domingo, 1 de abril de 2012

MARLETH Silva: pé de pato, mangalô, três vezes


O MARIDO de uma amiga carrega uma noz ou castanha no bolso para dar sorte. Sempre. 

Se perde, não tem problema. Substitui por outra. Parece que uma vez, nos idos de sua juventude, aconteceu algo muito bom num dia em que, por acaso, ele carregava uma noz no bolso. Vi o casal em um restaurante e ele procurava a noz que caiu no chão quando pendurava o paletó na cadeira. Foi assim que fiquei sabendo da mania. Me lembrei de uma definição que li há tempo, que dizia que superstição é um tipo de religiosidade, de adoração a um deus inventado pelo próprio supersticioso: a noz, um amuleto, a cueca vermelha que Antonio Fagundes diz que usa para ter sorte. 

Tenho uma vaga lembrança de que a frase é de Cícero e vou checar na internet. Encontro-a em latim – como não sei latim, não posso garantir que entendi direito o raciocínio do romano. Mas faz sentido, não faz? 

Mas lá, na mesma fonte, está também outra frase de Cícero sobre os supersticiosos de seu tempo: “Chamávamos de supersticiosos aqueles que passavam dias rezando e oferecendo sacrifícios para que seus filhos sobrevivessem a eles”. Ou seja, eram classificados assim porque apelavam para o sobrenatural para fugir do risco de ver um filho morrer, porque pretendiam controlar algo incontrolável. 

Pois eu, que não me lembro de ter nenhuma superstição, me arrepio só de pensar naquele grupo de pais e mães romanos. Se eu passasse por eles, seria tentada a me juntar fanaticamente às orações e aos sacrifícios. Mas como concordo com Cícero e acredito que todo o desejo deles não poderia impedir o mundo de girar e carregar seus filhos, é mais provável que, diante dessas pessoas que expressam um medo que também sinto, eu me desesperasse em silêncio. 

Nessa hora trocaria os romanos pelos gregos porque esses, sim, eram bons para falar de desesperados. 

Pais e mães são as criaturas mais irracionalmente desesperadas da raça humana. Mas não estamos sós. Logo depois de nós vêm todos os outros. A fragilidade dos humanos contraposta a nossa presunção, que nos induz a supor que podemos controlar nossa vida, nos faz criaturas confusas e sofredoras. Não nos conformamos com a transitoriedade – nossa e de tudo o mais que achamos importante. Para piorar, vêm as tragédias, os acidentes, os crimes, as doenças. Ah, o mundo é tão cheio de tragédias! 

Não é à toa que diante disso, apelemos para o irracional. Preste atenção quando viaja, preste atenção em livros e filmes. Tem superstições no mundo inteiro. Até em países modernos e de alto nível de educação, você vai encontrar superstições. Dizem que no Japão tem muita. Até na sofisticada Europa você vai achar algum amuleto, talvez disfarçado de símbolo cristão. As religiões, todas, desaprovam os supersticiosos. Estão adorando o deus errado, afinal. Estão procurando abrigo para sua fragilidade em templos igualmente frágeis. Mas os supersticiosos resistem, em silêncio ou descaradamente. A vida é tão bonita e tão fácil de se perder... Quem, afinal, não precisa de uma noz para carregar no bolso? (Gazeta do Povo, Curitiba - PR, Brasil)

O homem é o que ele acredita. Anton Tchékhov

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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