domingo, 1 de abril de 2012

MENTIROSOS povoam literatura, dramaturgia e cinema

Mentirosos povoam literatura, dramaturgia e cinema (Foto: Divulgação)
Capitu, levada à telinha pela atriz Maria Fernanda Cândido: charme manipulador (Foto: Divulgação)

A MENTIRA pode ter pernas curtas, mas temos que admitir que, enquanto ela dura, serve para agradar, fazer sonhar, alcançar metas ou ter uma vida menos ordinária. Todo mundo mente. E personagens que habitam o imaginário coletivo, como o boneco de madeira cujo nariz crescia cada vez que contava uma lorota, ativam algo dentro de nós. As vezes necessária, outras vezes supérflua, a mentira nos acompanha com mais ou menos frequência do que ao Pinóquio. 

O mais famoso dos mentirosos, o boneco esculpido por Geppetto que queria ser menino foi criado em 1883 por Carlo Collodi. Herói do livro “As aventuras de Pinóquio”, acabava metendo os pés pelas mãos e mentindo vigorosamente em vez de ser “bom”, obediente ao Grilo Falante e honesto. Desde então, ele teve inúmeras adaptações literárias, teatrais e cinematográficas – sendo a mais célebre, a animação feita por Walt Disney em 1940 -, virando um símbolo daqueles que “contam um conto e aumentam um ponto”. 

Voltando séculos no tempo, lá nos idos de 300 a.C., o pensador grego Aristóteles já dizia que existiam apenas duas formas de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. Confúcio, duzentos anos depois, ensinou que a mentira configura uma escolha acertada quando a verdade parece nociva. Mas se a própria arte se embebe dela para transpor os limites da realidade e dar vida à ficção, então não é de se estranhar o fascínio que personagens mentirosos, vigaristas e dissimulados exercem junto ao público. Ou mesmo enredos totalmente baseados em farsas, como “O Show de Truman” (afinal, o personagem de Jim Carrey vive dentro de um programa televisivo), nos fazem acreditar e tomar como verdade os arquétipos imaginários da mentira. 

Segundo a psicóloga Patricia Neder, a mentira está presente em praticamente todas as culturas, logo o fascínio por ela é compreensível. “O comportamento de mentir é menos ou mais tolerado conforme os valores de cada povo e cada época. E até numa mesma sociedade podem coexistir graus diferentes de aceitação da mentira”, pontua. A mentira, continua a especialista, é algumas vezes usada na ficção com a finalidade de estimular a fantasia e como forma de garantir a atenção dos leitores/ espectadores: “A mentira dá glamour e realiza desejos só possíveis na imaginação, como por exemplo, voar de um lugar a outro, ser machucado pelo inimigo e não morrer....Nos sonhos tudo podemos fazer”.  

Verdadeiros mestres na arte do disfarce 

Se nos realizamos através das peripécias de personagens fictícios, os vigaristas cheios de charme são mais sedutores ainda. Eles estão em profusão na literatura, na dramaturgia e é claro, no cinema. Leonardo Di Caprio deu vida a Frank W. Abagnale em “Prenda-me se for capaz” (2002), de Steven Spielberg. Baseado na biografia de Frank, a história acompanha a trajetória dele no fim dos anos 60, quando roubou centenas de milhares de dólares, usando uma falsa identidade de piloto da Pan Am e uma pilha de cheques frios. 

Com apenas 18 anos, ele foi médico, advogado e co-piloto, um mestre na arte do disfarce, transformando-se num dos ladrões de banco mais bem-sucedido da história dos Estados Unidos. A versão brasileira dessa história é “Vips: histórias de um mentiroso”. Mariana Caltabiano tomou conhecimento da história repleta de farsas de Marcelo Nascimento da Rocha e resolveu escreveu um livro e fazer um documentário sobre ele, entrevistando-o na prisão. 

Em 2011, surgiu o filme inspirado na história real de Marcelo, que também era vigaristas nos ares: se passou por filho do dono de uma companhia aérea e aprendeu a pilotar aviões ao trabalhar para contrabandistas, que atuavam na fronteira do Brasil com o Paraguai. Interpretado por Wagner Moura, Marcelo é um cara que não consegue conviver consigo e por isso leva uma vida sem identidade, fingindo ser várias pessoas.

O Pica-Pau: influência sedutora para os pequenos

“Desde os primeiros anos de vida, aprendemos a observar os comportamentos do outro e posteriormente imitamos a forma de fazer de quem nos rodeia. Logo, os comportamentos de mentir, tirar vantagens e se dar bem às custas do prejuízo do outro influencia principalmente as crianças”, frisa Patrícia Neder. Ela cita o desenho do “ Pica-Pau” como um personagem que mente deliberadamente e trapaceia.

A psicóloga afirma que, em certas ocasiões, se toma a mentira como medida para a própria existência. É o caso do Barão de Munchhausen, que ganhou fama pelas milhares de histórias que inventava para distrair os amigos. Karl Friedrich Hieronymus tornou-se um mito, tido como um grande mentiroso graças ao livro escrito anonimamente por Rudolph Erich Raspe (1737-1794).

Para se ter ideia do nível de “fantasia” do barão, ele contou como se safou de um pântano onde caíra: puxando a si mesmo pelos cabelos. Essa e outras histórias estão no filme As aventuras do Barão de Munchhausen, dirigido em 1988 pelo ex-Monty Phyton Terry Gillian. 

“Não há como escapar da mentira”, decreta Veríssimo 

Shakespeare, como grande conhecedor das características humanas, em especial das fraquezas, teve entre seus personagens muitos mentirosos. Ricardo III talvez seja o mais icônico, já que com suas tramóias, usurpou um trono. Os olhinhos de ressaca de Capitu criaram muitas caraminholas na cabeça dos leitores. Ou talvez tenham sido os ciúmes e intrigas que consumiram Bentinho em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis? 

O cineasta e escritor Alan Parker segue os passos de um gatuno que ludibriou e enfiou a mão nos bolsos de muita gente, na obra “O beijo do Otário”. O autor não dá lição de moral e deixa Thomas Patrick Moran, seu anti-heroi, destilar a sua moral até o momento em que se apaixona e tenta ser sincero. Luís Fernando Veríssimo contou e catalogou mentiras de forma hilária em “As mentiras que os homens contam”. Divido em temas, o livro trata de lorotas de homens e mulheres e diz que elas surgem na infância, vitimando a princípio, a mãe. Depois, se torna um comportamento compulsivo. “Muitas vezes lançamos mão delas para evitar algum tipo de constrangimento ou para escapar de broncas, outras pela terrível necessidade de não magoar os outros, ou até mesmo por mera brincadeira. Não tem como escapar — as mentiras vão sempre estar presentes no cotidiano do ser humano”, diz o autor. 

Entre as situações em que se faz uso de uma mentira, há os casos em que ela catalisa uma oportunidade de brilhar. Em “Tootsie” (1982), Dustin Hoffman se finge de mulher para apresentar um programa de TV, e Julie Andrews que no mesmo ano fez “Victor ou Victoria”, se passa por um cantor transformista para se apresentar em boates. Ou ainda um “Macunaíma” (1969), que cria uma fantasia para disfarçar sua covardia, sem nenhum caráter. Mais inocente, o diretor John Hughes se comprazia dos dilemas juvenis e fez Matthew Broderick sair contando uma mentira no rabo da outra para aproveitar um dia “gazeteiro” e driblar a escola em “Curtindo a vida adoidado” (1986). Sem escapar da detenção, os adolescentes de “Clube dos cinco” (1985) mentiram para se divertir pelos corredores e despistar o inspetor nervosinho. 

Ainda no cinema, obras como “Mera Coincidência” (1997) e “O primeiro mentiroso (2009) elevam a mentira a outra categoria. Um trata da invenção de uma guerra na Albânia, para que o presidente dos EUA possa desviar o foco do escândalo sexual no qual acabara de se envolver, enquanto o outro parte da premissa de um mundo onde a mentira não existe, até que o ator e humorista Ricky Gervais inventa a mentira e começar a tirar lucros financeiros, amorosos e profissionais – e até religiosos. 

Patrícia Neder explica que, para a psicologia comportamental, toda conduta é modelada por contingências. “Skinner dizia que atendemos a conselhos e seguimos regras por causa das consequências reforçadoras que se seguiram quando assim agimos no passado. Ou seja, da mesma forma, a mentira pode ter a função de evitar consequências desagradáveis para cada um de nós, e em determinadas situações somos elogiados por mentir, omitir algo e evitar conflitos”, defende. 

Como Veríssimo bem colocou, o ato de mentir acaba se perpetuando no nosso dia a dia, mas Patrícia faz um alerta: “A mentira “saudável” é muito diferente da mentira usada por pessoas com transtorno de conduta anti-social (psicopatas) que a utilizam em benefício próprio, enganam as pessoas e se sentem no direito de fazer isso, mesmo que custe a vida da pessoa enganada”, alerta.   

Haja mentira na telona 

O Mensageiro do Diabo (1957): O psicopatO Mensageiro do Diabo (1957)
O psicopata Harry Powell (Robert Mitchum), banca o lobo em pele de cordeiro ao se fingir pastor, aterrorizando crianças e seduzindo uma viúva. Aqui, a ambição ganhou uma cara malévola. 

Os Suspeitos (1995): Cinco suspeitos de caráter duvidoso são detidos em uma delegacia de polícia de Nova York por causa de um crime. Durante a detenção, eles chegam a um acordo e se unem para realizar um grande trabalho. Porém, eles não imaginam que o bonzinho e manco Roger Kint os está usando. Mentindo, ele sabe muito bem como ter todos nas mãos.  

Enquanto Você Dormia (1995): Lucy (Sandra Bullock) inventou uma relação amorosa que não existia foi Lucy. Empregada do metrô, se encantou com um passageiro e acompanhou-o ao hospital depois de um acidente. Enquanto ele dormia ela contou à toda a equipe médica e à família do rapaz que era sua noiva.  

O Closet (2001): Depois de ser demitido do emprego, François Pignon (Daniel Auteiul) resolve que reverterá a situação provando que só foi excluído por causa do preconceito da chefia, que não aceitava sua orientação sexual. Tudo ok se não tivesse um pequeno problema, ele não era homossexual.  

A Vila (2004): No final do século XIX existia uma vila cercada por florestas em todos os lados. Lá, os moradores criaram uma sociedade totalmente alheia ao desenvolvimento tecnológico e científico da atualidade em uma espécie de vila, amendontrando os moradores mais jovens como Lucius Hunt (Joaquim Phoenix), que acredita que coisas terríveis rondavam o lugar onde moravam.   

Sr. & Sra. Smith (2005): John e Jane Smith eram um casal normal. Enquanto ela tinha uma empresa de informática e cozinhava muito mal, ele fingia viver de seu trabalho como engenheiro. Na verdade os dois eram assassinos profissionais que só descobriram a verdade quando um virou o alvo do outro. (Diário do Pará)

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