quinta-feira, 22 de maio de 2014

COISA boa o que é?

O MAIOR pesadelo para alunos despreparados, como eu, era sem dúvida a possibilidade de não concluirmos o curso, fracassando na missão, ficando pelo caminho. Não importava a razão do insucesso, fosse ela insuficiência intelectual, doença ou questão disciplinar. Havia um letreiro que, mais ou menos, dizia assim: "Os covardes nem tentaram, os fracos ficam pelo caminho; só os fortes vencerão".

A sexta-feira sonhada chegou!
No Ceá o medo era uma coisa intencionalmente disseminada entre a alunada, creio eu. Tinham lá as suas razões, a que atinei somente algum tempo depois (como eu era lento!), que eram as de fazer o aluno esforçar-se, levando a sério as suas atividades e os estudos. Responsabilidade é uma condição sine qua non para um bom sargento especialista, e que deveria ser praticada desde sempre. Naqueles primeiros dias nós não tínhamos tal visão, e para mim aqueles caras estavam ali somente para tornar a nossa vida bem mais difícil. Míope!


No primeiro semestre, para aqueles jovens que nunca tinham servido as Forças Armadas como soldado, em caso de desligamento por deficiência intelectual, destinava-se a permanência, uma sobrevida na Escola, como recruta, com vistas a completar o ano obrigatório preconizado em lei. Findo o ano compulsório, ser-lhe-ia dada a opção de pedir renovação de tempo, como a qualquer outro soldado da Aeronáutica em serviço militar inicial, podendo até, se quisesse, candidatar-se ao Curso de Formação de Cabos, CFC, ou até mesmo matricular-se no concurso para voltar ao Ceá. Diariamente se ouvia a notícia sobre um ou outro aluno, desligado do curso, cujo rumo tinha sido o da Companhia de infantaria, em cujo alojamento dormi na primeira noite de Escola. Várias vezes mesmo eu vi o Armindo circulando pelas dependências da Escola, nas lides de soldado, depois cabo, e mais tarde de volta como aluno. Era um exemplo de persistência, de força de vontade, aquele alguém que não se deixou abater pelo insucesso momentâneo. Esse exemplo incomum fortaleceu em mim a ideia de que Deus não permite a nós que uma derrota seja definitiva; só depende de nós. 

Para mim, em caso de insucesso, que na minha cabeça era de grande probabilidade, essa seria uma saída, o meu plano B. Ficar na Escola na condição de soldado, com um salário garantido por algum tempo, era para mim uma saída honrosa. Desonra mesmo seria voltar para a minha Belém do Pará com uma mão na frente e a outra atrás, um derrotado a submeter-se ao riso sarcástico do Palheta e do Gonzaga, antigos colegas de preparatório, que inicialmente desdenharam da minha pretensão. Daria um tempo na companhia Igê como soldado, enquanto me preparava para a volta ao Ceá numa condição intelectual mais favorável. Todavia, enquanto houvesse vida e esperança, e eu não estava disposto a entregar-me ao fracasso, existia chance, ainda que não muito grande, havia a mínima chance de aprovação nos bancos escolares para os semestres seguintes, ainda que ficasse eu na última colocação. Qual a diferença entre o primeiro colocado do curso, o aluno zero um - como se dizia -, e o zero último? Quase nenhuma. Ambos sairiam sargentos, ambos formados, ainda que este fosse mandado a servir em qualquer localidade indesejada. O importante era sair sargento, o objetivo era esse.

Esses pensamentos nada otimistas insistiam em passear com relativa frequência pela minha mente, ciente das dificuldades que eram naqueles primeiros dias ali em Guará, maiores do que imaginara.

O tempo passava e os quarenta dias de internato a nós impostos estavam quase a seu termo. O primeiro pagamento, que é bom, nada. Nas longas corridas após o aquecimento da instrução de educação física, entre as tantas musiquinhas cantadas para motivar a alunada, uma delas dizia assim no refrão: 'Coisa boa o que é? Sexta-feira e mulher!'. O tempo passava célere, estávamos a um dia do licenciamento.

Enquanto a tão sonhada sexta-feira não vinha, o humor, a descontração e a irreverência eram as maneiras que encontrávamos para espantar a tristeza e o cansaço. Nas corridas, era comum alguns alunos motivarem o grupo com cantigas, rimas ou mesmo palavras soltas e frases engraçadas.

- De que vale o céu e o mar
- Se está cheio de preá
- De que vale o céu azul
- Se está cheio de urubu

O Brito, que saiu enfermeiro, e que sempre teve alma de poeta, era um dos que agitavam. Estávamos uma vez correndo pela estrada que dá da vila dos sargentos ao hospital, passando por uma escola. Nosso grupo corria forte, e uma jovem - dezoito, vinte ou pouco mais - caminhava um pouco adiante, de forma que seria alcançada pela tropa em instantes. O Brito mandou um engraçado 'olhar à direita'. As formas da moça enganaram nossos olhos, frustrando nossa expectativa, pois ao ultrapassá-la notamos que o seu rosto não correspondia às belas formas do corpo. Que pena! Brito não perdeu o senso de humor:

- Cessar os olhares lânguidos!

Risos. A quarentena estava a um dia e a turma, com os hormônios à flor da pele, não via a hora de, pelo menos ver, conversar, relacionar-se com uma pessoa jovem do sexo feminino (era outra tirada do Brito), pois àquele tempo estávamos fartos de ver somente as senhoras lavadeiras e suas filhas que as acompanhavam eventualmente. 

Chegou ela. Adivinha quem? Ela, a sexta-feira. Coisa boa! Às cinco da tarde, a moçada em forma ali no enorme pátio, de uniforme de passeio, o quinto uniforme, imóveis ouvindo as últimas instruções, recomendações, leituras e, simultaneamente, a obrigatória revista de uniforme. Quedavam-se ansiosos pela primeira liberação.

O sargenteante e o próprio comandante da esquadrilha passavam de fila em fila, aluno por aluno, olho de cima a baixo, da cabeça aos pés, em busca de algum desalinho. De vez em quando algum se detinha por mais tempo, para, em seguida, anotar alguma coisa na caderneta. Na minha vez, o próprio comandante da esquadrilha deteve-se por mais tempo. O suor escorria-me da face, as pernas principiavam a tremer e o coração acelerava. Meu Deus, ficarei preso ou coisa assim! Fiquei naqueles quatro ou cinco segundos, que para mim pareciam longos minutos, a imaginar o que estava errado em mim. Seria a barba mal feita, o sapato mal engraxado? O que tinha feito de errado nos dias anteriores, a ponto de chamar a atenção mais delongada da autoridade que se ocupava da minha desajeitada figura? Ou será que ele nunca vira alguém tão desajeitado como eu? Finalmente resolveu falar:

- Aluno! Essa sua calça, assim com a bainha mal costurada está um lixo, um cocô. Se passar um caminhão de lixo, você vai ter de fazer um grande esforço para não ser levado junto.

A casa caiu! Pensei comigo. A calça que o alfaiate me pagou ficava bem mais longa, por isso foi necessário encurtá-la, ficaram à mostra os vincos antigos (ou seriam os pontos de linha mal feitos?). E agora? O meu final de semana estava comprometido. Terminou sua fala e seguiu adiante para vistoriar o próximo aluno da fila. 

Concluída a formatura de revista foi dado o fora-de-forma. A alunada naquela alegria, e todos do Rio de Janeiro seguiam para seus ônibus com destino à cidade maravilhosa e cidades próximas; o mesmo faziam os de São Paulo, capital e interior. Os de mais distante, Ceará, Bahia, Rio Grande e demais estados, tinham de se contentar em ficar ali mesmo em Guaratinguetá, quando muito arriscavam-se por Lorena, Aparecida e região. Nessas ocasiões, os cariocas costumavam zombar da gente, denominados de forma pejorativa como paraíbas. Qualquer um nortista ou nordestino era chamado de paraíba pelo carioca; de baiano pelo paulista:

- Chora paraíba, paraíba chora. Chora paraíba, carioca vai embora!

Isso agravava mais a saudade da terrinha, da mãe, do pai, dos irmãos, da namorada (no caso dos que ainda tinham uma).

Assim, todos tomavam o seu destino. Menos eu e mais dois ou três colegas, que, por algum desalinho de uniforme, barba mal feita ou outro problema qualquer, foram também apanhados naquela malha fina da sexta-feira. Apresentando-nos ao sargento, este portou-se com fidalguia, tratando de nos acalmar. Disse-nos que daquela vez, por ser a primeira vez, o comandante relevava, mas que não voltássemos a reincidir em erro. Ufa! O final de semana estava salvo; nem atinei para o excessivo rigor, que para mim também era novidade.

O dinheiro de que dispunha mal dava para um cinema, nem sei se dava para a pipoca. Mas não importava. Rumo ao ponto de ônibus, direção à cidade!




"SEMEIE um ato, e você colhe um hábito; semeie um hábito, e você colhe um caráter; semeie um caráter, e você colhe um destino." Charles Reade

(postado originalmente no BLOGUE do Valentim em 10set.2011)  

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