segunda-feira, 19 de maio de 2014

MAIS um final de semana

É MAIS uma sexta-feira no Ceá. Dois mil alunos mais uma vez ali formados naquela tarde nebulosa que prenunciava uma chuva torrencial para talvez meia-hora ou menos. Trajavam o impecável quinto uniforme para a tradicional revista, leituras e avisos diversos.

Enquanto os sargenteantes e oficiais comandantes de esquadrão faziam a revista de uniforme dos seus respectivos comandados, o adjunto ao Ceá lá em cima na sacada do prédio da Tarjeta Azul chamava a atenção de um dos alunos, que se mexia:

- Não se mexe, guri!!!

Feita a leitura do boletim e dados os avisos e recomendações de praxe, o adjunto ao Ceá, capitão Nunes Reis, fez uso do microfone. 

- Atenção, corrrrpo de alunos! - Começou o gordo adjunto com seu vozeirão de cantor de rádio, fazendo destacar os erres. Falava dos atos de indisciplina ocorridos no Ceá durante a semana, destacando o caso de um aluno que informou ao anotante um número inexistente na tentativa de livrar-se da punição certa. De nada adiantou pois foi mais tarde reconhecido, para o agravamento da sua situação. - Isso é falta de hombridade!!! Não podemos admitir tamanha falta de ética num futuro sargento da Aeronáutica, alguém que vai fazer a manutenção de uma aeronave, alguém que vai escriturar o nosso pagamento, alguém que vai cuidar dos nossos doentes, alguém que vai controlar nosso tráfego aéreo... Como vamos confiar num profissional assim? - continuava o Sapão, naquele sermão interminável, uma tortura que prolongava por mais tempo a permanência incômoda de todos em posição de descansar correta e imóveis ali no grande pátio do Ceá. Mandou ler a sentença dada ao infeliz aluno que carecia de hombridade, cabendo-lhe a rigorosa pena de vinte dias de detenção, ficando ele pela bola sete, ou seja, qualquer pentelésimo de punição a mais e seria impiedosamente desligado por indisciplina.


Finalmente, dado o fora-de-forma, os de São Paulo e Rio de Janeiro, em sua grande maioria, seguiram para a alameda onde já aguardavam estacionados os respectivos ônibus fretados pela Sociedade dos Alunos. Os demais, de origens diversas, alguns dirigindo-se ao ponto de ônibus para pegar o Pássaro Marrom com destino a Guaratinguetá, outros indo para o cassino ler, ver televisão, jogar um dominó ou praticar tênis de mesa, outros simplesmente tornando ao seu alojamento para descansar. 


Ônibus fretados para Rio de Janeiro e São Paulo aguardavam a alunada

Em geral, todos os do Rio de Janeiro, mesmo que não da capital (aliás, mesmo quem morava em Parada de Lucas fazia questão de considerar-se carioca), viajavam para ficar ao seio de seus familiares, exceto naturalmente os que tinham algum impedimento, disciplinar ou funcional, como os escalados de serviço na sexta-feira, no sábado e no domingo ou os que tinham punição disciplinar a cumprir. 

Havia, entretanto, a uma honrosa exceção. Era um carioca (fluminense, na verdade) que jamais viajava, preferindo invariavelmente usufruir da tranquilidade em que se transformava o Ceá nos finais de semana. Pontes, do Estado do Rio, não me lembrando agora de qual cidade, jamais viajava para rever seus familiares, a não ser na época de férias escolares, e assim mesmo, provavelmente, a contra-gosto. Padre, como era chamado por alguns, tampouco ia à cidade, permanecia na Escola com uma inseparável apostila nas mãos. Sujeito tímido, pouca conversa, com óculos fundo de garrafa vivia sempre às carreiras, mesmo quando não estava atrasado. Inseguro, inseguro não, eu diria que o Padre vivia  na verdade sempre em pânico, sempre a temer a guilhotina do desligamento do curso, daí agarrar-se firmemente aos estudos. Buscava superar assim com essa vontade férrea a sua dificuldade. 

Foi por causa dessas características tão peculiares, no conjunto da obra, que alguns alunos lhe deram o apelido de Padre, ele que nem católico devia ser. O Almeida Silva, que era um gaiato por natureza, não perdia oportunidade de zoar com o pobre do Pontes:

- Seu Padre, vamos à cidade, Seu Padre! Gastar esses quinhentos cruzeiros de adiantamento.
- Não dá.
- Seu Padre, vamos à cidade pegar gente, Seu Padre!
- ... (Pontes dava um sorriso amarelo de timidez) Tenho de estudar Matemática.
- Mas Seu Padre, vai dizer que aquele triângulo isósceles, que tem a mulher, não tem tudo a ver com Matemática?

É claro que Almeida não falou exatamente com essas palavras, tendo ido direto às palavras mais chulas e bastante conhecidas de todos. Esse era o Almeida Silva, sempre com suas tiradas de ocasião, o meu vizinho de armário, algumas bem bobinhas. Quase todo dia ele tinha alguma brincadeira:

- Quinzesetequatro, porque a terra é virgem? - E antes que eu respondesse, ele mesmo completava - Porque a minhoca é mole. - E dava uma gargalhada.
- Quinze Setequatro, porque a floresta é virgem?
- Porque a minhoca é mole. - respondi dessa outra vez.
- Errado. Porque o vento é fresco.

Outra vez Almeida me deixava embaraçado.

- Quinzesetequatro, o que é que a mulher dá pra qualquer outro mas não pode dá pro marido?
- ... (dei uma risada) Sei lá!
- O afilhado. Já tava pensando bobagem, né Quinze?!

Dessa vez Pontes tinha razão. Na semana seguinte era a vez da terrível Matemática, que para alguns era a melhor matéria, mas para mim e para outros igualmente de base frágil nessa ciência, como o amigo Pontes, a ciência de Pitágoras era um bicho-de-sete-cabeças. Ainda assim, contrariando o bom senso, que no meu caso era quase nulo, teimosamente resolvi sair naquela sexta. A minha estratégia era a de sempre: sair na sexta e deixar o sábado e o domingo para os estudos. Sim, é o que eu faria; afinal, não era de ferro. Tomei o Pássaro Marrom.

Uma vez na cidade, depois de passar lá na loja do Romero Dias para a pôr o traje paisano, dei algumas voltas sem rumo, passando obrigatoriamente pela errepeeme na esperança de ver a Maria do Ceá, e quando dei por mim estava já escuro, talvez oito da noite. A chuva que antes ameaçava um terrível aguaceiro, rumara em direção a Lorena ou a alguma outra cidade próxima, resolvendo quebrar o galho da alunada; fazia uma noite de luar, malgrado a friagem natural. Seguia eu pela rua do bar da portuguesa, quando vi uma turma; o Brito Souza, o Formoso e mais uns três, que me acenaram; entrei. Crédito à vontade, e o findu era a senha da casa, o que fazia do estabelecimento o campeão de audiência de todo o Ceá. E desce uma cerveja, depois mais outra...

Lá pelas tantas, não sei como, retornei à Escola, chegando à nona esquadrilha depois do toque de silêncio. Deitei de quinto uniforme e tudo. 

Deus ajuda os inocentes, as crianças, os loucos e os bêbados. 


As pessoas iam chegando aos poucos, alguns por piedade sincera, outros por mera curiosidade ou uma espécie de obrigação. Primeiro os alunos, depois os sargentos e os comandantes, e, por último, os familiares e o padre. Orações, lamentos, choros; chegou mais tarde o Caveirinha, que comandava a salva de tiros. O corneteiro tocava algo fúnebre, que fazia descer as lágrimas de quatro ou cinco mulheres. Abri os olhos e nada via, estava escuro, somente ouvia, mas podia visualizar por meio das vozes aquelas pessoas em volta de um caixão. Reconheci-me naquele defunto; sim, era o meu cadáver ali. Não, eu não podia estar morto. Mas todos achavam que eu tinha morrido. Não! Não! Me tirem daqui. Eu não morri, seus putos! Me tirem dessa escuridão! Não me enterrem vivo, esperem eu morrer primeiro!!! Não tenho nem dezoito anos! - Gritava assim, batendo desesperadamente na tampa do caixão, que na verdade era a lona do beliche, para debaixo do qual eu havia rolado depois de cair. Acordei a todos no alojamento. Ouvia ao longe o som de uma sirene, e de repente as pessoas em meu redor estavam de branco. Estaria eu no céu?

Meu fígado nunca foi bom. Por muito tempo fui razão de piadas por causa daquele pesadelo.


"A LIBERDADE para avançar a oportunidades novas e produzir resultados vem de viver no presente, não no passado." Brian Koslow

"AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado."
(BLOGUE do Valentim em 21set.2011)

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