terça-feira, 3 de junho de 2014

MAIS uma incoerência do sistema

A ALUNADA em sua maioria absoluta já havia viajado de férias para suas cidades de origem, a desfrutar merecido descanso e lazer no aconchego de seus lares, junto a seus familiares, amigos, namorada. Noventa e seis, noventa e sete por cento da turma já estava de boa. Entretanto, nós, que ficamos de prova final e de segunda época, ainda povoávamos contra a nossa vontade o outrora movimentado e fervilhante Corpo de Alunos. Aquele mundão de Escola era um clima melancólico sem a presença em peso dos alunos, feito uma feira minutos antes fervilhante e barulhenta e agora deserta. Nas feições dos que ficaram se notava nitidamente a preocupação com a própria sorte, melancolia agravada pela solidão daqueles seis ou sete, mas ao mesmo tempo solidariedade. Voltariam à Escola no semestre seguinte? Embora esperançados, ninguém de nós tinha certeza absoluta disso. 

Na sexta anterior ocorrera a formatura do pessoal da quarta série. Foi bonito ver o aluno zero um, agora sargento, passando o estandarte para o aluno zero um da turma seguinte. No final, o fora-de-forma e todos jogavam o quepe para o alto, festejando a vitória suada pela qual lutaram por dois longos anos. Apesar das motivações do professor, eu, pelo meu drama particular, ainda não conseguia me visualizar ali, de branco, formando-me terceiro-sargento da Força Aérea. Ao contrário, aquelas insignias estavam a levantar voo, destino ignorado.
Mais uma turma que ao final jogavam todos o quepe para o alto

Veio a notícia por alguém de que a próxima turma, que iniciaria no primeiro semestre de 1978, inauguraria um novo sistema, vez que a Força resolvera mudar muita coisa no ensino que preparava o futuro sargento especialista. Já não seriam mais dois semestres de ensino básico; no segundo o aluno já entraria na parte especializada, aumentando para três semestres a preparação técnica propriamente dita contra somente um semestre de ensino básico. Melhor para eles, com mais tempo de aprendizagem no que interessaria de fato. Com essa mudança algumas matérias foram abolidas enquanto outras inseridas no currículo. Quebrava-se assim um paradigma que vinha sendo adotado pela Aeronáutica desde a sua fundação, em que a Força copiara as nomenclaturas da Marinha. Nossa turma, a turma número 171, seria a última desse velho modelo encerrando o ciclo que vinha desde 1941.


Em Matemática consegui aprovação, por pentelésimos. O que eu não contava era que a aparentemente tranquila Tebê me levaria à segunda época, a última, a derradeira oportunidade. Não logrando aprovação, seria o pé na bunda, e a companhia Igê aguardava-me sem ao menos o direito às férias escolares. Tal situação deixou-me profundamente inseguro; estava pela bola sete. Preocupei-me com a tal Matemática e dei mole para Tebê, matéria em que dava por certa a aprovação.


A tal Tebê era uma matéria atípica, composta de duas partes, uma teórica e outra prática. A parte prática compunha-se de trabalhar no galpão uma peça de metal, deixando-a nas medidas pré-estabelecidas por um desenho, dimensões especificadas com o uso do paquímetro e de outros instrumentos. Eu não possuía a mínima habilidade com aqueles materiais, e isso, somado à parte teórica, me levou àquele estado nada animador, um resultado imprevisto. 

Fui chamado ao comando da esquadrilha. O sargento, acompanhado de um psicólogo, me dera a má notícia, notícia esta que já aguardava resignado. Se não tivesse levado uma punição de repreensão quando da minha baixa ao hospital pela bebedeira, teria ainda uma pequena esperança que seria o abono concedido pelo comandante da Escola, conforme previsto no regimento da Escola. Como havia uma punição registrada, nada feito.

Procurei naquela noite dormir mais cedo para não ficar muito tempo a pensar naquela situação. Ademais, nada mais tinha a estudar. Tudo estava consumado. Na manhã seguinte desocuparia o armário e migraria para juntar-me aos meus novos companheiros de farda: os soldados da Escola. Durante a noite tive vários sonhos, dos quais nem lembrava nitidamente, com exceção de um deles. Eu entrava novamente no Ceá na próxima turma. O comentário mais frequente entre os novos alunos era justamente sobre o período mais curto do ensino básico, aumentando os semestres destinados à parte especializada. Todo mundo estava feliz com isso, pois o ensino básico era para o aluno novo o grande terror.

Acordei com esse sonho na cabeça e cheguei a comentar com um colega próximo, que ali estava somente por ser nesse dia a sua prova de segunda chance. Percebendo o meu semblante abatido, perguntou-me o que me afligia. Disse-lho.

- Que ironia, né Quinze?! O pessoal da próxima turma não vai encarar essa matéria chata, que não serve pra nada.
- Pra mim, ela serviu, Florêncio. Serviu pra me transferir para a companhia Igê. A Tebê me venceu, rapaz.
- Mas... peraí. - Fez o amigo uma expressão típica de quem havia tido uma grande ideia.
- Que houve?
- Raciocina comigo. Se essa matéria não vai existir na próxima turma, então por que você tá sendo reprovado? 
- É o regulamento, vão dizer. E na nossa turma ela existiu.
- Quinze, veja bem. E se você for ao comandante da Escola?
- Duvido que deixem.
- Não precisam saber. O que é que você tem a perder? Reprovado você já foi. No que pode piorar?
Fiquei matutando por alguns segundos.
- Pensando assim, você tem razão. Mas, ...
- Mas o quê?
- Tímido como eu sou. Desajeitado...
- Você não tem mais nada a perder, repito. Ache coragem, homem, vença tudo. Não entregue os pontos se há ainda alguma luz no fim do túnel. 

Deitei um pouco mais naquela cama de campanha e quedei-me em mil pensamentos e conjecturas. Talvez o colega tivesse razão. Se a matéria não iria ajudar os sargentos que formassem nas próximas turmas, como ela seria fundamental para a minha turma? Era mais uma incoerência do sistema (Com o tempo fui percebendo que o sistema estava cheio de incoerências). Mas como chegar ao chefão? E se ele nem me recebesse? E se, por falta de coragem, da minha boca nenhuma palavra saísse? E se não me deixassem chegar a ele? Ele, do alto de seu cargo, pelo menos me ouviria?

Resolvi, depois de muito pensar naquela derrota já consumada mas que - pelo menos na minha cabeça e no ânimo que aquele colega me dava - ainda restava um sopro de esperança, que tinha de fazer algo concreto e não ficar ali deitado em conjecturas inúteis.  Fui à luta. 

Cheguei próximo ao prédio do comando onde sua excelência dava expediente e parei. Não tinha pedido autorização a ninguém. E nem adiantava, pois não iam dá-la mesmo. Decidido, resolvi seguir; era a minha última cartada. Na ante-sala, conversei com a secretária, relatando-lhe de forma resumida o meu drama. Ela ficou com dó de mim e depois de alguma hesitação decidiu ajudar-me. O Oficial-general, que recebia naquela hora uma visita importante, dera ordens expressas de não ser interrompido. Diante disso ela mesma não podia deixar-me falar com ele, além do mais era necessário estar agendado, de forma que no momento ela não podia fazer muito por mim. Ora, se nem autorizado estava, quanto mais agendado. De saída já no corredor, quando ela chamou-me assim num gesto de conspiração, olhando para um lado e outro, e, após certificar-se de que ninguém nos escutava, disse-me em voz baixa, quase sussurrada e ao pé do ouvido, que o comandante tinha, em meia hora, um compromisso na Divisão de Saúde, setor da Escola que ele costumava inspecionar naquele dia da semana. Aquele era o dia. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar lá aguardando o momento oportuno.


Ainda havia um restinho de esperança
O prédio do Hospital ficava dali a mais de mil metros. Fui correndo pra lá, mas no percurso de quando em quando reduzia o passo, quase parando. Mil pensamentos me vinham à mente, de maneira que correria não apenas mil metros, talvez até dois mil sem que percebesse. E se a notícia de que na próxima turma tinha abolido Tebê fosse um bizu falso, como muitos outros que circulavam no âmbito do Ceá. Não, não podia ser bizu falso, já tínhamos ouvido isso antes. Onde fora mesmo? Ah sim, foi no auditório em uma daquelas palestras. Sendo assim, corria com mais confiança. Reduzia novamente o curso, cogitando que Florêncio podia estar bancando o amigo da onça para me ver entrar de vez pelo cano. Não, Florêncio estava falando sério, ademais solidário por estar em situação aflitiva, quase igual à minha. Tornava a acelerar o passo. A cada obstáculo que me surgia na mente, vinha outro argumento positivo, e assim já estava quase no Hospital.

Como que por encanto a coragem foi-me surgindo gradativamente na medida em que caminhava e corria, de modo que ao chegar não eu tinha como deixar passar a oportunidade. Sim, a autoridade teria de me ouvir, ainda que eu saísse de lá numa viatura, algemado e jogado numa cela. Ia assim calculando as palavras que iria dizer ao comandante. Ensaiava uma frase, depois a corrigia. Assim não, assim ele não vai compreender, vai pensar que eu sou louco e fico internado lá mesmo no hospital; tenho de ser mais direto, tenho de usar outro verbo. Sim, era assim mesmo, seriam essas as palavras que eu iria dizer ao comandante. O máximo que ele poderia me dizer era não. Mas se ele dissesse sim, tudo estaria resolvido e o humilde aluno continuaria no Corpo de Alunos, levando o grande sonho adiante. Era a grande a minha esperança de ele relevar a minha reprovação, abonando a minha permanência no curso. O comandante passava nessa hora, e esperei que se afastasse um pouco dos presentes. Sim,  agora afastou-se um pouco. Chegou a hora. Era a minha chance. Estava encharcado de suor e por isso as condições do meu uniforme eram sofríveis.

- Excelência!! - Gritei, vencendo de vez a indecisão.

A autoridade máxima mirou-me da cabeça aos pés, destacando a sua superioridade ante aquele aluno baixinho, mirrado e ainda por cima desalinhado pela ação do suor da longa corrida, que eu reduzira em alguns momentos. A quantidade de suor aumentara certamente pela situação extraordinária, elevando-me o stress emocional.

- O que deseja, aluno?
- Sou o aluno Quinze Setequatro, excelência!
- Vá adiante. Eu não tenho o dia todo.
- Fui reprovado em Tebê, brigadeiro.
- Como?? Explique-se melhor.
- Tebê, Tecnologia Básica, senhor.
- E eu com isso? Azar o seu. Sinto muito.
- É que essa matéria foi abolida, senhor. Não vai fazer parte do currículo das próximas turmas. - Falei com firmeza e sem fazer pausa para tomar fôlego, temendo que não conseguisse completar a frase.
- Aluno, lei é lei. A lei deve ser cumprida. Nunca ouviu falar? Além disso, não é a primeira vez que um aluno me interpela dessa forma. Em todas elas eu disse não. Esta não ia ser exceção. Vá embora e não me incomode mais.
- Sim, senhor, mas, veja bem, excelência, se o sargento que vai se formar na turma posterior à minha não precisa dela para exercer a sua atividade, como exigir que essa matéria, que não existirá mais, seja o fator preponderante para a reprovação ou aprovação de um aluno da minha turma? Os sargentos das próximas turmas serão menos qualificados que os de antes? - Como nada mais tinha a perder, nunca em toda a minha vida fui tão prolixo como naquele momento de desespero. Por uma fração de segundo, notei algo diferente no semblante daquele homem, algo semelhante a uma interrogação, dúvida... Ao mesmo tempo notei que um oficial superior, que lhe acompanhava naquela visita rotineira, fez gestos de cabeça me mandando ir embora.

- Vá, aluno. 
- Permissão para me retirar, excelência!
- Concedida.

Fiz meia-volta e rompi marcha. Havia sido derrotado.

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