domingo, 18 de maio de 2014

DANILO, um grande herói brasileiro (parte final)

Um piloto brasileiro atrás das linhas inimigas



(Continuação da postagem do dia 16maio2014)





A CASA era tecnicamente muito grã-fina para partisanos. O Inglês frisara bem que era muito mais provável encontrar quem o ajudasse entre as pessoas mais simples, que, regra geral, constituía a maior parte dos partisanos ou da resistência. Mesmo que não o fossem, eram fascistas por necessidade, para se manterem nos seus empregos de acordo com a política da terra, e, muitas vezes, eram pessoas contrárias ao regime que vigorava na época. Pela pinta, aquela senhora nada tinha de partisan, muito pelo contrário, sua casa era das melhores da cidade, tudo indicando que era do outro lado. Mas a fome do gaúcho era maior do que a lógica e do que as razões do Inglês. O esfomeado olhou longamente para aquela senhora que, domesticamente, fazia o seu trabalho de agulhas. Talvez uma dor mais aguda no seu estômago vazio tenha feito com que decidisse pedir-lhe o que comer. Levantou a pesada bicicleta ao ombro e subiu os dois compridos lances de escada que o levariam ao segundo andar. A porta da moradia na qual pretendia bater já estava aberta, e nela a senhora, numa expectativa que ele não podia compreender, como que a sua espera. Desconfiado, no seu trôpego italiano um tanto brasileiro, parte “GI” (pouco instruído), e ainda conseguido com as primeiras vassouradas em Roma, dirigiu-se a ela com o mesmo refrão das vezes anteriores. Bem ou mal, ela conseguiu compreendê-lo, confessando-lhe mais tarde, que o italiano dele tinha sido o melhor que ouvira até então, da parte de quem a procurava. Ouviu toda a sua história cortesmente. Deu-lhe para comer o macarrão habitual e um colchão de palha que era tudo o podia oferecer, mas que era muito mais do que o gaúcho esperava. Disse-lhe a senhora que poderia ficar ali até o dia seguinte, e que à noite seu sobrinho chegaria do trabalho, não devendo se preocupar, mas não entrou em detalhes. Enfim, o Índio nada mais esperava do que comida e dormida, em segundo plano. Sentia-se capaz de passar mais outras noites ao relento frio do inverno. Sua caveira, mesmo não sendo do tipo muito recente, ainda satisfazia amplamente. No seu colchão de palha dormiu profundamente. Estava muito cansado para pensar, até mesmo para desconfiar daquela acolhida inesperada.

Na manhã seguinte foi acordado pelos seus novos protetores: a senhora e seu sobrinho. O rapaz queria ouvir sua história mais outra vez. Repetiu toda a sua lenga-lenga, agora muito melhor ensaiada que a ele já parecia muito boa e que a sua lingual mal cicatrizada muito cooperava. O sobrinho da boa senhora que o acolhera não interrompeu a narração. Ofereceu-lhe até mesmo um cigarro, daqueles lambidos, com uma dose de fumo suficiente para matar um cavalo, mas que o jovem italiano tirava enormes tragadas sem esforço, com prazer, e que ele, o gaúcho, apesar de não ver um cigarro há muito, não conseguia aspirar nem um pouquinho. Fumou como lhe foi possível. Ao terminar a sua conversa, o seu novo amigo, polidamente, vagarosamente, para que melhor o entendesse, disse-lhe que esquecesse tudo aquilo. De agora em diante, não precisaria contar mais aquela história. Uma vez mais, aquelas excelentes botinas americanas o traíram, para sorte sua. Finalmente tinha sido encontrado. “Encontrado!” Mesmo sem o admitirem, aqueles dois italianos o encontraram. Ficou decidido que ele permaneceria com os dois até o dia seguinte, quando o levariam à casa de uns outros “primos”, que eram partisanos. Ali sempre o próximo é que era partisan.


Na sua segunda e última noite na companhia daqueles “parentes” italianos, para encobrir e explicar a sua presença naquela casa, houve uma reunião a que compareceram os vizinhos para festejarem a chegada e a passagem do sobrinho que tivera a casa destruída por bombardeio em Ferrara, e que, em conseqüência ficara mudo. Comeu-se muita castanha assada e bebeu-se muito vinho tinto na festa em sua honra. Ficou bêbado, recolhendo-se ao seu colchão. Sua retirada foi desculpada e compreendida pelos presentes, que concordavam penalizados com o que lhe acontecera. Ao amanhecer, estava ainda azedo de tanto vinho, mas mesmo assim seguiram de bicicletas ao encontro dos “primos”, que eram partisans. Assim, o nosso colega foi entregue aos cuidados da organização que tanto ouvira falar, e que estava ficando descrente que existisse. O italiano deixou-o nas mãos daquela gente especializada, voltando ao seu ponto de atividade, onde sua tia voltara a fazer o tricô que, pela sua função, devia ter sido o mais comprido da guerra.

A organização, como todos já devem ter compreendido, compunha-se de pessoal altamente especializado, que conversava estritamente o essencial e fazia muitas perguntas, e, para segurança de seu trabalho, não devia cometer enganos. Tomaram todas as informações necessárias, confirmaram as datas, ouviram toda a história, desde a sua queda, quiseram saber os mínimos detalhes, o que contrariava muito o nosso herói, que na ânsia de atravessar a linha de combate julgava os homens exageradamente enrolados. Já lhes mostrara a sua chapa de identificação que consigo conservara, já lhes dissera quem era, de onde viera, o que voara, qual o objetivo naquela manhã em que fora abatido, enfim tudo o que realmente acontecera. Ingenuamente, sem avaliar o que conseguira realizar, não podia entender o porquê de tantas perguntas e confirmações. Para ele a sua aventura tinha sido perfeitamente realizável, mas os homens da organização estavam meio descrentes, naturalmente por ele ter contrariado basicamente, nos mínimos detalhes, tudo que a boa técnica aconselhava em matéria de fuga.

Os seus interrogadores estavam admirados com os processos utilizados pelo gaúcho. Para os ingleses nada daquilo poderia ter acontecido. O manual dizia justamente o contrário... Após muitas consultas e investigações pelos canais competentes, que não sabemos quais poderiam ter sido, o gaúcho foi dado como legítimo, dissipando-se as dúvidas. Nessa mesma noite foi transportado para outra estação de espera, bem mais avançada para o front, onde outros em igual situação já o aguardavam. Havia americanos, ingleses, italianos e agora um brasileiro. O único que a organização conhecera até então. Eram oito ao todo. Aguardavam refazerem-se fisicamente para a a próxima mudança de estação que seria gradativamente mais avançada.

Em deslocamentos sucessivos feitos à noite, moveram-se para a última estação, na fralda da cordilheira. Por alguns dias aí permaneceram esperando uma ocasião propícia, que ignoravam qual seria. Eles, por segurança, nunca lhes diziam coisa alguma. A ocasião esperada, propícia, chegou numa noite de violenta nevasca e frio cortante. Era a neve que aqueles homens incompreensíveis esperavam. Os guias italianos chegaram, formaram o grupo, misturando-os com algumas famílias italianas, que tudo indicava se prestavam àquelas aventuras em troca de remuneração, não sendo a primeira vez que o faziam, pois não demonstravam preocupação alguma.

Com duas pílulas contra cansaço, em outras palavras dopados mesmo, iniciaram a caminhada sem paradas. Em ritmo contínuo galgaram os Apeninos por trilhas de cabras, íngremes, sempre em fila indiana. As quedas e escorregões eram frequentes, mas não poderiam parar. Assim, no rigor de uma nevasca intensa, quando as sentinelas premidas pelo frio relaxaram a vigilância, conseguiram cruzar aqueles picos escorregadios, gastando catorze horas de caminhada sem descanso. Ao romper do dia seguinte, seus esforços foram coroados de êxito. Na manhã seguinte, descansavam na frente Aliada, entregues ao serviço de inteligência inglês, agora em uniforme. Foram separados, então. Não mais encontrou os americanos, nem os ingleses que com ele atravessaram as montanhas. Descansado, lavado, barbeado, bem alimentado, foi interrogado longamente pelos oficiais ingleses que anotavam todas as informações fornecidas pelo nosso herói, posteriormente consideradas como as mais completas trazidas por um fugitivo naquela frente. Quanto à sua história, foi ouvida com muito interesse por ser ímpar naquele departamento, mas nunca poderia ser utilizada para ensinamentos futuros de outros, por constituir uma quebra geral, quase absurda, de tudo aquilo que eles ministravam baseados em estudos e estatística.

Acabado o longo interrogatório, o gaúcho, muito aborrecido com os dois dias que passara em companhia dos interrogadores ingleses, foi devolvido ao nosso convívio em Pisa, numa tarde fria, como qualquer outra naquele hotel esburacado em que vivíamos. Celebrou-se a sua volta, esvaziando-se o que restava de nossas rações de uísque, logo substituídas pelo horrível conhaque italiano, que fez o mesmo efeito. Em meio a forte ressaca encerrou-se o capítulo mais heroico do 1º Grupo de Caça, realizado por aquele gaúcho simples, que sem pretensões tornou-se merecedor de toda a admiração dos comandantes aliados que o conheceram, de seus colegas e de seus poetas e fazedores de anedotas: o Tenente Danilo Marques Moura!



E ESTE é um de nossos muitos heróis. Mas um herói anônimo, um dos muitos heróis esquecidos nas páginas do tempo de nossa história do Brasil. Claro, se Danilo Marques Moura fosse norte-americano, sua história já teria dado um belo filme, sucesso de bilheteria.


Nós, brasileiros, precisamos valorizar mais a nossa gente, as nossas coisas, a nossa história, os nossos heróis.



Conteúdo extraído de http://antoniovalentim.wordpress.com/2011/03/15/a-saga-de-danilo-final/



DANILO casou-se com Maria Isolina Krieger e tiveram cinco filhos. Regina Maria, Gilberto, Reinaldo, Joaquim Pedro e Fátima.

Ao regressar ao Brasil, pediu baixa da FAB, sendo promovido ao posto de capitão-aviador e ingressou como piloto civil na companhia PANAIR do Brasil, onde serviu como piloto por muitos anos tendo chegado ao Posto de Master Pilot, voando como Comandante da aeronaves Constellation e jatos Douglas DC-8 e Caravelle, as aeronaves mais modernas da época. Danilo era extremamente bem humorado e era tido como um dos comandantes mais estimados de toda a frota.

Com as extinção da PANAIR do Brasil, foi ser fazendeiro na zona de Goio-erê (PR), onde produziu café, soja e menta e possuiu ainda respeitável rebanho bovino. Construiu seu pequeno império sozinho. Herdou dos pais o gosto pelo amanho da terra. Começou a nova vida de fazendeiro em 1962. Desbravou matas virgens com a mesma coragem e determinação com que agiu durante a fuga épica, ou voando em missões de guerra nos céus da Itália, ou pilotando pacificamente Constellations e DC-8 através da Atlântico.

Faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 14 de maio de 1990.



Texto adaptado do site:

http://www.sentandoapua.com.br/cgi-bin/biografias.pl?registro=BO-345

e do livro "Senta a Pua" do Brig Rui Moreira Lima. (Fonte)

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