quinta-feira, 15 de maio de 2014

DANILO, um grande herói brasileiro (2ª parte)

(Continuação da postagem de 14maio2014)




Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas



DEVIDO à missão de que se ocupava na ocasião, metralhamento de composições ferroviárias num entroncamento fortemente defendido, devia ter saltado à baixa altura, o que não nos encorajava a prognósticos muito otimistas acerca de sua caveira. Sentiu-se a falta do gaúcho, mas a guerra continuava, e se não tivesse sido ele seria um outro qualquer de nós. Não havia tempo para lamentações. Talvez por respeito, por sentimento, ou qualquer outro motivo, suas anedotas não eram mais contadas, mas lembradas com um cunho de saudades. Sua voz estridente não era mais ouvida na garagem, e penso mesmo que os praças que comandava sentiram a falta de suas ordens aparentemente gritadas, na maneira características que todos gozavam. Ele não voltou naquela manhã de inverno. O que teria acontecido? Era a dúvida de todos. Os dias se passaram e logo o pessoal se conformou, e a alegria foi até maior quando da sua volta, após sua fuga excepcional, que só ele mesmo conseguiria realizar com êxito.

O gaúcho foi abatido, por armas automáticas, muito distante de nossa base, Pisa. Aproximadamente uma distância equivalente entre as cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, ou talvez mais. Saltou a baixa altura e, como Deus também é gaúcho, chegou ao solo com felicidade, nada mais lhe acontecendo do que um corte na língua, que mais tarde lhe foi providencial. Conta ele que, ao chegar ao chão – o que aconteceu muito rápido, pois o pára-quedas apenas se abriu, ele sentiu o tranco e logo em seguida tocou ao solo, mordendo a língua neste momento –, ficou um pouco desorientado, sem saber qual atitude a tomar. 


Venceu a indecisão inicial. Colhe rápido o pára-quedas e afastou-se do local da queda. O campo em que caíra estava coberto de neve. O trigo já havia sido colhido e sua palha empilhada para servir de alimento ao gado durante o inverno.

Ao lado de seu irmão major-aviador Nero Moura,
futuro Ministro da Aeronáutica


Encontrava-se em campo aberto, sem saber o que fazer. Recordou-se, disse ele, das aulas do inglês, dos macetes (Serviço Secreto), e ainda, sem saber o que fazer, ocultou-se no primeiro monte de palha, pois alguém se aproximava. Era um italiano, camponês, aparentemente inofensivo. Entretanto, naquela situação, não podia confiar em ninguém. Tinha que ter certeza. O inglês havia ensinado assim. O homem do campo aproximou-se, e ele ficou na indecisão de "pregar-lhe um tiro na cara” ou conversar com o paisá. Decidiu-se pela última alternativa. Esperou. O italiano falou-lhe primeiro e, ainda desconfiado, com muito medo, dispôs-se a ouvir o italiano, que na sua simplicidade, no isolamento em que vivia, nunca poderia imaginar o quanto esteve próximo de levar um tiro na cara. É necessário que se faça uma ressalva para louvar a coragem, o desprendimento desinteressado daqueles camponeses italianos, que, mesmo sem ignorar as conseqüências – os alemães não faziam mistério das represálias e castigos que infligiriam a todos que ajudassem os Aliados -, ofereciam a sua ajuda a estranhos, da mais nobre maneira, dentro de suas limitadas possibilidades. O nosso gaúcho estava frente a um destes heróis anônimos. Este lhe perguntou, na sua maneira simples e substancial: inglês ou americano? O fabiano prontamente respondeu: "Americano". O bom homem não entrou em pormenores. Escondeu-o mais ainda no monte de palha, cobrindo-o todo, dizendo-lhe que voltaria mais tarde.


Horas amargas deve ter passado o Índio, sozinho, debaixo daquela palha úmida, com frio e muito mais medo, sem sossego de espírito, aguardando o que viria depois, mas que imaginava ser o pior. Não teria sido melhor ter passado o “recibo” no italiano? Naquela solidão escura e umedecida do monte de palha a sua cabeça não o deixava em paz um só instante. Estava ficando desesperado, pensando que não mais suportaria a situação. Nessa luta íntima, o tempo foi passando e havia sempre uma esperança, a que, como bom jogador de pôquer – ele considerava todos os ângulos –, mantinha-o sempre com um restinho de moral. Foi justamente este restinho de moral que o fez suportar aquelas primeiras horas terríveis. A palha molhada o incomodava profundamente, porém o desconforto moral era muito maior. Se fosse outro, pensaria com raiva nas poesias que tanto falavam de odor úmido dos campos. Mas ele nunca tomou conhecimento da existência de poesias. Com muito frio e medo, foi suportando a noite inteira, muito mais fria que quase todo o dia que passara naquele estado deplorável. Sentiu-se enregelado, o corpo começava a se ressentir da posição forçada debaixo da palha, “mas tudo isso era bobagem – contou ele – comparado com o estado de ânimo de que me sentia possuído”. Confessou que esteve próximo a entregar-se ao desespero, desistindo de uma vez. Nessa indecisão, aguentou valentemente a noite fria. O gaúcho era especial de verdade. Valente, simples, inconsciente de sua força moral, enfrentou tudo aquilo com uma galhardia inigualável, com uma naturalidade nata, só compreendida pelos que com ele privaram. Ao contar a sua história, depois de sua volta, sentia-se que estava sendo sincero no seu relato, sem preocupações de se fazer herói.

A madrugada encontrou-o entorpecido, sonolento, abatido pelo cansaço, porém não vencido. Como havia lhe prometido, o italiano voltou, trazendo-lhe comida. Alimentou-se como pôde, pois o apetite não podia ser grande. As primeiras vinte e quatro horas tinham passado e ele não havia sido descoberto. Se o inglês sabia mesmo o que dizia, a sua possibilidade de fuga aumentara um pouco. Mais animado, convenceu o camponês de arranjar-lhe umas roupas civis, em troca das suas. O pobre italiano, embora relutante, concordou, ficando com a sua roupa de voo. O gaúcho vestiu a roupa velha e surrada que conseguiu, conservando as calças de gabardine de lã do uniforme e as botinas, que pintou de preto, ainda com o auxílio do italiano. Ficou de posse de sua bolsa de fuga, com algum dinheiro italiano e com a bússola, os fósforos, os medicamentos especiais e os mapas da região estampados em seda. Distribuiu o que restou da bolsa de fuga pelos bolsos de sua nova roupa velha. Inadvertidamente conservou o seu relógio de pulso. Não pensou naquilo, só muito mais tarde notou que o conservava no pulso. Agora, com boné velho na cabeça, com uma broa bem italiana amarrada em um lenço estampado em vermelho metido debaixo do braço, como o costume da terra, com a sua famosa barba azulada de um dia de idade, poderia passar bem por qualquer italiano da Calábria. O seu moreno carregado e o seu otimismo invulgar lhe davam esta pretensão. Metido nesta roupagem, começou a sua fuga original. Com a ajuda de seus mapas e muito mais com ajuda do italiano, orientou-se na região em que se encontrava. Voando, a coisa era muito mais fácil do que em terra, afirmou o gaúcho. Não havia nenhuma referência a mão… o inglês do Army (Serviço Secreto) havia ensinado em suas aulas como deveria proceder em situações como a que se encontrava o nosso herói. Sim, devia seguir o caminho mais próximo de gente amiga, ou seguir para as montanhas, onde sabia existirem os partisanos, ou ainda procurar alcançar a fronteira suíça e ser internado.

Isso seria naturalmente o mais lógico, dado a posição em que se encontrava em relação àquelas alternativas. Não se preocupou com estes detalhes sem importância. Ele era mesmo diferente. A distância mais curta estava ao Norte. Não conversou. Meteu rumo Sul, que era o de Pisa, onde a gaita deveria sair no dia 28 de cada mês. Sim, tinha de chegar antes do pagamento, pois do contrário passaria a desaparecido, ou qualquer outra coisa burocrática, e "seria o diabo para receber aquelas liras". Conta ter sido esta sua maior preocupação. Acredito sinceramente que seja verdade. As reações do homem eram todas diferentes. Outro igual será muito difícil existir.


Guiado pelo italiano, desembaraçou-se do reticulado das estradas secundárias, que não constavam no mapa de fuga, e de bicicleta – o camponês levou-o no quadro – alcançou a estrada principal que o levaria a Padova. Diz ele que, comovido sinceramente, despediu-se do paisá, que lhe desejou muitos alguri e quis beijá-lo à moda da terra. Mas ele não consentiu. Homem, não! Para encurtar a despedida, prometeu-lhe que, terminada a guerra, voltaria para revê-lo. Queria ver o vestido feito de pára-quedas que a irmã do contadine iria fazer, assim que os alemães saíssem da sua terra. – sou testemunha de que o gaúcho cumpriu sua palavra, voltando para ver o vestido de seda branca de seu pára-quedas e que também deixou-se beijar à maneira daquele povo. Quando prometera que voltaria para rever o seu novo amigo, estava muito longe de pensar que isso realmente aconteceria.

Estava só, na estrada principal para Padova e durante o dia. Tudo ao contrário do que o inglês lhe dissera para fazer. Um ótimo começo, sem dúvida… Isto não preocupava em absoluto. Seria de quem tivesse as melhores cartas. Ele também era um bom jogador.

Continuou caminhando para o Sul. Sempre na estrada principal. Chegou a Padova. Cidade importante, entroncamento ferroviário e de estradas de rodagem que derivam para Vicenza, Mestre e Veneza. Devia evitá-la, contornando-a. O inglês dizia que era assim. Mas ele não era da mesma opinião. Atravessou-a de ponta a ponta sem conhecer as ruas, na direção que julgou (e acertou) que o conduziria à saída da cidade, com destino ao Pó. Encontrou muitos alemães em seu caminho pela cidade. Não se preocupou com eles e eles tampouco com a sua figura. Havia muita gente esquisita vagando pelas estradas e cidades italianas. Considerou-se um destes. Já estava mais seguro de seu papel de italiano “sbagliato, ruvinato, destruto, mallato” e muitos outros adjetivos italianos que ele enrolava na sua história, mais enrolada ainda por sua língua ferida, mas que sempre lhe conseguia comida e lugar para dormir. Parece que sem atropelos atravessou Padova. Veio descendo rumo ao Sul, sempre pela estrada principal. Sujo, mal alimentado, barbado, com a língua inchada na boca, sua aparência era mesmo de um pobre italiano abandonando a cidade natal, em busca de outra em melhores condições, ou a procura de parentes que sempre dizia possuir. As estradas enchiam-se desses pobres coitados que, não mais podendo servir aos alemães em suas fábricas, ou outros trabalhos, procuravam suas casas, encontrando-as às vezes, quando ainda não haviam sido bombardeadas ou ocupadas. O êxodo era constante em todas as direções. Entre eles ia o nosso gaúcho caminhando para sua base. O dia do pagamento se aproximava e, assim, tinha que andar mais depressa.

Caminhando sempre, enfrentando situações delicadíssimas, privando com os estropiados das estradas, dormindo em estábulos mal cheirosos, mas que não o aborreciam muito, pois o máximo que poderia acontecer era ficar um pouco mais sujo, e o seu cheiro, também, há muito que não era o de rosas. Sempre pela estrada principal, deixou para trás Monsélice, Stanghella, Rovigo (cidade fortemente defendida e vigiada, em virtude de ali existir uma fábrica de um gás qualquer, que era usado como combustível em motores a explosão), Arqua e Polesella, até que finalmente encontrou o rio Pó.

De acordo com as declarações do próprio Índio, o Pó constituiu para ele o primeiro problema real, que, em princípio, lhe pareceu insolúvel. Com o inverno, o rio, ainda que não congelado, mantinha nas margens uma crosta fina de gelo, que era indício seguro da baixa temperatura das águas. As pontes há muito tinham sido bombardeadas ou danificadas, a ponto de não poderem ser utilizadas. Mesmo que existissem, de nada adiantariam ao nosso homem, pois estariam controladas por sentinelas, que em suas cabeças verificaram a documentação de identidade, o que o nosso gaúcho não possuía. Assim, alemães e italianos atravessavam o rio em balsas, identificando-se ao embarcarem. O problema pareceu-lhe sem solução. É, não havia mais jeito. Ali parecia ter sido inútil toda a caminhada do nosso companheiro. Grande parte da distância já havia sido vencida, e no raciocínio fácil do fugitivo só existia o rio, mais uns muitos quilômetros e uns montes, os Apeninos. Naquela situação, o gaúcho sentiu-se praticamente perdido, porém não se desesperou, confiando sempre na sua estrela, que não era pequena. Chegou até a margem do rio, avaliou a embrulhada em que se metera e resolveu não se precipitar. Subiu no barranco que marginava o Pó, observou o movimento, inteirou-se das balsas que cruzavam o rio e das sentinelas nos pontos de embarque. Ficou meio confuso. Sentou-se para melhor decidir o que fazer e para descansar, pois já caminhava com grande sacrifício havia alguns dias, em virtude de estar com os dois joelhos inchados pelo esforço de suas marchas. Um dos sentinelas, vendo-o ali sentado, disse-lhe alguma coisa em alemão. Não respondeu, não só por não haver entendido, como também por precaução. O soldado não deu importância ao fato. Considerou-o mais um italiano sem ocupação, um dos muitos que percorriam as estradas. Vendo-se notado, o nosso gaúcho achou melhor descer o barranco e voltar à estrada que marginava o rio.

Uma vez na estrada, procurou um lugar afastado no campo, para poder melhor descansar e tomar uma iniciativa. Encontrou. Deitou-se no capim entregando-se à resolução do problema. Contrariando os seus hábitos, pensou longamente. Era isso mesmo: "compraria um cavalo e como bom gaúcho atravessaria o rio agarrado ao animal". Animou-se um pouco. Teria que tentar o golpe à noite. Mas e depois? A água estava fria. Se tivesse êxito e se não congelasse na água, teria que esperar sua roupa secar, pois do contrário notariam que estava molhado, acarretando suspeitas. E explicações não poderia dar… Não. Não poderia cruzar o Pó daquela maneira gaúcha. A primeira solução era inviável. Tinha que achar outro modo para resolver a questão. O dia já ia a meio e sentiu fome. Levantou-se e começou a seguir a estrada marginal em direção a Oeste. Na primeira casa de camponeses que encontrou, pediu água e comida, contando a história de sempre, em mal italiano, atrapalhado por sua língua ferida. Com muito boa vontade, eles procuravam entendê-lo, considerando a infinidade de dialetos existentes, muitos dos quais grande parte dos nativos desconheciam. Talvez por esta razão, ou comovidos pelo estado lastimável do nosso patrício, aceitavam a história sem restrições. O nosso homem seguia mais ou menos a mesma seqüência na sua aproximação: primeiro escolhia pela pinta o paisá com menos aparência de fascista ou germânico, e então entrava com o enredo.

- Buona sera, paisá.




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