domingo, 25 de maio de 2014

O PIOR estava por vir

ACORDEI num leito de hospital, com um dos braços ligado a um frasco de soro. Foi quando fiquei sabendo que estava hospedado ali devido à ingestão excessiva de bebida alcoólica. Traduzindo: tomei um tremendo porre. O aluno-de-dia chamou a ambulância. Isso explica o som de sirene que ouvia durante o pesadelo. Como consequência da embriaguez, caí da cama e rolei para baixo dela e toda aquela escuridão sugeria para mim um caixão, dentro do qual eu fora posto ainda vivo. Dias antes havia visto na tevê o que ocorrera cinco anos antes ao ator Sérgio Cardoso, que estaria revirado no caixão quando as autoridades decidiram reabrir o ataúde diante das suspeitas da família de que o ator teria sido sepultado com vida. Foi um pesadelo simplesmente horrível, mas não comparado ao sofrimento infligido ao infeliz ator.

Recebi a visita do Martinelli, que assim demonstrava ser um amigo de todas as horas. O capelão também foi-me visitar, aproveitando para me dar alguns conselhos. Jamais me esqueceria disso.



Chegava o dia da prova de Matemática

Graças à minha irresponsabilidade, o plano de usar o sábado e o domingo para estudar Matemática tinha ido por terra. E naquele estado em que encontrava nada eu podia fazer, a não ser torcer para me darem alta a tempo de me integrar à rotina de segunda-feira, e depois, naturalmente, aguentar a zoação da turma. E olha que a zoação da turma ainda estaria de bom tamanho comparada ao sentimento de culpa que me atormentava a cabeça pelo fiasco apresentado. Grande mico; micaço.

Mas o pior ainda estava por vir.

Chegara, finalmente, o dia 'D'. O friozinho na barriga, comum a qualquer prova em razão do desconhecido, parecia nessa ocasião mui especial em mim multiplicar-se (para usar uma expressão matemática numa espécie de homenagem irônica à matéria cujo primeiro teste naquela manhã aconteceria). O pesadelo da madrugada de sexta para o sábado apresentava-se a mim, naqueles instantes que antecediam à prova de Matemática, como um inofensivo gatinho frente a um imenso e faminto tigre, uma fera que eu não tinha outra saída senão enfrentá-la. 

Ora, convenhamos, o sábado e o domingo anterior, ainda que fossem plenamente aproveitados para a Matemática, mesmo assim resultariam insuficientes para deixar-me minimamente preparado e confiante para aquela batalha fatídica. Agora era tarde; por imprudência ou falta de experiência de vida, deixei tudo para o tal fim de semana, quando o Martinelli iria me dar uma força em Álgebra e em Geometria. Os sábados e domingos anteriores, as cepadas no campo de futebol, no cassino, na capela, na cama antes de dormir, também não me davam a suficiente  segurança para alcançar, pelo menos, a nota mínima. Agora, nenhum tempo mais me restava ao não ser encarar o tigrão. 

Confiança! - Animava-me o Martinelli. - Força, Quinze! - Dizia-me o Brito Dias. Eu agradecia aos amigos pelo ânimo. 

O sargento dava as orientações prévias, como de praxe, dizendo as palavras que já conhecíamos de cabeça. A prova estava ali, na carteira, de costas para mim. À ordem do fiscal, viraria o teste e só então estaria autorizado começar a resolução do mesmo. 

Conforme o que nos era recomendado, começaria resolver primeiro as questões fáceis para depois tentar resolver as difíceis. Numa primeira vista, tive a impressão de que o tigre não era assim tão brabo como eu temia. 

Continuei a ler as questões e infelizmente a impressão de que não eram difíceis foi apenas impressão. Fui lendo as questões, uma a uma. Da primeira passei para segunda, que ficou também em branco à espera de uma luz. Somente na oitava questão, que era de Geometria, me animei a resolvê-la; a nona, também resolvi. Das trinta questões eu me garantiria com dezoito, mas, correndo daqui e dali, segurança mesmo tinha somente em dez, talvez onze. Era muito pouco. Tinha de resolver mais sete, pelo menos, o que me daria a nota seis. Não, eu não poderia entregar a prova com somente onze questões respondidas.

Voltei às sete primeiras questões que deixara em branco na esperança de achar resposta para três ou quatro delas. Era possível que sim; consultando o relógio que estava à parede, constatei que ainda faltavam vinte minutos para o término da prova, findo os quais, ser-nos-iam dados mais cinco para o preenchimento do formulário de respostas. As questões estavam complicadas e não me animava nem ao menos eliminar duas de quatro, pois com duas que restassem ficaria mais fácil chegar à verdadeira. Tentei a tática de aplicar as respostas ao problema, invertendo a resolução. Aí teria de contar com a boa sorte, pois se a resposta certa fosse a 'A' ou a 'B', ganharia tempo, sem me preocupar com as 'C' e 'D'. A primeira questão estava fora de alcance, a não ser que desse muita largura no chute, pois nem a fórmula do problema eu lembrava. Decididamente, eu não era um bom chutador. Fui à segunda, e nessa eu sabia da fórmula, mas me embatuquei no meio da operação com a troca de um sinal, não lembrando se era negativo ou positivo. Então, fui à resolução inversa, explorando a alternativa 'A' para ver se dava no problema proposto no enunciado da questão 2. Não era a 'A', então bem que poderia ser a 'B'. Mas também não era essa. Olhei à parede e o ponteiro grande corria; era o tempo que conspirava contra o aluno despreparado - pensei. Aumentava-me a transpiração e o coração me parecia bater mais forte. A resposta 'C' daquela questão encaixou bem, mas não lucrei muito porque, por questão de eliminação, em caso de não ser esta a correta, somente restaria a 'D' para não me preocupar; também perdi muito tempo aí. Agora iria à seguinte, que resolvi pular, passando à quarta questão. Nessa tive melhor sorte, pois a resposta 'A' encaixava-se plenamente à problemática enunciada. Legal, desta vez ganhei tempo. Fui à próxima, que tratava de calcular a área de duas circunferências inscritas numa terceira, ou melhor, tinha de calcular a diferença de área das duas circunferências em relação à terceira, a maior delas, e essa resolução envolvia vários cálculos. Muito complicado, pulei, mas aí perdi bastante tempo até chegar à conclusão de que não dava. Que droga! Por que não passei direto à questão seguinte? Faltavam somente dois minutos e o sargento me tomaria a prova; estavam na sala somente eu e mais um outro aluno (não me lembro o nome dele, pois o olhei de relance temendo que o sargento interpretasse esse gesto com o ato de colar). Fui então pelas probabilidades, fazendo uma continha rápida; das respondidas com segurança - quinze - seis delas a alternativa certa era 'C', depois a 'A', que aparecia em quatro questões, a 'B' também em quatro questões, e 'D' em apenas uma questão. Era grande portanto a tentação de chutar simplesmente a alternativa 'D' na maioria das questões remanescentes, de sorte que, pela lei da lógica, haveria ainda mais umas cinco ou seis letras 'D' como resposta nessas questões. O meu raciocínio era simples: se eram quatro alternativas, e o número total de questões era trinta, então logicamente dava uma média de 7 e meio para cada uma delas. Estavam certamente distribuídas de forma que existiram naquela prova sete ou oito 'A', das quais eu já tinha achado quatro; oito ou sete 'B', das quais quatro eu tinha certeza; sete ou oito 'C', das quais seis já estavam encontradas; e oito, sete ou seis 'D', das quais somente uma eu havia encontrado entre as quinze questões respondidas com segurança. Consequentemente, decidi, sob risco calculado, atribuir a alternativa 'D' como resposta de quatro questões que faltavam responder.

Que fosse o que Deus quisesse. Contava com a bondade divina que costumava me agraciar em situações difíceis. E aquela certamente era uma situação difícil.

Preenchi cuidadosamente o formulário de respostas e, faltando um minuto para a o término do tempo, chamei o sargento.


"Devemos aprender a viver juntos como irmãos ou perecer juntos como tolos." Martin L. King

AMAI-VOS uns aos outros como eu vos tenho amado.

(com base no BLOGUE do Valentim, postagem de 23set.2011)

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