segunda-feira, 16 de junho de 2014

AINDA vão descobrir um jeito da gente apagar o erro sem deixar marcas

DIFERENTE de alguns colegas da especialidade de Escreventes, eu não sabia datilografar. Máquina de escrever para mim passou a ser naquelas primeiras aulas um ser assustador, um monstrengo a desafiar-me fazendo caretas e a mostrar-me a língua de forma zombeteira. Dos vinte alunos da especialidade uns quatro ou cinco, antes da Escola, haviam sido cabos ou soldados datilógrafos, daí a máquina de escrever não significar para eles dificuldade alguma, ao contrário do que era para a maioria.

Como o mais difícil tínhamos vencido, não seria nenhuma Remington ou Olivetti que nos afastaria da tão sonhada insígnia de terceiro-sargento. Com luta, venceríamos. À medida em que catava milho e gotículas de suor me escorriam da testa, olhava eu de soslaio ao colega de lado que este seguia desenvolto com às mãos firmes sobre o teclado e os dez dedos céleres a teclar as letras, um dedo para cada grupo delas, como era ensinado. O seu dono a olhar somente para a folha de papel com as letras e palavras a serem escritas. Não era permitido olharmos para o teclado da máquina. Essa era a orientação, de forma que a datilografia saísse rápida sem que o datilógrafo perdesse tempo olhando para o teclado da máquina e também para o próprio papel datilografado. Esse era o segredo da destreza do bom datilógrafo.

Para não fugir à regra, iniciei inseguro. Aquele treco parecia mais difícil do que eu imaginava. Olhava para os outros e a maioria destes parecia não sentir tanta dificuldade. Ou seria impressão minha? Fui insistindo, primeiro procurando memorizar os dedos e suas teclas: o mínimo da mão esquerda no "Q", no "A", no "Z"; o polegar da direita no "N", no "J", no "I"; a maior das teclas, a de espaço, ficava a cargo dos dedões. Procurava ser disciplinado, embora no início com alguma lentidão (muita lentidão, na verdade); isso era normal, segundo dizia o sargento que ministrava as aulas; depois, com o tempo, o aluno adquiriria a necessária destreza. Era o que eu esperava, foi o que eu fiz.

Outras instruções vieram também, todas teóricas, que seriam mais tarde complementadas com um pequeno estágio ali na Escola mesmo. O futuro sargento escrevente deveria estar apto a exercer todo tipo de funções administrativas, podendo ser secretaria, finanças, pessoal, rancho, estatística, segurança e justiça ou até mesmo a rotina dos gabinetes; podia servir tanto em algum destacamento do interior quanto no Gabinete do Ministro, em Brasília; tanto podia ser chefiado por um aspirante quanto por um tenente-brigadeiro; deveria ter condições de se encarregar tanto de um grande efetivo quanto ser ele mesmo seu próprio encarregado. 

Ao mesmo tempo corria a rotina da Escola, no caso do Corpo de Alunos e da Divisão de Ensino. Ainda que não pensássemos nisso, envolvidos que estávamos pelas atividades teóricas e práticas especializadas e também pelas instruções militares, era questão de alguns meses apenas a formatura, o nosso objetivo daqueles dois anos. Claro, para nós sempre havia o risco de sermos desligados do curso - pequeno para uns, grande para alguns outros. A especialidade de eletrônica, por exemplo - que era conhecida naquele pela estranha sigla de Q AT RA MR - era a mais perigosa, exigindo muito do aluno, e de onde, infelizmente, saíam vários alunos desligados. Um deles - eu bem me lembro - era o Rios. Foi desligado na terceira série, voltou novamente na próxima primeira série, quando a minha turma já estava na quarta. Rios não quis mais saber de eletrônica, preferindo sair bombeiro de aeroporto, Q AT BO. "O importamente é sair daqui sargento", dizia ele.

Mas o doutor Qwerty constituía-se naquele tempo para mim numa real ameaça, mais uma das outras já vencidas. A máquina era um obstáculo que se interpunha entre mim e aquelas insígnias, um grande obstáculo, mas não intransponível. No entanto, eu nessas ocasiões relembrava das sábias palavras encorajadoras do professor de educação física. Se errava alguma letra ou algarismo, não tinha como apagar sem deixar vestígios (bem diferente de hoje, quando basta deletar e refazer o certo). Cada erro era ponto descontado, resultando em nota baixa. "Ainda vão descobrir um meio da gente apagar o erro sem deixar marcas", viajava eu. "Você é louco, isso é impossível", respondia-me um colega. "Também diziam que era impossível alguém fabricar um objeto que voasse, e nós estamos aqui justamente por causa do avião", tornava eu num argumento otimista irrefutável, mas que de início me pareceu simplista demais. Aos trancos e barrancos e a ajuda do sargento Coelho, eu e mais três colegas fomos vencendo aquelas teclas. Sargento Coelho: Deus coloca as pessoas certas no nosso caminho; também devo muito a esse sargento cearense, baixinho e cabeçudo, que, à véspera da prova final e decisiva, nos dera previamente o texto a ser datilografado naquela ocasião. Nada de irregular, ninguém lesado, nem o sistema prejudicado; ao contrário, a permanência nossa na Escola significava economia para a União àquela altura do campeonato.

Fizemos boa prova, conseguindo nota maior do que a necessária. E nem aquele relojão lá na parede, que antes nos metia medo com o tic-tac dos seus ponteiros, nos amedrontou.

Em breve terminaria o semestre. Fomos promovidos ao quarto semestre, última etapa do caminho. Sem nenhuma baixa.




O entusiasmo é o pão diário da juventude; a prudência, o vinho da velhice. Pearl Buck

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