terça-feira, 25 de março de 2014

MUTRETAS, gatunagens e armações no futebol paraense (2ª parte)

(continuação da postagem de 24mar.2014)

Vamos a alguns fatos:


AQUELE fatídico jogo entre Paysandú e ABC foi transmitido pela televisão para Belém e região, vez que, devido ao interesse da torcida do Paysandú e pelas limitações de público do estádio, os ingressos rapidamente haviam se esgotado.
Antonio Carlos Nunes

Antes, em Natal - RN, o Paysandú havia perdido por 1 a 0, e teria agora a obrigação de ganhar o jogo pela diferença de dois gols, porque o ABC, pela melhor campanha nas fases anteriores, detinha a vantagem da igualdade. 1 a 0 ou 2 a 1 para o Paysandú dava a classificação ao ABC. A memória não me deixa dizer em quanto estava o placar do jogo quando, pela superlotação do estádio, coisa comum naqueles tempos, um dos muros desabou; mas pela lógica é possível inferir que o Paysandú devia estar vencendo a peleja.

Qualquer árbitro honesto e imparcial usaria o bom senso, suspendendo a partida pela falta das mínimas condições de segurança. Corriam riscos a equipe de arbitragem, os atletas e todos ali presentes, incluindo a própria multidão presente,  homens, mulheres e crianças presentes.

É fácil ver as razões com nitidez para a decisão de interromper o evento. O árbitro não teria autonomia, por exemplo, para assinalar um lance capital contra a equipe da casa, como um penal a favor do ABC ou até mesmo dar um cartão vermelho para um jogador do Paysandú; não teria liberdade nenhuma para assinalar qualquer lance polêmico que fosse contra as pretensões do time da casa. Era fazer isso e ver o campo de jogo invadido por milhares de hostis e apaixonados torcedores, revoltados por ver seu time prejudicado. Polícia nenhuma teria sido capaz de conter uma multidão enfurecida, e o resultado só Deus poderia saber. Interromper a peleja teria sido a única decisão acertada, mas não foi o que ocorreu.


Eis que, contra todas as leis do bom senso, passadas a surpresa e o susto, o árbitro Manoel Serapião Filho, o Serapapão (numa alusão a papão, apelido do Paysandú), resolveu dar prosseguimento ao jogo. Não, não creia que ele foi irresponsável. Irresponsável teria sido se ele não estivesse ali previamente encomendado pela cartolagem bicolor com a missão de favorecer ao Paysandú. Sabia muito bem o que estava fazendo, tudo de caso pensado.

Antes de o muro desabar, Rildo, atacante do ABC, chutou a bola para o barbante do Paysandú, num gol que ninguém até hoje soube dizer porque foi invalidado por Serapião. Ou melhor, ninguém sabia até 11 de novembro de 2003, quando Miguel Pinho disse que o árbitro baiano estava no bolso; desconfiavam apenas. O resultado final foi 3 a 1 para a equipe local, classificando-se para a fase seguinte, vindo depois a vencer o Guarani no jogo final no Mangueirão, com arbitragem do mesmo Serapapão Filho.

Esse foi um dos três episódios obscuros, trazidos às claras pelo próprio mentor da operação de suborno.


Outro esquema:


Outro caso aconteceu no campeonato paraense de 2000. Em jogo contra o Remo, este para classificar-se teria de vencer o Paysandú por dois gols de diferença.  Estava 1 a 0 para o Remo, quando um dos auxiliares do árbitro (bandeirinha) assinalou impedimento de Robinho, que fizera um gol legítimo. Descobriu-se mais tarde que esse mesmo bandeirinha era vizinho em São Paulo de um jogador do Paysandú.

Um árbitro (no caso, o auxiliar) pode ser vizinho de um jogador, e não há nada de proibido nisso. Pode acontecer de ser escalado para trabalhar no jogo da equipe desse vizinho. Então, tudo poderia ter sido apenas uma coincidência. Mas não foi.

O bandeirinha foi comprado, e o fato foi em 2003 confirmado pelo mentor do esquema, senhor Miguel Pinho. E se não houvesse oportunidade para assinalar um impedimento inexistente da parte de um atacante azulino, certamente faria vistas grossas a algum impedimento de um atacante bicolor, possibilitando a este assinalar um gol ilegítimo. Estaria tudo em casa.

Com esse resultado o Paysandú foi à decisão do campeonato contra o Castanhal Esporte Clube. Dessa vez o homem do esquema era o árbitro carioca Wagner Tardelli, que entrou na vida do Paysandu pelas mãos de Miguel Pinho, conforme suas palavras em O Liberal. O Paysandú venceu o primeiro jogo por 1 a 0 de pênalti, já nos acréscimos. No lance seguinte, Edil, atacante do Castanhal, quase empata chutando uma bola na trave. Segundo Pinho, Tardelli teria dito que daria um jeito de anular o gol se a bola tivesse entrado. O Castanhal somente teria chance de ser campeão se o jogo fosse contra o Remo. Tudo já estava determinado.
Wagner Tardelli

Naquela competição, o esquema de suborno foi posto em prática por duas vezes, pelo menos: uma no jogo do Paysandú contra o Remo, com o bandeirinha no bolso; a segunda, no jogo contra o Castanhal, levando o Paysandú a mais um título comprado. 

O cartola também disse ter havido esquema de suborno na Série B de 2001, quando novamente o Paysandú foi campeão. O jornal, porém, não dá muitos detalhes, dizendo apenas quem era o presidente e quem mandava no futebol do Papão. Mas é fácil saber, bastando consultar os jornais da época e verificar se houve lances duvidosos, qual o trio de arbitragem, se houve algum fato destoante e coisas do gênero, em especial os jogos apitados por Wagner Tardelli.

Outros esquemas ocorreram, segundo o cartola, com o mesmo árbitro Wagner Tardelli, visto que, segundo consta em O Liberal, pelas mãos de Miguel Pinho o árbitro carioca entrou na vida do Paysandú. Diante dessas palavras, não é difícil verificar quais jogos decisivos para o Paysandú poderiam ter tido influência da arbitragem, vez que Tardelli deve ter trabalhado em outros jogos da equipe bicolor. É o que se depreende das palavras do subornante confesso.


Quantos?


Quantos títulos Miguel Pinho teria arranjado para o Paysandú? Ou melhor, dos troféus recebidos pelo Paysandú, quantos teria o bicolor conquistado de forma lícita?

Não sabemos. Certeza mesmo, porque foi dita pela boca do próprio subornante e não houve ao que se saiba até hoje nenhuma contestação, é que dois campeonatos nacionais da segunda divisão e um campeonato estadual foram comprados. Quem teria sido o campeão da segunda divisão em 1991? Qualquer um outro, menos o Paysandú. Quem teria sido o campeão estadual de 2000? Remo ou Castanhal. Quem teria sido o campeão da segunda divisão de 2001? Certamente não teria sido o Paysandú.

Mas outros esquemas ocorreram, segundo dá a entender o jornal paraense, edição de 12 de novembro de 2003.

Em 2007, em um jogo contra o Ananindeua, o Paysandú venceu por 6 a 1. Um radialista conhecido por nome de comediante dos anos 60, por sinal bastante dado a temas polêmicos, foi farto em jogar no ar as suspeitas sobre jogadores do Ananindeua, que teriam feito corpo-mole, facilitando a vitória bicolor. Eu mesmo fui ver esse jogo, e me pareceu muito estranha a forma como a equipe do Ananindeua perdeu, assim por um placar exagerado. Perder por 2 a 1, por 1 a 0, isso teria sido coisa normal, apesar de o time do Ananindeua, naquela temporada, ser a segunda melhor campanha, perdendo apenas para a equipe do Remo, enquanto que o Paysandú caía pelas tabelas. Uma comédia aquela partida de futebol, em que goleiro se atira às duas pernas do atacante para fazer um penal e jogadores andavam em campo. Meninos, eu vi!

O árbitro da contenda era um, muito falado por favorecer o Paysandú, com nome de dia da semana acrescido de sufixo aumentativo. Nada a dizer da atuação do árbitro, que apitou direitinho.

Desta vez o esquema não foi para dar um título de campeão ao Paysandú, mas tão somente para evitar o vexame de um rebaixamento, tão mal estava o bicolor naquele certame.


Outras situações a considerar, ainda.

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