sexta-feira, 5 de outubro de 2012

SALVE o 5 de outubro!

Lula e FHC na mesma trincheira

HÁ EXATOS 24 anos eu acordei excitado. Na época - bons tempos... - eu sempre acordava excitado, mas naquele dia a coisa nada tinha de fisiológica. Era 5 de outubro de 1988, data da promulgação da nova Constituição brasileira. Botei um terno e fui para o Congresso, para ver e contar nas páginas do jornal em que eu trabalhava como o Brasil dava mais um passo à frente.

Durante os meses de Assembléia Nacional Constituinte, conheci muito deste país. Vi deputados e senadores de todos os tipos. Catedráticos, analfabetos, fascistas, comunistas, honestos, safados. Vi deputados de direita que passaram fome comendo com sofreguidão no luxuoso e subsidiado restaurante da Câmara. Vi herdeiros de fortunas milionárias lutando contra a injustiça social. Vi neo-nazista reclamando na tribuna que os presos de São Paulo estavam comendo bem demais. Vi um senador que andava sempre cercado de lindas assessoras engavetar criminosamente o projeto que proibiria a pesca da baleia em seu estado, a Paraíba. Milhares delas foram mortas dentro daquela gaveta.



Vi também Lula, Fernando Henrique, Plínio de Arruda Sampaio, Cristóvão Buarque, José Genuíno, Fernando Gabeira e tantos outros na mesma trincheira, tentando vencer no voto a maioria conservadora, que queria barrar todos os avanços sociais. Não admitiam conceder nenhum novo direito trabalhista e comiam nas mãos dos muitos lobistas de grandes empresas brasileiras e multinacionais que circulavam por aqueles salões atapetados. Os 300 picaretas formavam o famigerado Centrão, que unia latifundiários e tubarões de todos os tipos, sem-vergonhas de todas as espécies.


Paralelamente às votações, a turma que vendia seu voto se locupletava com concessões de rádio e TV para dar mais um ano de mandato a José Serney, o presidente da inflação a 80% ao mês. E o STF na época não estava nem aí para nada. A imprensa também não fazia a campanha que faz hoje contra o governo. Mamata, só dos amigos e, se ainda não era um governo do PT, para que denunciar?


A festa de promulgação foi suntuosa. O povo, porém, não apareceu nas imediações do Congresso. Não fez festa e as grades de isolamento instaladas no gramado vazio não serviram para nada. Brasília viveu um dia como outro qualquer. O povo não é bobo...


Bobo fui eu, que botei um blazer claro num dia solene em que a maioria vestia preto. Pelo menos, me destacou na multidão que subia a rampa atrás de Ulysses Guimarães e Sarney, como mostra esta foto de Givaldo Barbosa.




Constituinte de 1988/Foto: Givaldo Barbosa
(Blog Rio Acima, de Marcelo Migliaccio)

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