segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

MARLETH Silva: o primeiro gole de cerveja e outros prazeres misteriosos

Precisamos de um pouco de leveza, de bem estar, de momentos de alegria, mínimos que sejam. Como pegar uma sequência de sinais verdes quando se está com pressa


ANOS atrás ouvi falar de um livro francês chamado O Primeiro Gole de Cerveja e Outros Prazeres Mínimos. Grande título. Até para mim que não consigo tomar um copo inteiro de cerveja, o primeiro gole é uma delícia. É um grande pequeno prazer. Mais tarde tive a oportunidade de folhear o livro e li o início de alguns capítulos. Achei totalmente desinteressante, inclusive aquele que falava sobre o delicioso primeiro gole de cerveja. Foi uma decepção e não o comprei. Mas, pensando bem, era compreensível que o autor (cujo nome é Phillipe Delerm) não tivesse muito que falar sobre um gole de cerveja.

Agora foi lançado no Brasil O Livro do Sensacional, que traz verbetes publicados originalmente em um blog chamado Mil Coisas Sensacionais. E aí, lendo sobre este homem que se tornou um best-seller no Canadá e nos Estados Unidos ao relacionar experiências agradáveis ainda que pequenas, como “o cheiro de terra molhada pela chuva”, entendi como funciona esse jogo das boas lembranças, que ficam chatas se forem explicadas. A história dele é autoexplicativa.

O canadense Neil Pasricha estava passando por um período muito difícil. A esposa havia ido embora com outro e o melhor amigo tinha se suicidado. Era muita desgraça e Neil estava desanimado com a vida. O desânimo era tanto que ele concluiu que precisava se lembrar de que existem coisas boas para aguentar a maré negra. Lembrou-se de algumas e sentiu-se melhor. Aí, bem dentro do espírito deste início de século, achou que aquelas coisas boas mereciam ir para a internet. As três primeiras pequenas alegrias foram: sentir o cheiro de padaria, usar uma cueca que acabou de sair da secadora e estourar plástico-bolha. Parecem grandes besteiras, não é?

A brincadeira fez bem para o ânimo de Neil Pasricha e para seu bolso – provavelmente hoje ele é rico.

De novo, li alguns verbetes escritos por ele e não achei graça no que diz sobre essas experiências que, por mais bobas que sejam, realmente são reconfortantes, como a tal cueca que acabou de sair da secadora (dá para imaginar a sensação...).

O fato é que não há como explicar ou comentar essas “coisas sensacionais”. Tudo que falarmos soará bobinho. Estourar plástico-bolha... Merece um Nobel de literatura o autor que escrever algo decente sobre isso. É um pouco diferente do caminho tomado por Proust, que usou o sabor de um bolinho (a madeleine) como ponto de partida para trazer de volta lembranças de outros tempos. Em outro trecho de Em Busca do Tempo Perdido, o que evoca as lembranças do personagem é o cheiro de um banheiro público. O cheiro em si não causou prazer (de um banheiro público?), mas detonou a memória involuntária.

No caso dos prazeres mínimos, a graça está toda em lembrar-se deles, em trazer de volta a sensação que elas provocam. O prazer está na sensação e na memória da sensação.

Criaturas nervosas que so­­mos, sempre às voltas com grandes questões que não desaparecem nunca de nossas cabeças (sustento financeiro, o futuro dos filhos, a necessidade de fazer algo útil de nossas vidas, a fragilidade de nosso corpo), precisamos de um pouco de leveza, de bem-estar, de momentos de alegria, mínimos que sejam. Como pegar uma sequência de sinais verdes quando se está com pressa, uma das experiências sensacionais citadas no livro e que é realmente deliciosa. Ou tirar o sapato no fim do dia. Ou acordar e sentir o cheiro de café novo. Ou, ou... Tanto faz. Cada um tem os seus e dizem até que eles são mais de mil. (Gazeta do Povo, Curitiba - PR, Brasil)
 

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