segunda-feira, 26 de maio de 2014

A CULPA é do aluno

À TARDE, num raro intervalo de folga, coisa que ocorria quando muito uma vez a cada mês, alguns alunos aglomeravam-se lá em baixo, à sombra do prédio. No centro deles, a julgar pela risada, estava o sargenteante, que contava uma piada. Enquanto as nuvens que se formavam ao longe não se transformavam no denso aguaceiro que prometiam, desci lá para ver.

- ... então na sala de estar dos sargentos lá no prédio do Ceá, fizemos uma vaquinha e compramos uma geladeira. Cada um guardava ali frutas, refrigerante, queijo, iogurte e outros alimentos, pra serem consumidos ao longo da semana, nos intervalos das instruções. Com o tempo notei que as maçãs e iogurtes que eu trazia sumiam assim, misteriosamente. Eu comprava uma bandeja de iogurtes, seis, e consumia um, dois, e quando via, tinha só um. Com a maçã, também acontecia isto. Perguntei pra um e pra outro, também perceberam a mesma coisa. Alguém, que não estava contribuindo, estava comendo o que os outros deixavam lá na geladeira.
Só podia ser o Abreu, que não quis colaborar. Resolvi prestar atenção nos seus movimentos.

A turma, para saber o final daquela história, mantinha-se atenta à anedota.


- Prestando atenção nos movimentos do Abreu, confirmei mais de uma vez ser ele mesmo quem comia as frutas, iogurtes e o mais que estivesse lá na geladeira. Enquanto todos os outros sargentos e suboficiais ocupavam-se, cada um no seu trabalho, ele ia lá na sala de estar, olhava para um lado e para outro para assegurar-se de que não havia ninguém vendo, e comia as frutas e tomava um iogurte, o meu iogurte. No caso do iogurte o prejuízo era só meu, pois eu era o único que gostava de iogurte. Único, não, melhor dizendo, eu e o Abreu, mas a diferença é que eu comprava e ele só bebia. Resolvi tomar uma atitude pra punir o desonesto. O que fiz? 

Olhou ao redor, fazendo aquela pausa e a expressão de quem esperava pela clássica perguntar: 'O que o senhor fez?'. Mas como ninguém perguntou 'O quê?', continuou o causo.

- Então comprei na farmácia uma seringa dessas que aplica injeção e trouxe de casa algumas pimentas. Injetei aquele suco de pimenta nos iogurtes que deixei na geladeira. Fiquei à espreita do Abreu, só de olho na figura. No dia seguinte, sem que ele percebesse, eu estava a observar os movimentos dele. Era a hora. Havia combinado com dois colegas para que ficassem escondidos, pois seriam minhas testemunhas. Ele entrou e, como sempre, pé ante pé, olhando em volta, e abriu a geladeira. Comeu uma fruta e foi ao iogurte apimentado. 
- Uh! Uh! Fi... filho da puta! Filho da puta! 
O pessoal apareceu e foi só gargalhada. Eu também, rindo mais que os outros com a cara do negão. - Foi você, né Cunha?! Foi você! 
- Qual o problema? Eu gosto de iogurte com pimenta. Não tenho culpa de você não gostar. 

Foi um santo remédio.

Como mudara. Com certeza o episódio da bicicleta trouxe para os alunos o outro lado do Cunha Pinto que não conhecíamos, fazendo daquele sargento durão um cara mais humanizado. 

Caiu a chuvarada prometida. Alguns alunos aproveitavam para zoar o pessoal do Nordeste.
- Aproveita para tirar uma foto, Quinze, e manda por carta aos teus parentes, que faz tempo não vêem uma chuva como essa. - Alguém disse.
- Eu sou da Amazônia, oh Mané. Lá chove muito mais do que aqui, otário! Tu precisa conhecer melhor o Brasil.

Reagi pesadamente contra um daqueles que gostavam de sacanear quem fosse do Norte ou Nordeste, que para eles era tudo igual, ou seja, gente inferior a eles. Muito preconceito que já estava me dando nos nervos. Dessa vez não deixei barato.

O xerife procurava-me com um recado. O comandante da esquadrilha queria falar comigo. Mas eu não quero falar com ele, pensei. Como não tinha como não cumprir, fui.

- Aluno Quinze Setequatro se apresentando, senhor!
- Quinze Setequatro, você está numa enrascada.
- Eu??? 
- Quem mais seria? Aqui só têm duas pessoas. Você esteve nessa data aqui no bar da portuguesa?
- Não sei, não me lembro bem. Sempre vou lá, mas nessa data...
- Você se encrencou de vez. Não adianta negar. Vê este papel?

O homem mostrou-me uma cópia da página do livro de créditos da portuguesa, o famoso livro do findu. Meu nome, data e assinatura estavam lá.

- Não tenho como negar, é verdade que estive lá. O senhor pode dizer o que houve?
- Houve lá um quebra-quebra, uma confusão dos diabos. Pra resumir, a dona do bar está cobrando dos responsáveis o prejuízo. Um dos responsáveis é você, Quinze Setequatro.
- Comandante, não posso negar que estive lá nessa noite, mas daí, dizer que eu fiz um quebra-quebra, briguei, me meti em confusão, isso já é demais. - Argumentei.
- Está decidido. O regulamento manda ouvir o transgressor, só por isso você está aqui diante de mim. A proprietária do estabelecimento será ressarcida em 400 cruzeiros. Será descontado do seu salário.
- Se é assim, de que adianta a minha palavra? O senhor é que sabe. O que é que eu posso fazer?
- Não me venha com ironias, aluno, e não pondera. Calado aqui você já está errado. E ainda não acabou.
- ...
Vi que meus argumentos de nada adiantavam. Ao contrário, qualquer intervenção minha só piorava tudo. Apesar de não ter culpa alguma.
- Sem prejuízo disciplinar.
- O que quer dizer isso, senhor? - Perguntei já sabendo da resposta.
- Que você vai ser punido disciplinarmente. Aluno, você ficará detido por dez dias. É só. Pode se retirar, fazendo conforme manda o regulamento.

Fiz continência e dei meia volta.

Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Mas não era nenhum pesadelo, era realidade. Cogitei que talvez se tratasse de um trote, mas isso descartei logo diante da situação real da briga ocorrida no bar, cujo começo cheguei a presenciar, tomando a atitude de me retirar antes que ocorresse algo pior, antes que uma cadeira quebrasse na minha cabeça ou qualquer tragédia assim. O livro do findu da portuguesa, cuja cópia servia para incriminar-me, era outra evidência de que a coisa era séria. Estive lá, é verdade, mas jamais imaginaria que a minha presença no local seria suficiente para encrencar-me daquela forma. O prejuízo financeiro não era nada, comparado à injustiça, que me doía o peito.

Um urubu parecia ter pousado na minha sorte, pensei assim repetindo mentalmente as palavras de um poeta. Quanto à parte intelectual, sentia-me bem mais seguro neste segundo semestre. Mas a questão agora iria à área disciplinar, infundindo-me o medo de ser desligado do curso por tal razão. Nesse caso, não havia como permanecer mesmo como soldado, como era o caso do primeiro semestre. Mesmo porque a questão era disciplinar e não intelectual. Ademais, na segunda série não havia esse plano B. 

A embriaguez da primeira série também conspirava contra mim, dando ao comando uma falsa ideia da minha pessoa. Atrapalhava ainda o fato de ter ido diretamente ao comandante da Escola sem autorização. Ainda quiseram me punir na época mas o próprio chefão interveio. Mas dessa vez era o que eles queriam para me pegar de jeito.

Que pesadelo? Não, não era um pesadelo. Pesadelo?

Subitamente uma luz acendeu em minha mente à lembrança dessa palavra. Pesadelo. Sim, claro, a culpa do aluno. Sim, no caso, a culpa recaiu sobre um aluno, cujos superiores, zelosos com o bom nome da instituição junto à comunidade guaratinguetanse, puniam rigorosamente qualquer desavença envolvendo a alunada. Era isso. Qual era o nome do mesmo do sargento? O sargento que, ao término de uma das provas realizadas na primeira série, ouvira discutir com outro sobre uma tal culpa do aluno? Tinha a forte intuição de que isso tinha a ver com o caso. 


Não há vento favorável para aquele que não sabe aonde vai. Sêneca


Louvado seja o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

(baseado na postagem do BLOGUE do Valentim em 21out.2011)

Esta postagem é um mero exercício de ficção, inexistindo correlação com fatos e pessoas reais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!