quinta-feira, 26 de junho de 2014

AZAMBUJA em Cachimbo (1ª parte)

MUITO repercutiu entre os colegas da Aeronáutica o infortúnio que ocorreu com o Primeiro-sargento Azambuja, Juvenal de Azambuja, quando servia em Cachimbo, sudoeste do Pará. Circularam em Brasília as versões mais variadas, predominando as que atestavam o acerto da decisão do comandante na época. Alguém assim como ele só podia ser um cínico, e algo de ruim certamente teria feito, quem sabe algum ato de indisciplina ou até mesmo uma falcatrua abominável, de maneira que seu afastamento sumário da Unidade fora atitude acertada - diziam. 

De outro lado, surgiram teorias que sentenciavam a injustiça do afastamento intempestivo do sargento, enquanto havia outras tão inconsistentes, incompletas, incertas, como que propositalmente a deixar o desfecho do caso a cada um que a escutasse. 

Houve ainda um grupo -- uma minoria, diga-se -- que o acusava de ter-se comportado forma inerte, acomodada. Azambuja, para esses, deveria ter levado o caso às últimas consequências, não se conformando com a injustiça e a arrogância, que prosperaram aí, levando-o a irreparável prejuízo moral e financeiro, tendo este último aspecto para muitos predominado sobre o primeiro. O Primeirão tinha necessariamente de ter dado um soco na mesa, e quando, mais tarde, foi promovido a tenente, deveria ter voltado à Unidade e provocado alvoroço e incômodo com a sua presença entre aqueles que antes  haviam contribuído para o seu injusto afastamento da Unidade.


E, finalmente, ainda houve quem associasse ao problema ocorrido com Azambuja todas as complicações funestas que sobrevieram ao comandante, o coronel Camboim, Asnam de Souza Viriato Camboim, culminando com a perda de comando e o fim precoce de sua carreira. Durma-se com um barulho desses.

Eu discordo de qualquer uma dessas teorias, boatos, na verdade; mesmo das favoráveis a Azambuja, porque estas, assim como as outras, se apresentavam invariavelmente exageradas e artificiais. Todas as teses, até as mais aproximadas à verdade, foram necessariamente produto de especulações, quaisquer delas com base na aparência - também da aparência do Primeirão, melhor explicando. É uma forma de preconceito disfarçado, involuntário. As aparências enganam, como diz o dito popular, e quem vê cara não vê coração. 

E é para dar um basta nos boatos e fofocas que foram disseminadas em consequência, que venho registrar a verdade, não menos que a verdade.  Hoje poucos comentam o fato, mas a imagem que ficou na cabeça de muitos não condiz com a realidade dos acontecimentos. Eu fui testemunha ocular do caso, além de ter convivido com o Primeirão, e posso afiançar a grande injustiça de que foi vítima Azambuja. Não por ser amigo daquele sujeito caladão com quem eu, diferente da maioria dos colegas da Unidade, simpatizei desde o começo. Essa característica, o fato de ser um cara que não falava muito, dava a muitos a falsa impressão de ser Azambuja um sujeito antipático, um cara arrogante. Seu cenho franzido agravava essa sensação, dando a muitos a ideia de que vivia sempre zangado. Nada disso. Posso afirmar sem medo de errar que seu jeitão peculiar se devia à timidez e à modéstia, não sabendo eu dizer qual das características prevalecia em sua personalidade. 

Muito peruei para servir naquela Unidade longínqua, onde a gente ficava destacado a metade do mês e os outros quinze dias na sede, Brasília. Consequentemente o efetivo era dividido em duas partes, ocorrendo um revezamento a cada quinzena, quando um C130 vinha do Rio de Janeiro e levava uma das metades do povo, para, chegando em Cachimbo, resgatar a outra parte, em substituição. Quinze dias após, o mesmo processo se repetia. A despeito da distância da família e das condições inóspitas daquela localidade amazônica, financeiramente compensava. Recebíamos em torno de dezoito salários ao ano, em vez de treze, e esse detalhe era o que realmente nos interessava. Idealismo, patriotismo, militarismo e outros ismos, tudo o mais era apenas um detalhe que não nos influenciava tanto.

Havia chegado à Unidade cinco anos antes. Três anos depois chegava Azambuja, primeiro sargento antigo, estacionando seu fusquinha 72 no pátio. Foi, em razão das recomendações que haviam seus chefes anteriores feito ao comandante, coronel Bieniak, Alberto de Sousa Bieniak, nomeado como encarregado da Seção de Pessoal, a SPM. 

Lembro de seu primeiro dia entre nós, quando instado a nos dar algumas palavras. "Não é o comandante nem os oficiais, tampouco eu, o encarregado, o elemento mais importante em um setor de trabalho, seja ele qual for, uma oficina, um almoxarifado, uma seção administrativa..., o elemento mais importante, sem o qual nada funciona, é você...". Entre outras, que ele falou e eu esqueci, ficou-me na memória também esta: "Por trás de cada documento, uma parte, um requerimento, uma solicitação verbal, existe um ser humano que precisa de que você trabalhe e providencie aquele pedido; aquele não é apenas um papel..."

A SPM, no caso da nossa Unidade, era uma espécie de ajudância, local a que todos, soldados, cabos, sargentos, suboficiais, oficiais e alguns servidores civis, acorriam em busca de soluções administrativas as mais variadas, geralmente procurando adequar os direitos e deveres à cada situação individual, conciliando essas necessidades com o calendário de substituições. Se um período de férias precisava ser adiado ou antecipado, se uma publicação em boletim necessitava ser executada em tempo, se alguém tinha de fazer uma viagem para visita a algum parente ou por qualquer outra razão, ou outro motivo que fosse, era lá, na SPM, que todos se socorriam, e o nome de que todos se lembravam era um só: sargento Azambuja. Eu, sargento novo, estava ali servindo como um mero ajudante, limitando-me a fazer a parte de datilografia, além de cuidar do arquivo, e assim ia procurando fazer o meu possível para que a tarefa dele fosse realizada com menos atropelos. A Unidade era peculiar, vez que, como já adiantei, só contávamos com a metade do efetivo, e esta razão demandava ordens e acertos tendo em vista o bem-estar de todos e de suas respectivas famílias, sem que isto pudesse prejudicar a missão, e qualquer erro ou omissão poderia acarretar sensíveis prejuízos. O desempenho profissional de Azambuja fluía com a mesma qualidade em qualquer lugar e situação, tanto na sede, Brasília, onde não se limitava aos horários pré-estabelecidos do expediente, como em Cachimbo. Lá, também por haver mais tempo disponível, com a minha ajuda, punha-se firmemente na organização de todos aqueles papéis. 

Portanto, desde de quando chegou, Azambuja desempenhava um trabalho eficiente, organizado e eficaz, dando, de forma célere e expedita, destino certo e solução a cada assunto que lhe chegava às mãos, procurando fazer o certo sem olhar patentes, pois sua competência beneficiava igualmente do soldado ao comandante. Uma característica lhe era mais marcante que as outras: exigia em troca as correções de atitude e disciplina, conforme mandavam os rígidos regulamentos militares, ou administrativas, não admitindo meios termos. Certamente esse aspecto tenha contrariado muita gente boa. Recordo que uma vez, ao chegar ao setor de trabalho,  surpreendeu o cabo Tranqueras, Olivado da Silva Tranqueras, sentado em sua cadeira a falar ao telefone com alguém que poderia ser a namorada. "Meu jovem, se não tens nada a fazer aqui, vai fazer nada em outro lugar."

Esse seu jeitão especial, que muitos confundiam com grossura, aliado à sua figura calada que dava a todos a impressão falsa de ser um mau sujeito, o que, somado ao seu aspecto físico, mulato, baixinho e orelhudo, óculos de grau, e ainda por cima aquele bigode que de jeito algum lhe caía bem ao rosto, ficou marcante na tropa, sendo por isso razão de piadas por parte de alguns, também de risos disfarçados e de antipatia por parte de outros. Quanto ao comandante, Azambuja lhe caiu imediatamente nas graças. Pude testemunhar alguns elogios que vinham da parte do comandante para com o nosso setor, que Azambuja fazia questão de atribuir os méritos às nossas ações, provando sua modéstia.

O aval que vinha do comandante contribuiu para, injustamente, lhe imputarem a fama de bajulador. Ao contrário, era daqueles que raramente sorria a seus superiores, limitando-se a cumprimentá-los formalmente e, cordialmente, lhes desejando bom dia ou boa tarde. Não lhes fazia festas, e se fazia não eram para seus superiores, tampouco contava piadas com o objetivo de ser simpático, como faziam outros. Não ficava nos corredores, ao contrário de seu antecessor, gritando ordens para serem ouvidas pelos oficiais e assim lhe creditarem a fama de disciplinador. Não precisava disso; para Azambuja, era suficiente se ater ao trabalho, desde que um trabalho bem feito, e nada mais além disso para ele era necessário, embora isto muitas vezes, segundo uma vez me confidenciou, tenha, mais de uma vez na carreira, lhe causado prejuízos na avaliação a que cada um de nós era submetido anualmente.

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