sábado, 27 de outubro de 2012

MARLETH Silva: Cadê o título de eleitor?

TODO ano de eleição é assim. Na véspera do dia D, aquele frio na espinha. Onde foi que ele deixou o título de eleitor? Sempre tem a impressão de que não vai encontrar o documento e que isso vai lhe causar dor de cabeça. Nunca perdeu o título, nunca deixou de votar. Uma vez, experiência ridícula, mal passou o dia da posse e ele já tinha esquecido para quem deu o voto para deputado. Ficou decepcionado consigo próprio. 

Mas perder o título, isso não aconteceu. Mesmo assim, sempre fica apreensivo até encontrar o papelucho.

 Por isso voltou para casa, guardou as compras (oh, perfeccionismo que não o deixa largar tudo no chão da cozinha e ir logo se livrar da pulga atrás da orelha) e, então, subiu as escadas do sobrado na direção da cômoda onde guarda documentos. Lá tem muitas folhas soltas, a maioria contas pagas (“Credo, como eu pago contas”, murmura para si mesmo) e umas sacolinhas plásticas, recicladas para um novo uso. Na embalagem da sunga que comprou há muitos verões estão os documentos. Logo viu o título, intacto. O problema todo é ele nunca recordar o momento em que voltou do local de votação e colocou o título, mais uma vez, na sacolinha. Faz isso “no piloto automático” e depois esquece. Agora, está orgulhoso de si mesmo, tão organizado! 
 
Junto com o título de eleitor está o passaporte, a carteira de trabalho e aqueles comprovantes de que votou. Tem também uma folha solta, pequena e amarelada, que ele abre para decidir se ela deve ficar lá. “De tudo ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento.”

O que o Soneto da Fidelidade do Vinicius está fazendo aqui? Ele fica olhando o papel tentando lembrar por que guardou aquela folha e de onde ela veio. Tem uma data: novembro de 1989. Ah! Lembrou. Primeiro turno da eleição para presidente, aquela que elegeu o Collor. Foi quando ele votou no Ulysses Guimarães. Até debocharam dele, todo mundo entusiasmado com o Caçador de Marajás, com o Lula, com o Brizola, com o Covas. O Ulysses ficou esquecido, até menosprezado. Mas ele votou no Ulysses e agora, pensando bem, pode até se gabar disso no próximo encontro com os amigos. Se mais gente tivesse tido seu bom senso, não teria havido Casa da Dinda, nem PC Farias, nem aqueles terninhos cor-de-rosa da Rosane. 

“Quero vivê-lo em cada vão momento / E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento”. Bonito, o poema. Mas o que ele tem a ver com o Ulysses, com o Aureliano Chaves? Com o Enéas! 

Ah, a lembrança vai voltando aos poucos. 15 de novembro de 1989 foi um dia festivo, primeira eleição para presidente depois de quase 30 anos. Ele e a mulher resolveram dar uma caminhada pelo Centro para ver o movimento, a “festa da democracia”. Vai ver que ele até cantarolava “vem, vamos embora, que esperar não é saber...” Os dois passaram por um grupo de jovens barbudos que faziam uma feira do poeta (isso ainda existe?) e distribuíam aquelas folhas soltas com poemas deles próprios e de autores consagrados. A mulher fez média e pegou um hai-kai do barbudinho, mas ele catou logo o Vinicius. 

“E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama”.
Surpresa não é esse romantismo guardado na gaveta. No fundo, ele se reconhece como um romântico sempre na expectativa do amor exacerbado, sensual e meio brega. Surpresa é a folha de papel ainda estar lá, tantas eleições depois.

“Eu possa me dizer do amor (que tive) / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.” Vinicius, Ulysses, título de eleitor, tudo isso mexe com a cabeça dele. Põe o título no bolso, dobra a folha do poema com carinho e a devolve para a sacolinha plástica. Quem diria, ele teve um momento sublime.

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