terça-feira, 27 de maio de 2014

PERDERAM um cliente

QUANDO tudo parecia correr às mil maravilhas, eis que o aluno Quinze Setequatro é surpreendido com tal problema. E que problemão! Não bastassem a dificuldade nos exames, agora essa de ser acusado de uma arruaça que não praticara. Quanta injustiça! Acusado e punido sumariamente sem nenhuma chance de defesa. Uma só cópia de folha de caderno valia mais que a minha palavra proferida mil vezes. A dona do bar não estava disposta a levar prejuízo diante da impossibilidade de identificar os brigões. Mais fácil seria imputar a um aluno, cujo comandante certamente mandaria fazer carga no salário, de nada resolvendo este jurar inocência. Um grande ato de covardia, decerto. 


Os alunos de minha esquadrilha se dividiam quanto à minha culpa ou inocência no caso. Uns, em razão da minha fama pela embriaguez, o pesadelo e a baixa ao hospital do semestre anterior, achavam que eu realmente havia me envolvido na briga. As razões? Ninguém as sabia, mas devia ter uma. Quem te viu, quem te vê. Chegou à Escola tímido, raquítico como dizia o Martins, agora, que ganhou massa muscular, já deu até para brigar. Muito bem, Quinze! Vibrei. Eu também não gosto desses caras. - dizia um, que passava por mim no corredor da Deí. Para esses, que eram a maioria, de nada adiantava jurar minha inocência; eles apenas aceitavam com naturalidade a minha atitude de defesa, era lícito defender-se. Para outros poucos, eu estava sendo vítima, estaria levando a culpa justamente por ser aluno, um forasteiro em Guaratinguetá, um cara que estava a concorrer com os rapazes da cidade. Um terceiro grupo não dava a mínima, tão indiferentes às tragédias individuais que nem a prisão de Pontes fora capaz de fazê-los indignar-se. Era a vida que seguia.

Mas, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, eis que o socorro viria de onde menos se esperava. O meu drama chegou ao conhecimento do sargento Cunha Pinto. Mostrando seu lado gente-boa, resolveu me ajudar. Contei-lhe da suspeita de que aqueles sargentos que eu vira numa outra vez conversando podiam saber de algo. Prometeu-me que iria falar com eles, fazer o possível para elucidar o caso; poderia tirar-me daquela enrascada.

Enquanto isso a vida seguia seu curso normal no Ceá.

Naquele semestre iria acontecer o 11º Ficca, festival interno da canção do Ceá. Alguns colegas estavam inscritos no certame. Quantos dotes artísticos estavam ali escondidos naqueles jovens; jovens esses que, tendo oportunidade, estivessem na hora certa e no lugar certo, certamente brilhariam no cenário musical brasileiro, fazendo fama e fortuna. Em se tratando de dom artístico e de talento esportivo, não basta ser bom, tem que ter estrela, além de padrinho. Quantos jogadores de futebol, escritores, atores, comediantes ou cantores não dariam alguns daqueles jovens, que, não trocando o certo pelo duvidoso, optaram por seguir a carreira militar? 


O Ficca quebrou nossa rotina naquele semestre
A esposa do comandante da Escola fazia parte do juri. O aluno Alberto foi o grande campeão com a música "A procura da paz", ficando o segundo lugar para o colega Alvarino, com a música "Esperança". O talentoso Alberto também levou o terceiro lugar com a música "A esperança não é um lamento". O evento ocorreu na Sabap, sociedade amigos do bairro do Pedregulho. Segundo os mais antigos, nunca se vira nos festivais anteriores público tão numeroso e entusiasta. Um ano depois viria a ocorrer as olimpíadas do Ceá, que se disputavam a cada dois anos.


Cumpria resignado os dias da punição injustamente imposta. Eis que num final de tarde, chamaram-me novamente ao comando da esquadrilha. Deram-me a notícia que já esperava, em razão da ajuda prometida pelo sargento. Nada seria descontado do meu salário, tudo não passou de um lamentável engano. Não sei porque mas não fiquei satisfeito com isso, afinal o sofrimento pela injustiça não tinha como ser apagado. Bem mais tarde, só mais tarde fiquei ciente inteiramente dos fatos que se seguiram após o meu pedido de ajuda: Cunha Pinto foi até ao bar, escondia sob a roupa um mini-gravador de voz. Conseguiu em conversa informal, entre uma pinga e outra, que um dos funcionários revelasse a verdade. Aquilo era já uma prática comum, não só lá, no bar da portuguesa, como em vários outros botecos similares da cidade. Em caso de prejuízo material, era só escrever ao comandante da Escola informando que fora obra de aluno da Escola. No meu caso, a mentira ficou facilitada pela cópia da folha de caderno do findu. Estava lá o meu nome, número e assinatura. Não tinha como amargar o prejuízo, era só pôr a culpa no aluno.

Fiquei imensamente grato ao sargento, recusando-me a partir de então a chamá-lo pelo apelido. Percebo hoje quanta gente  que passa, ao longo deste estágio que chamamos de vida, pelo nosso caminho a nos ajudar, a nos dar a mão amiga, fazendo o bem sem olhar a quem, como diz o dito popular. Em consequência a punição foi anulada, e minha ficha disciplinar refeita. No entanto, aquele trauma, que me permaneceu indelével na memória, deu-me a lição, e, a partir de então, excetuando ter ido ao local para saldar o débito, apagando aquela famigerada folha de caderno, nunca mais pus os pés no boteco. Não mereciam a honra da minha presença, tampouco receber de mim os cruzeiros que recebia de soldo com suor e lágrimas naquela Escola. Além de amargarem o prejuízo do quebra-quebra, perderam um cliente, e um bom cliente. 

Noutro dia a anedota era sobre um tal Benedito Fernandez, um primeiro-sargento velho. 
– O cara era tão falador, fofoqueiro, que não parava em unidade nenhuma. Vivia sendo transferido como castigo. Era de Manaus pra Belém, Belém pra Salvador,Salvador pra Porto Alegre... Uma vez em Anápolis, ele em companhia do chefe, um major especialista, no hangar, fez o seguinte comentário: "Mas meu chefe, eu estou preocupado com o tenente Loureiro. Por que, Benito? – quis saber o chefe.– Veja bem, não seria melhor mandar uma ambulância? – deixe de rodeios. – É porque faz dois dias que ele não vem trabalhar, meu chefe. Será que ele não está doente?" O apelido do Fernandez era Santelmo, aquele que não sabia mentir.

Esse era um Cunha Pinto que, por não o conhecermos, temíamos. Contava agora mais uma vez das suas anedotas, coisa que dantes somente o fazia entre os sargentos. De pouco tornara-se hábito ele contemplar também os alunos, os alunos da minha turma, levando-os às gargalhadas. Tudo era uma forma de tornar menos duros aqueles dois anos. No meu conceito, Cunha não era mais temido, simplesmente era respeitado. Essa diferença de conceitos eu levaria para a minha vida inteira, militar ou não.

Não obstante, o tempo corria celeremente. Ao cabo de algumas semanas, já estaríamos sendo chamados para escolher a especialidade. Seria o ofício rotineiro que nos viria a acompanhar por mais 28 janeiros, pelo menos. 

LIBERDADE é uma palavra que o sonho humano alimenta. Não há ninguém que explique e ninguém que não entenda." Cecília Meireles


(postado originalmente no BLOGUE do Valentim em 28out.2011)

Embora baseado em fatos reais, os nomes citados são fictícios.

4 comentários:

  1. Sin libertad no somos nada, la injusticia duele y si es contra uno más, saludos

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  2. Sí, amigo Silvo. Sin libertad no somos nada en este mundo. Saludos

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  3. Meu prezado Valentim
    Não sei se vc conhece o www.reservaer.com.br Se não conhece, apareça por lá e escreva esses causos em suas interativas.
    Abraços.

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