrinho chegaria do “trabalho”, não devendo se preocupar, mas não entrou em detalhes. Enfim, o Índio nada mais esperava do que comida e dormida, em segundo plano. Sentia-se capaz de passar mais outras noites ao relento frio do inverno. Sua “caveira”, mesmo não sendo do tipo muito recente, ainda satisfazia amplamente. No seu colchão de palha dormiu profundamente. Estava muito cansado para pensar, até mesmo para desconfiar daquela acolhida inesperada. 

Na manhã seguinte foi acordado pelos seus novos protetores: a senhora e seu sobrinho. O rapaz queria ouvir sua história mais outra vez. Repetiu toda a sua lenga-lenga, agora muito melhor ensaiada que a ele já parecia muito boa e que a sua lingual mal cicatrizada muito cooperava. O sobrinho da boa senhora que o acolhera não interrompeu a narração. Ofereceu-lhe até mesmo um cigarro, daqueles lambidos, com uma dose de fumo suficiente para matar um cavalo, mas que o jovem italiano tirava enormes tragadas sem esforço, com prazer, e que ele, o gaúcho, apesar de não ver um cigarro há muito, não conseguia aspirar nem um pouquinho. Fumou como lhe foi possível. Ao terminar a sua “conversa”, o seu novo amigo, polidamente, vagarosamente, para que melhor o entendesse, disse-lhe que esquecesse tudo aquilo. De agora em diante, não precisaria contar mais aquela história. Uma vez mais, aquelas excelentes botinas americanas o traíram, para sorte sua. Finalmente tinha sido encontrado. “Encontrado!” Mesmo sem o admitirem, aqueles dois italianos “o encontraram”. Ficou decidido que ele permaneceria com os dois até o dia seguinte, quando o levariam à casa de uns outros “primos”, que eram partisanos. Ali sempre o próximo é que era partisan

Na sua segunda e última noite na companhia daqueles “parentes” italianos, para encobrir e explicar a sua presença naquela casa, houve uma reunião a que compareceram os vizinhos para festejarem a chegada e a passagem do sobrinho que tivera a casa destruída por bombardeio em Ferrara, e que, em conseqüência ficara “mudo”. Comeu-se muita castanha assada e bebeu-se muito vinho tinto na festa em sua honra. Ficou bêbado, recolhendo-se ao seu colchão. Sua retirada foi desculpada e compreendida pelos presentes, que concordavam penalizados com o que lhe acontecera. Ao amanhecer, estava ainda azedo de tanto vinho, mas mesmo assim seguiram de bicicletas ao encontro dos “primos”, que eram partisans. Assim, o nosso colega foi entregue aos cuidados da organização que tanto ouvira falar, e que estava ficando descrente que existisse. O italiano deixou-o nas mãos daquela gente especializada, voltando ao seu ponto de atividade, onde sua tia voltara a fazer o tricô que, pela sua função, devia ter sido o mais comprido da guerra. A “organização”, como todos já devem ter compreendido, compunha-se de pessoal altamente especializado, que conversava  estritamente o essencial e fazia muitas perguntas, e, para segurança de seu trabalho, não devia cometer enganos. Tomaram todas as informações necessárias, confirmaram as datas, ouviram toda a história, desde a sua queda, quiseram saber os mínimos detalhes, o que contrariava muito o nosso herói, que na ânsia de atravessar a linha de combate julgava os “homens” exageradamente “enrolados”. Já lhes mostrara a sua chapa de identificação que consigo conservara, já lhes dissera quem era, de onde viera, o que voara, qual o objetivo naquela manhã em que fora abatido, enfim tudo o que realmente acontecera. Ingenuamente, sem avaliar o que conseguira realizar, não podia entender o porquê de tantas perguntas e confirmações. Para ele a sua aventura tinha sido perfeitamente realizável, mas os homens da “organização” estavam meio descrentes, naturalmente por ele ter contrariado basicamente, nos mínimos detalhes, tudo que a boa técnica aconselhava em matéria de fuga. 

Os seus interrogadores estavam admirados com os processos utilizados pelo gaúcho. Para os ingleses, nada daquilo poderia ter acontecido. O “manual” dizia justamente o contrário… 
Após muitas consultas e investigações pelos “canais” competentes, que não sabemos quais poderiam ser, o gaúcho foi dado como “legítimo”, dissipando-se as dúvidas. Nessa mesma noite foi transportado para outra estação de espera, bem mais avançada para o front, onde outros em igual situação já o aguardavam. Havia americanos, ingleses, italianos e agora um brasileiro. O único que a organização conhecera até então. Eram oito ao todo. Aguardavam refazerem-se fisicamente para a próxima mudança de estação, que seria gradativamente mais avançada. 

Em deslocamentos sucessivos, feitos à noite, moveram-se para a última estação, na fralda da cordilheira. Por alguns dias, aí permaneceram esperando uma ocasião propícia, que ignoravam qual seria. Eles nunca lhes diziam coisa alguma, para fins de segurança. A ocasião esperada, propícia, chegou numa noite de violenta nevasca e frio cortante. Era a neve que aqueles homens incompreensíveis esperavam. Os guias italianos chegaram, formaram o grupo, misturando-os com algumas famílias italianas, que, tudo indicava, se prestavam àquelas aventuras em troca de remuneração, não sendo a primeira vez que o faziam, pois não demonstravam preocupação alguma. 

Com duas pílulas contra cansaço – em outras palavras, “dopados” – iniciaram a caminhada sem paradas. Em ritmo contínuo, galgaram os Apeninos por trilhas de cabras, íngremes, sempre em fila indiana. As quedas e escorregões eram freqüentes, mas não poderiam parar. Assim, no rigor de uma nevasca intensa, quando as sentinelas, premidas pelo frio, relaxaram a vigilância, conseguiram cruzar aqueles picos escorregadios, gastando 14 horas de caminhada sem descanso. Ao romper do dia seguinte, seus esforços foram coroados de êxito. Na mesma manhã, descansavam na frente aliada, entregues ao serviço de inteligência inglês, agora em uniforme. Foram separados, então. Não mais encontrou os americanos, nem os ingleses que, com ele, atravessaram as montanhas. Descansado, lavado, barbeado, bem alimentado, foi interrogado longamente pelos oficiais ingleses, que anotaram todas as informações fornecidas pelo nosso herói, posteriormente consideradas como as mais completas trazidas por um fugitivo naquela frente. Quanto à sua história, foi ouvida com muito interesse por ser ímpar naquele departamento, mas nunca poderia ser utilizada, para fins de ensinamentos futuros por outros, por constituir uma quebra geral, quase absurda, de tudo aquilo que eles ministravam, baseados em estudos e estatística. 

Acabado o longo interrogatório, o gaúcho, muito aborrecido com os dois dias que passara em companhia dos interrogadores ingleses, foi devolvido ao nosso convívio em Pisa, numa tarde fria, como qualquer outra naquele hotel esburacado em que vivíamos. Celebrou-se a sua volta, esvaziando-se o que restava de nossas rações de uísque, logo substituídas pelo horrível conhaque italiano, que fez o mesmo efeito. Em meio a forte “ressaca”, encerrou-se o capítulo mais heróico do 1º Grupo de Caça, realizado por aquele gaúcho simples, que, sem pretensões, tornou-se merecedor de toda a admiração dos comandantes aliados que o conheceram, de seus colegas e de seus poetas e fazedores de anedotas: o Tenente Danilo Marques Moura!



COMENTÁRIO deste blogueiro: 


E ESTE é um de nossos muitos heróis, um herói brasileiro, sem o glamour dos heróis dos filmes americanos. Herói anônimo, um dos muitos heróis esquecidos nas páginas do tempo de nossa história do Brasil. Uma história que poucos brasileiros conhecem.

Claro, se fosse norte-americano, isto daria um belo filme, sucesso de bilheteria. Nós, brasileiros, precisamos valorizar mais a nossa gente, as nossas coisas, a nossa história. 

(Extraído da Revista Força Aérea, ano 8, edição nº 30 – mar/abr/maio 2003, páginas 52/59. O Autor do texto é Armando de Souza Coelho, que atuou no Teatro de Operações da Itália durante a segunda Guerra Mundial, como 2º Tenente-aviador da Reserva Convocada e foi membro da Esquadrilha Vermelha, com a qual realizou 62 missões de combate).

Armando. Quem escreve a Saga de DANILO



(blog Capitão Valentim, Dois Vizinhos, PR)

ADAM, o cão paraquedista


ELE É paraquedista do Exército e tem a cor marrom nos pés. Nesta semana (18nov.), na Base Aérea do Afonsos (BAAF), ele embarcou em um avião C-105 Amazonas do Esquadrão Arara (1/9 Gav). Adam é paraquedista, mas é um cão de oito anos, da raça Rottweiler. Integrante do 36º Pelotão de Polícia do Exército, ele saltou acompanhado por militares do Exército, na Zona de Lançamento de Itaguaí, neste último dia da Operação Saci. Há mais de 10 anos, a Força Aérea e o Exército não realizavam uma missão envolvendo lançamento de animais. 

sábado, 26 de novembro de 2011

A EMOÇÃO do futebol no rádio!

O relógio marca!


Luiz Guilherme Piva*

O FUTEBOL no rádio é outro jogo. Muito melhor do que na TV. Melhor do que no estádio.

No rádio seu time tenta o gol sem descanso. A bola passa mais perto da trave. O goleiro adversário é o melhor do jogo.

Os jogadores se movem sem parar em ataques e contra-ataques sucessivos.

O futebol no rádio é o jogo ideal, desvendado em sua forma suprema a partir do esboço do narrador.

Como se diz nas boléias, nos táxis, nas guaritas e nas construções: é a ontologia do futebol – o futebol como a verdade essencial e imutável do platonismo, que os olhos, na TV ou no estádio, só vêem com as imperfeições cognitivas de sombras na caverna.

Ou, como dizem os filósofos: com essa chiadeira eu não escuto porcaria nenhuma!

Só o gol. Todo mundo escuta o gol feito no rádio.

O do adversário, humilhante, como num mergulho infindável que déssemos no oco do abismo.

Ou o do nosso time, consagrador, como se a glória, a fama e a fortuna jorrassem somente na nossa Canaã particular.

E não é preciso ouvir o rádio para escutar o gol.

No meio do domingo, quando a vida cessa, a criação se desfaz e o universo inexiste, vem no espaço a vogal redonda, esticada, quilha rasgando o silêncio.

Então, seja onde estivermos, nos alcança o grito de gol vindo de algum rádio que segue em órbita.

Para nossa glória ou nossa humilhação.

*Luiz Guilherme Piva é ouvinte.
(blog do Juca Kfouri)

A CHARGE do Tiago Recchia: fidelidade

(Tiago Recchia, Gazeta do Povo, Curitiba, Brasil)

MARLETH Silva: muito homem para pouca mulher

PARA os meninos que nascerem nos próximos anos na China, Índia, Vietnã, Azerbaijão, Geórgia, Sérvia, Bósnia e Armênia não será fácil arranjar namorada e muito menos casar. A culpa é dos pais deles que estão fazendo uma coisa espantosa: o aborto seletivo.
Arte: Felipe Lima
O ano não acabou, mas os 11 meses que se passaram já me deram três notícias sobre as quais acho que deveríamos pensar um pouco. Não são as mais importantes, nem as mais comentadas, mas indicam por onde anda a humanidade.

Hoje vou falar da primeira delas, que poderia bem entrar na lista de provas da insanidade humana. Vamos aos fatos: demógrafos constatam que haverá, em breve, excesso de homens em vários países. China, Índia, Vietnã, Azerbaijão, Geórgia, Sérvia, Bós­­nia e Armênia passam por uma “masculinização alarmante”, expressão usada pelo demógrafo francês Christophe Guilmoto. Para os meninos que nascerem nos próximos anos naqueles países não será fácil arranjar namorada e muito menos casar. A culpa é dos pais deles que estão fazendo uma coisa espantosa: o aborto seletivo. 

Estamos falando de países em que o filho homem é valorizado e as mulheres são vistas como estorvo (apesar de também trabalharem). Por isso os casais fazem ultrassonografias para descobrir o sexo do bebê e, se for uma menina, alguns optam pela interrupção da gravidez. Na China, para piorar, tem o infanticídio. As bebezinhas são mortas assim que nascem. 

É claro que aquilo que a natureza faz com perfeição, que é manter o número de nascimento de meninos e meninas em equilíbrio (nascem entre 103 e 106 meninos para cada 100 meninas) vai para a cucuia. Este equilíbrio é tão antigo e universal que é quase uma lei natural. Você já pensou como esse equilíbrio espontâneo é maravilhoso? 

O primeiro que chamou a atenção para este assunto foi o economista indiano e ganhador do Nobel Amartya Sen, que há 11 anos publicou artigo com um título bombástico: “Mais de cem milhões de mulheres desapareceram”. Se fosse hoje, ele teria que falar em 160 milhões de “desaparecidas”. Recentemente, a revista inglesa The Economist se referiu à “guerra mundial contra meninas”. 

A China, que por seu gigantismo e força chama mais atenção, reconhece o problema. No ano passado, a Academia Chinesa de Ciências Sociais fez um relatório que mostra que daqui a meros oito anos um em cada cinco jovens chineses não poderá se casar por falta de noivas. A relação chinesa é de 120 meninos para cada 100 meninas e o Estado já oferece incentivos para os casais que não se livram de suas garotinhas. O “excedente” de homens solteiros chineses será equivalente ao total de todos os homens jovens (casados e solteiros) que vivem nos Estados Unidos. Um verdadeiro exército de sem-mulheres. 

E daí? 

Daí que além de podermos lamentar as dificuldades sentimentais que esses homens orientais enfrentarão, ninguém sabe ao certo como será a vida nessas nações movidas a testosterona, já que o mundo nunca viu nada parecido. 

Gosto particularmente da definição sutil (ou seria maliciosa?) da jornalista da revista Science Mara Hvistendahl, autora do livro Seleção Não Natural: “Histori­­camente, as sociedades onde o número de homens superou ao de mulheres não são agradáveis para viver”, escreveu a moça, evocando os riscos de instabilidade social e, inclusive, de violência. 

Sairão os homens asiáticos roubando mulheres dos vizinhos, como os romanos fizeram com os sabinos, e iniciando guerras? 

Pode ser que essas previsões sejam exageradas. Deixa pra lá. 

O que importa é que as notícias sobre o desaparecimento das mulheres chamam a nossa atenção para essa violência absurda que é eliminação dos bebês do sexo feminino. Mais uma vez, o ser humano age como se pudesse tudo, não aceita se sujeitar à ordem da natureza e sai fazendo o que lhe parece melhor naquele contexto em que vive no momento. No caso, o contexto de um casal preocupado com o bem-estar de sua família e com seu futuro – o que é totalmente compreensível. 

Mas essa preocupação ultrapassa as fronteiras da racionalidade. O nascimento de uma menina passa a ser visto como uma desgraça, quando é algo natural e necessário.  
Conformam-se com tradições absurdas e com uma estrutura econômica viciada, mas não aceitam que fazemos parte de um sistema ecológico perfeito, que não pode ser ignorado.
Em resumo: a falta de homens daria ótimas piadas, se não fosse mais uma patetada sem tamanho do ser humano. 

As outras duas notícias eu comento na próxima semana. Que você, leitor, deve ter mais o que fazer agora. (Marleth Silva, Gazeta do Povo, Curitiba, Brasil)


"A altura das suas realizações será igual à profundidade das suas convicções." William F. Scolavino

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

PAULO Sant'Ana: quiabo e paio

EU NÃO acredito que adquirimos o gosto por alimentos pelo hábito em ingeri-los. Se fosse assim, durante a minha infância rolava em minha casa o rabanete e eu não posso me aproximar sequer dessa raiz. É bem verdade isso: quando em uma salada normal há rabanete, não como nenhuma verdura ou legume que tenham sido tocados pelo rabanete. Na minha ojeriza, o cheiro do rabanete empesta as outras verduras, se há rabanete na salada eu não como nada da salada.

No entanto, fico espantado quando vejo algumas pessoas comerem salada de rabanete. Só rabanete. Não posso entender tal preferência. Nem com bastante vinagre, azeite e sal o rabanete deixa de me causar engulho. O mesmo se dá comigo com o nabo. Que gosto tem o nabo, como é que alguém pode encontrar sabor no nabo? Eu sei que é possível até que uma pessoa humana goste de capim, mas o capim tem lá sua semelhança com o radite. Então, quem gosta de radite devia também gostar de grama. Espanta-me que haja salada de radite e não haja salada de capim. Por mim, que gosto de galeto, se a galeteria faz acompanhar o galeto de salada de radite, não entro no estabelecimento.

Voltando ao nabo, noto pessoas interessadas em salada de nabos e até outras em sopa de nabos. Sopa de nabos para mim é como se fosse sopa de pedras, não engulo nem o caldo.
E por aí se vão os alimentos a que meu gosto é inteiramente refratário. Há uma palavra, que quando ouço falar em alguma casa ou restaurante, sinto uma espécie de terror: miúdos. Não entendo como uma pessoa possa ter entusiasmo quando topa na canja com moela de galinha. O que é aquilo? Bem, mas depois que conheci duas pessoas que não passam semana sem comer testículos de boi, fico achando mesmo que há indivíduos que têm parentesco com os urubus.

Aliás, há certas preferências culinárias que têm uma ligação promíscua com o escatológico, não são só os testículos de boi e as sambiqueiras das aves. O próprio escargot nos remete imediatamente para a visão repelente da lesma, no entanto ele faz parte dos mais sofisticados cardápios. Tem gente, por exemplo, que gosta de carne de lagarto e de cobra. Não vamos longe, mas carne de gato, de cachorro e de cavalo são preferidas por algumas comunidades, havendo até em situações extremas de penúria pessoas que se alimentam de carne de rato.

Desculpem os leitores se arrolei acima alguns vegetais e tipos de carnes animais que sejam da sua preferência. É uma visão pessoalíssima minha, sou eu que não gosto desses alimentos, respeito os que gostam. E tenho consciência de que não gosto de muitos daqueles alimentos por déficit cultural meu, alguns até por preconceito. Tanto que não sei o que é quiabo nem o que é paio mas tenho horror aos dois. (blog do Paulo Sant'Ana, Porto Alegre, Brasil)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O TALENTO de J. Bosco: Edgar Allan Poe


(blog J. Bosco Caricaturas, Belém, Brasil)

DIRETO da Espanha: um reencontro!


(blog Impresiones, Espanha)

DIRETO da Espanha: igreja sueca usa música eletrônica para atrair jovens

DJ de Cristo!
UMA igreja sueca transformou-se em um templo de música eletrônica para aproximar os jovens à religião. Em lugar de sermões chatos e longos silêncios, a congregação da Igreja de Todos os Santos de Estocolmo, Suécia, promoveu algo que mais parecia uma festa eletrônica do que uma missa tradicional. Foram instaladas luzes especiais, potentes altofalantes e sons tecno para transformar o templo em um clube de dança com a intenção de atrair os jovens para a religião.

"A convocação foi um sucesso", disseram os sacerdotes, que contabilizaram mais de 400 participantes da festa.

Mais detalhes no blog Impresiones, Espanha.

"A perseverança não é uma longa corrida; ela é muitas corridas curtas, uma depois da outra." Charles W. Elliot

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SÓ MAIS cinco minutos!




NO PARQUE, uma mulher sentou-se ao lado de um homem. Ela disse:  Aquele ali é meu filho, o de suéter vermelho deslizando no escorregador.  Um bonito garoto  respondeu o homem – e completou:
 Aquela de vestido branco, pedalando a bicicleta, é minha filha.  Então, olhando o relógio, o homem chamou a sua filha. Melissa, o que você acha de irmos?  Mais cinco minutos, pai. Por favor. Só mais cinco minutos!

O homem concordou e Melissa continuou pedalando sua bicicleta, para alegria de seu coração.
Os minutos se passaram, o pai levantou-se e novamente chamou sua filha:  Hora de irmos, agora?
Mas, outra vez Melissa pediu:
 Mais cinco minutos, pai. Só mais cinco minutos!
O homem sorriu e disse:
 Está certo!  O senhor é certamente um pai muito paciente.  comentou a mulher ao seu lado.
O homem sorriu e disse:
 O irmão mais velho de Melissa foi morto no ano passado por um motorista bêbado, quando montava sua bicicleta perto daqui. Eu nunca passei muito tempo com meu filho e agora eu daria qualquer coisa por apenas mais cinco minutos com ele. Eu me prometi não cometer o mesmo erro com Melissa. Ela acha que tem mais cinco minutos para andar de bicicleta. Na verdade, eu é que tenho mais cinco minutos para vê-la brincar... 


Em tudo na vida estabelecemos prioridades. Quais são as suas?  Lembre-se: nem tudo o que é importante é prioritário, e nem tudo o que é necessário é indispensável!  Dê, hoje, a alguém que você ama mais cinco minutos de seu tempo. 

Eu parei cinco minutos para postar esta mensagem para você.

"Aquele que procura um amigo sem defeitos termina sem amigos."  (colaboração do amigo Carlos Arquimedes, via e-mail) 


Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

A PERERECA da Vizinha: indícios de fraude no pregão da Segup - PA


Viaturas da Delta para a PM: contrato de R$ 14 mi e indícios de fraude (foto: Agência Pará)

HÁ FORTES indícios de que pelo menos três das empresas que participaram do Pregão Eletrônico 003/2011 da Secretaria de Segurança Pública do Pará pertencem ao mesmíssimo grupo econômico: a Norauto Rent a Car Ltda, uma gigante do mercado de locação de veículos, a AP Rent a Car e a R da Costa Teixeira Serviços.
 
Do Pregão Eletrônico também participou a Delta Construções S/A, que ganhou um contrato superior a R$ 14 milhões para o aluguel de veículos à Polícia Militar do Estado.

Em agosto do ano passado, um dos diretores da Delta, Aluízio Alves de Souza, foi preso pela Polícia Federal em Belém por suspeita de envolvimento em fraudes em licitações, num esquema que envolveria corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, entre outros crimes, em obras rodoviárias no estado do Ceará.

DURMA-SE com um barulho desses! (24nov.2011)

Fotogênico, não?!
(blog Cosas Varias, Argentina)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

OBRIGADO a todos

UTILIZO-ME deste espaço para agradecer a todos quantos se manifestaram para parabenizar este humilde blogueiro pelo transcurso de seu 51º novembro.

Vários amigos utilizaram-se das redes sociais (Orkut, Facebook, e-mail e telefone) lembrando a data. Vou mencionar alguns deles:
Géo Araújo, Liza Schr, Flávia Karla, Jane Sena, J. Bosco, Sonia Zaghetto, Márcio da Silva, Êmerson Fonseca, Bruno Melo, Antonio Biasus, Fátima Pinto,  Maria Ferreira (minha mãe), Jorge Adriano Galvão, Sidney da Micro Center, Erotilde Carvalho, Francelina Catete, Iliane Visoski, Aurora Novelo, Lorenzo Moreira, Aline Moreira, Fernanda Moreira e tantos outros.

Agradeço de coração a todos de coração pela lembrança.

LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo! 

UM AVIADOR brasileiro atrás das linhas inimigas (5ª parte)

…continuação da postagem anterior.

Danilo e um dos italianos que tanto o ajudaram

… Ainda não tinha achado um meio de atravessar o Pó. Conta ele, muito ingenuamente, que teve o seguinte raciocínio, que mais parece anedota, mas que é fato. Resolveu seguir aquela margem do rio, sempre pelo lado norte e sempre para oeste, rumo à nascente do rio, onde naturalmente ele seria muito mais estreito, e então atravessá-lo seria facílimo. Talvez com um pulinho… E o Pó nascia quase na França… Para ele isso tudo eram “pequenos detalhes técnicos”… Com este propósito, foi caminhando para a “nascente”… Caminhou um bom pedaço naquela direção. Os seus joelhos doíam. A distância começou a parecer maior. Sentiu-se cansado e a “nascente” não aparecia… O dia terminava. O almoço não tinha sido grande coisa, o estômago reclamava, o frio parecia aumentar. No dia seguinte começaria mais cedo. Havia uma aldeia próxima, e ele seguiu naquela direção. Na terceira casa à beira da estrada, estava um italiano, igual a milhares de outros, rachando lenha. Achava a sua lenha e ato contínuo empilhava-a ao seu lado. O Índio, cansadíssimo, caminhara todo o dia, com a moral abatida, desanimado, sentou-se ao lado do monte de lenha rachada, a observar o italiano por longo tempo. O machado subia e descia compassadamente e os pedaços de lenha iam sendo jogados para a pilha ao lado. Aquele mister doméstico fê-lo recordar os seus, lá no Rio Grande do Sul, que cada vez mais tinha dúvida se iria revê-los, mas que ao mesmo tempo davam-lhe forças para lutar contra aqueles obstáculos. Além disso, o dia do pagamento aproximava-se… Tinha de chegar a tempo.


Os minutos se passaram. Nenhum dos dois disse uma palavra. O machado subia e descia sobre a lenha e as achas aumentavam o monte. Por fim, o italiano perguntou-lhe o que queria. Entrou com a velha história de bombardeado, arruinado etc. e terminou pedindo-lhe um copo d’água, comida e pousada. O lenhador ouviu tudo com a máxima atenção, deu-lhe vinho, comida e água e agasalhou-o em sua casa. O nosso homem procurava responder o menos possível e o “paisá” não insistia cordatamente. À noite brilharam as estrelas no belo céu de uma noite de inverno italiano, e com muito mais intensidade brilhou a grande estrela do nosso rio-grandense, na pessoa daquele camponês acolhedor. Chamando-o, o italiano disse-lhe simplesmente que acreditaria na sua história, se não fossem as suas botinas… O gaúcho sentiu-se perdido: fora descoberto! Breve seria entregue aos alemães, foi o que pensou naquele instante desanimador. O italiano então desfez-lhe as dúvidas. Estava em boas mãos. Nada tinha a temer. Abriu o jogo – disse o gaúcho. Naquele homem ignorado, com sua função de pedreiro de aldeia pobre, residia mais um dos muitos heróis anônimos daquela guerra.

Contou-lhe então o Índio toda a sua história desde a sua queda. O pedreiro tranqüilizou-o, dizendo-lhe que fosse dormir. Pela primeira vez, em muitos dias, teve uma cama com lençóis e colchão macio e reconfortador. Na manhã seguinte tratariam do seu caso.

Acordou já bastante tarde naquela manhã. O corpo doído e cansado bem que merecia um “abuso” daquela cama confortável, depois de tantos dias dormindo na palha fria das cocheiras. A cama era até melhor do que as que usava em Pisa. Ainda “cansado” de dormir bem, levantou-se desacostumado e tonto. Desceu, encontrando-se pela primeira vez com a família do italiano, que não o vira chegar. Nada lhe disseram, parecendo que a sua presença ali era a coisa mais natural do mundo. Fora promovido a fratello que chegara do norte. O seu protetor saíra para o trabalho cedo. Deram-lhe de comer e não permitiram que os ajudasse em coisa alguma. À noite o italiano voltou do trabalho, dizendo-lhe que estava cuidando do seu problema, que tivesse paciência que tudo sairia bem. Andara sondando a melhor maneira de conseguir a sua travessia, confiando-lhe ainda, à guisa de consolo, que não era a primeira vez que fazia aquela “mágica”. Naquela casa já haviam estado outros em situações idênticas à sua. Mesmo muito depois de acabada a guerra, o gaúcho não conseguira compreender bem o italiano. O camponês nunca deixou transparecer se fazia aquilo por parte de alguma organização especializada, ou se fazia tudo por simples altruísmo. O homenzinho não parecia de modo algum agente na retaguarda alemã, dada a sua simplicidade natural de agir, lutando com todas as dificuldades comuns aos italianos, vivendo do produto de sua horta no campo de sua casa, comendo o macarrão que sua mulher fazia com a escassa farinha que conseguia. Ou o homem era um agente, um perfeito artista na sua perigosa missão, ou então um abnegado samaritano que enfrentava o risco com toda a família com uma coragem indescritível. Em resumo, de maneira ou de outra, o pedreiro era um homem de grande valor na sua existência heróica e ignorada.

O nosso colega ficou com este herói durante uma semana, recuperando-se para enfrentar o resto da jornada. Finalmente foi informado de que atravessaria o rio naquela tarde, na hora em que os trabalhadores que voltavam às suas casas na outra margem do Pó costumavam fazer a travessia. Era a ocasião mais propícia. Vestiu a sua roupa velha, muniu-se de uma nova broa debaixo do braço, despediu-se de todos e foi com o italiano até o ponto de embarque. O italiano dera-lhe uma bicicleta velha e enferrujada, que necessitava urgentemente de lubrificação. Uma máquina bem antiga. Chegaram à prancha de embarque e sem dificuldade tomaram lugar na balsa. O pessoal da fiscalização já estava industriado pelo italiano. Com umas garrafas de grappa ou conhaque tudo se conseguia daqueles alemães já cansados de tanta guerra. Por precaução, durante a travessia, o italiano fez com que as botinas do nosso patrício ficassem escondidas debaixo da bicicleta e do seu casaco, para não despertar a atenção dos outros italianos. Em pouco tempo estavam na outra margem. Caminharam juntos até o primeiro povoado. Ali tiveram que se separar e cada qual seguiria o seu caminho. O incompreensível italiano fizera o que estivera ao seu alcance, ou quem sabe cumprira a sua missão, e eu não ficaria admirado se algum dia viesse a saber que aquele rústico pedreiro era um coronel ou outra patente qualquer do serviço secreto. Nunca chegamos a saber ao certo. Deixou o gaúcho. Ele nada mais poderia fazer.

Dali em diante o nosso patrício estava entregue novamente à sua sorte, que não era pequena. Estava só outra vez. Montou na bicicleta e começou a pedalar na estrada principal para Ferrara. O rio ficou para trás. Menos um obstáculo. Pedalou algumas horas, e em breve seus músculos se ressentiram com o exercício, entrando em “pane” novamente. Parou para descansar à beira da estrada. Sentindo-se melhor, voltou ao caminho. Pedalando e empurrando a velha máquina foi em direção a Ferrara. Estava bem mais próximo do front e o movimento de soldados-sentinelas alemães era bem mais intenso. Dispôs-se a redobrar o seu esforço, descansando o mínimo possível. Cada quilômetro que andava custava-lhe enorme sacrifício e sustos maiores. A cada momento esperava ser descoberto, mas conservando a sua velha maneira de pensar, ia descendo para o sul enquanto não o prendiam. Se o prendessem e nada acontecesse, provavelmente seria transportado para um campo de concentração muito ao norte, e a priori já pensava em escapar, mas a possibilidade de ser preso o desgostava profundamente, porque teria de voltar a fazer o mesmo “passeio”. Ora, um homem com este espírito merecia o êxito que obteve. Foi caminhando com sua bicicleta, e contra todas as expectativas, que conseguiu novamente atravessar uma cidade, Ferrara, quartel-general alemão, sem que nada lhe acontecesse. Uma vez achou-se na estrada principal rumo a Bolonha, que na época ainda se encontrava relativamente afastada do front, porém não muito longe. Bolonha era a última cidade importante e grande do seu itinerário de fuga.

Começava a perder as esperanças de encontrar os “homens” da organização de fuga que o Inglês mencionava nas aulas. Até então, tudo o que conseguira fora com o seu próprio esforço excepcional. Adotando os mesmos processos truncados que usara desde a sua queda, alcançou aquela cidade. Mas nada de ser encontrado, quer pelos alemães, quer pelos tais da “organização”. Vagou pela cidade uns dias e, nada conseguindo, resolveu que ali nada arranjaria, e que o melhor seria seguir o seu caminho. Deixou Bolonha, então. Não era mais possível continuar andando para a frente de combate, pois as estradas eram intensamente vigiadas e havia fiscalização constante de documentos das pessoas que transitavam nas proximidades. Sua única alternativa, então, era derivar para Oeste. Foi o que fez. Com sua bicicleta, tomou aquela direção. Na estrada, cansado, ia pedalando a pesada máquina quando por ele passou uma carroça muito bem tirada por dois animais. Recordando dos seus tempos de garoto, e, também porque o cansaço era grande, conseguiu, pedalando com mais vigor, alcançar a carroça e deixar-se rebocar, a ela agarrado pelo braço esquerdo. A coisa assim era muito mais fácil e a bicicleta já não era tão pesada. O dono da viatura não se opôs, absolutamente, à sua presença de “carona”. Tudo ia às mil maravilhas, e se continuasse assim alcançaria o dia de pagamento que já estava próximo. Ao trote dos cavalos, aconteceu de a carroça ultrapassar um soldado alemão, que também de bicicleta seguia para a mesma direção. O soldado, ao ver o Gaúcho pendurado do lado oposto da carroça, achou que a idéia não era má. Pisou com mais força a sua máquina, alcançou-os, e também tomou a sua “carona” do outro lado. O alemão, do lado direito, e o brasileiro, do esquerdo. Não trocaram nenhuma palavra e continuaram agarrados ao reboque por muito tempo. O nosso homem admite não ter gostado muito da companhia inesperada, e ter ficado um pouco sobressaltado com o fuzil que o soldado usava à bandoleira. A companhia era desagradável, mas nada podia fazer. Não se dando por achado, não largou do reboque. Já se conformara com a presença indesejável do novo “carona”, e de vez em quando arriscava olhar para ele. Numa dessas vezes, na última, viu uma coisa que constituiu razão essencial para que deixasse imediatamente de gozar as vantagens do reboque. A manga do seu casaco subira com a posição do seu braço que agarrava a carroça, deixando a descoberto o seu relógio, que, pela primeira vez notava que o conservava no pulso. Sentiu-se gelado. Se o alemão o visse, estaria perdido. Também não poderia abandonar de repente o seu lugar no meio de uma estrada em campo aberto. A sua sorte era mesmo muito grande. Naquele impasse, eis que surge um cruzamento providencial. Seria ali que abandonaria a carroça.


Placa em homenagem a seu irmão Nero Moura na BASC

Chegados ao cruzamento, largou do reboque dobrando à sua direita, da maneira mais natural possível, como se ali fosse realmente o lugar a que se destinava. Ousadamente ainda se deu ao “exagero” de gritar um “grazzie” ao carroceiro que lhe respondeu com um “prego” (não há de quê). Por algum tempo pedalou pela estrada secundária, que desconhecia, e quando achou que era suficiente, e fora de vista da carroça, voltou à estrada anterior, que era a principal, sua velha conhecida dos ares.

Naquela noite dormiu ao relento, não conseguindo alimento algum, porque a noite o alcançou no descampado. Não conseguira chegar a nenhum povoado nem casa de campo. Mesmo que tivesse conseguido encontrar alguma casa isolada por aquelas paragens, confessa que não se sentia muito animado a cruzar aqueles campos que, por estarem próximos à frente de combate, poderiam já estar minados. Ficou mesmo à margem da estrada, onde pretendia dormir sossegado. Tudo ilusão. Aproveitando o escuro da noite, os alemães enchiam a estrada com suas viaturas em comboios barulhentos, que, com as luzes apagadas, movimentavam-se vagarosamente. Pela primeira vez, o gaúcho testemunhou o valor da camuflagem dos inimigos. Assim que a luz do dia começava a apontar, todos aqueles caminhões desapareciam como que por encanto, nas cocheiras das fazendas ou debaixo de redes de camuflagem muito bem dispostas. Rezou para que aparecesse um “Beaufort” inglês para fazer uma “faxina” naquela estrada. Nada aconteceu, e passou a noite sobressaltado com o movimento dos barulhentos caminhões “diesel” alemães. (Capitão Valentim, Dois Vizinhos - PR, Brasil)
Continua… 

‘SEMPRE há um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura.’ F. Nietzshe


LOUVADO seja Nosso Senhor Jesus Cristo!