sábado, 24 de março de 2012

MARLETH Silva: pão-pão, queijo-queijo? Não na terra do pão de queijo

NA EDIÇÃO da revista Piauí que está nas bancas, há uma entrevista com a corregedora nacional de Justiça Eliana Calmon feita pela repórter Daniela Pinheiro. Vários episódios relatados mostram que Eliana é uma daquelas pessoas que vai, ao longo da vida, provocando inimizades por causa da sua franqueza. A certa altura, a repórter pergunta: “A franqueza a prejudica?” E a corregedora responde: “Não acho. O problema é que não temos a cultura da sinceridade, do pão-pão, queijo-queijo, sobretudo no Judiciário”. 

Tem toda razão, excelentíssima ministra. Não temos a cultura do pão-pão, queijo-queijo. Temos, sim, a cultura do pão de queijo, essa invenção brasileira que não é uma coisa nem outra. Carboidrato que esconde proteína. Agrada a gregos e troianos. Confunde. 

Quando se trata de dizer o que pensa, os brasileiros – como povo, como cultura – são uns incompetentes. Brasileiro não é franco e ponto final. Os francos são vistos como uns bárbaros, uns visigodos, uns ostrogodos. Franqueza por aqui ofende. Por gentileza, caridade, não dizemos o que pensamos alí, na cara dura. É difícil demais para a maioria dos brasileiros ser franco. Até dizemos depois, pelas costas, para outras pessoas. Mas isso já é outro assunto. 

Esse padrão de expressão cheio de subterfúgios revela também nossa postura diante do mundo. Mesmo em relação a alguém que sabidamente fez algo errado, somos capazes de esmorecer se enxergamos ali um ser humano que estava apenas querendo “o melhor para a família”, por exemplo. Não vamos até o fim nas punições se formos tocados no coração. Somos moles. Na hora de responsabilizar e punir, também somos um país “pão de queijo”.
Não estou falando aqui como alguém que põe o dedo na ferida dos outros. Eu sou assim! Me assusto com os francos e me enrolo para falar verdades mais duras. Ou nem falo. Não acho que ser assim é bacana, não. Não me orgulho dessa gentileza que me faz tomar caminhos oblíquos quando resolveria melhor as questões se fosse mais direta. A questão é: a cultura em que nascemos é determinante no nosso modo de agir. Dá para escapar? Dá para tentar ser diferente? 

Brasileiros que convivem com europeus (especialmente os do Norte) notam a falta de rodeios e, depois do choque inicial, acabam por perceber vantagens na franqueza. Mas assimilar uma nova postura que contradiz sua cultura é difícil. Exige vigilância, reflexão constante. A cultura é o oposto da reflexão. Os traços culturais que absorvemos no nosso país são ativados instintivamente; eles se sobrepõem ao intelecto. Se um brasileiro decidir ser mais direto e dizer o que acha certo sem subterfúgios, terá de se vigiar o tempo todo.

E a Eliana Calmon? O caso dela e de outras pessoas sem papas na língua desmentem meu raciocínio? Acho que não. Elas são as exceções que confirmam a regra, personalidades que se impõem e que vão provocando reações. Sem entrar no mérito da qualidade das observações da senhora corregedora, deduzo que se ela vivesse em outro país – na Noruega, por exemplo – não teria tanta história para contar sobre sustos que provocou ao dizer o que pensa. (Gazeta do Povo, Curitiba - PR, Brasil)

A altura das suas realizações será igual à profundidade das suas convicções. William F. Scolavino

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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