sábado, 3 de março de 2012

HÁ um ano no Blogue do Valentim: conversa séria entre pai e filho


O cronista Luís Fernando Veríssimo
O PAI achou que o filho já estava na idade para terem a tal conversa. Encontrou o menino brincando com um amiguinho e convidou os dois para uma caminhada. Começou com a agricultura. O agricultor, meu filho, coloca uma semente na terra, a semente cresce e se transforma em planta. Com os animais é a mesma coisa. O macho coloca uma semente na fêmea, a semente cresce, etc. Com as pessoas também é assim. É por isso que nós temos órgãos sexuais, e o do homem é diferente do da mulher. O papai colocou uma sementinha na barriga da mamãe, a sementinha cresceu e você nasceu.

Para que o amiguinho não se sentisse desprezado, o pai acrescentou:

-- Com seu pai e sua mãe também foi assim.

Os dois meninos estavam interessadíssimos. Foi uma caminhada longa durante a qual o pai não parou de falar. Como o pai sabia de coisas! Para tudo que os meninos perguntavam sobre sexo o pai tinha uma resposta. Eta, pai!

-- E os buracos negros, pai?

-- Que buracos negros?

-- Os buracos negros do Universo.

-- Isso não tem nada a ver com sexo.

-- Eu sei, mas como é que eles são?

-- Ah, bom. Olha, sobre isso eu não sei muita coisa, não.

-- E pai, como é essa história de supercondutores?

-- Não sei bem.

Mas o menino continuava entusiasmado. Era o dia de saber de coisas.

-- Pai, por que as ondas de rádio acompanham a curvatura da Terra e as ondas de tevê não?

-- É porque, sei lá. Devem ser ondas diferentes.

O menino já estava desanimado.

-- Como é que funciona o relógio digital?

-- Não sei, meu filho.

Chegaram em casa e o pai perguntou:

-- Mais alguma pergunta sobre sexo?

Eles não tinham mais nenhuma pergunta sobre sexo e o pai foi embora. Os dois meninos ficaram em silêncio. Então, um disse:

-- Que crânio o meu pai, hein? Sabe tudo.

O amigo fez cara de pouco caso, lembrando todas as perguntas sem resposta. Mas o outro tinha a explicação.

-- É que ele se especializou, só isso.

(Luís Fernando Veríssimo in: O nariz e outras crônicas, 1995)

SEMPRE HÁ um pouco de loucura no amor, porém sempre há um pouco de razão na loucura. F. Nietzshe 

Fiquem com o bom Deus e...
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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