segunda-feira, 9 de junho de 2014

O PESADELO continua

COMO acontecia sempre quando eu não fazia boa prova, evitei a rodinha que a turma sempre fazia ao término dos testes. Dessa vez foi por outra razão. É que eu saí com a ilusão de ter feito a mais que a nota mínima, seis. Entretanto, não estava com plena convicção disso, daí não ter parado para discutir as questões pelo medo de desiludir-me, e assim baixar a minha auto-estima.
Passei por um grupo de sargentos que conversavam. 

- É fácil. Basta culpar algum aluno. - Dizia um deles.
- Coisa sórdida isso. - Indignava-se um outro.
-  Mas é o que vem ocorrendo. - Confirmava um terceiro.

Foram esses fragmentos de conversação apenas o que pude ouvir naquela passagem rápida pelo grupo de graduados, sem saber do que realmente se tratava. Dois deles eu sabia que eram do Ceá; e um outro, para mim um ilustre desconhecido. Paciência, nenhuma importância a dar, cada um com seus próprios problemas. O aluno da conversa com o seu; e eu, que nada tinha a ver com essa história, com os meus, que no momento se resumiam à tal da prova de Matemática. Fui adiante, numa mescla de alívio e preocupação com o resultado da prova. Quando era assim eu evitava naturalmente falar com qualquer que fosse, só o fazendo depois de algum tempo, meia hora pelo menos. Era o tempo para os nervos se acalmarem e da cabeça esfriar.

No entanto foi inevitável uma conversa que tive com o sargento J. Silva, um de nossos instrutores. Ele me parou quando chegava próximo à cantina do portuga, chamando-me à parte.

- Como foi de prova? - Perguntou ele, direto no assunto.
- Mais ou menos. - Respondi, fazendo um gesto de mão.
- Mais para mais... ou mais para menos?

Não tive outro jeito senão contar-lhe toda aquela estratégia maluca que tracei na resolução da prova, inclusive sobre a dedução que tive sobre a distribuição das respostas, e assim constatar que faltavam letras 'D' nas minhas respostas, e aí completei o que faltava com essa alternativa as questões. Falava com a empolgação de quem tinha descoberto a pólvora, me auto-louvando meu talento em burlar a equipe de avaliação, porém justificando-me pela necessidade de sobrevivência. No íntimo, não tinha tanta convicção de acerto, mas era importante para mim manter aquele ar de vitória; pelo menos, enquanto não viesse a desilusão.

- Santa ingenuidade, Quinze! - Deixou escapar em voz alta o sargento, não se importando com o efeito psicológico que essa expressão poderia causar em minha mente, pelas minhas ações desajeitadas e pela vergonha do público passante naquela hora.

- Mas...

Fiquei com vergonha dos outros alunos que estavam próximos, alguns que até pararam para escutar somente por mera curiosidade, e dos outros circunstantes, que eventualmente ouviriam desabafo daquele instrutor, que desde o início mostrava-se simpático à causa dos alunos mais simplórios como eu. Naturalmente alguns ficaram com pena de mim, e outros seguiam seu caminho pensando nos próprios problemas.

- Mas, mas... não tem mais nenhum, Quinze. Eu conheço a equipe de avaliação. Eles também conhecem o aluno, quero dizer, sabem como o aluno pensa, são muito experientes. Então você acha que eles iriam distribuir assim, matematicamente, as respostas da prova?
- ... 

Encontrava-me demasiado aturdido para responder. Ele mostrava-me naquela hora que o rei estava nu, abrindo-me os olhos para o quanto eu fora simplista, ingênuo, o quanto fora inocente. 

- E depois, Quinze, - continuou ele um pouco mais calmo - mesmo que fosse assim como você, 'brilhantemente', pensou. Você disse que deixou de resolver quinze questões... 
- Isso mesmo - Respondi encabulado.
- Quem lhe garante a sequência certa das questões com as respostas 'D'? Quem garante que a próxima que você marcou 'D' não era mais uma 'C', 'B' ou 'A'? E a outra questão seguinte? E todas as outras? 
- É, sargento, o senhor tem razão. Pisei na bola. - Admiti cabisbaixo.
- E pisou feio, meu jovem. A menos que você seja um cara muito sortudo, e se for assim, marque um volante da loteria esportiva pra mim, que a gente racha o prêmio. - E, levantando chamou: 

-  Rodrigues! Rodrigues! Ouça isto. 

- É, filho, você bancou o tolo. - Disse-me o suboficial em meio a sorriso no rosto, de forma a aliviar o tom de censura das palavras.

Seguiram em direção ao prédio do comando, deixando-me ali sozinho com o meu problema. Fiquei de moral baixa. Arrasado. Bem mais arrasado que antes da prova, pois, bem ou mal, tinha a esperança de conseguir vencer aquele terrível obstáculo. Ao concluí-la, estava já quase que totalmente convencido do êxito; agora, toda a fantasia estava revelada. Vieram-me à mente a cervejada da sexta, o pesadelo, a chacota da turma, o hospital, e agora, por último, a fatídica prova com aquela ideia 'genial'. Como fui tonto! Teria sido melhor deixado aquelas questões sem resposta. Continuei o caminho de cabeça baixa, sem coragem de encarar os colegas, ou quando, levado a responder a alguma saudação de um ou de outro, o fazia sem lhes olhar nos olhos, no temor de que minhas feições me revelassem o fracasso. Na verdade, já revelavam.

Na educação física da tarde corria eu sem ânimo, de forma que se o corpo estava ali, a mente vagava distante. Era o fantasma do desligamento que insistia em atormentar-me. Na volta, depois de passarmos pelo Casusa e Vila dos Sargentos, passamos em frente à companhia Igê e vi alguns soldados conversando, alguns outros com uniforme de serviço, e um deles que fazia faxina, limpando o hall do alojamento. Seriam meus futuros companheiros? Talvez, mas assim ainda seria melhor do que voltar para casa. Não, isso não; voltar para casa é que não iria. Se fosse necessário, ficaria na Escola na condição de soldado, com a esperança de retornar ao Ceá no próximo concurso. Pensava assim e já me imaginava ali na companhia Igê, de Essedois, a abreviatura que davam a soldado de segunda classe.

Ultrapassamos uma outra turma que corria mais devagar. O mais antigo deu cerrar à direita, e o guia era um estagiário peruano, que puxava em seu idioma um grito de guerra bem marcial. Somente pude ouvir uma parte da canção de guerra.

Ja ja ja ja! 
Me muero de risa! 
Con ese trotezito tan tranquilo.
Señor comandante, 
Vamos a la guerra...


As corridas na educação física me faziam bem
Normalmente faziam-me bem as cantarolas e os gritos de guerra, a que eu respondia com entusiasmo a plenos pulmões. Davam-me mais moral à corrida, aumentando o fôlego daquele jovem de dezessete anos. Naquela corrida em particular, porém, nenhum efeito aquelas motivações me causavam ao espírito, tão imerso que estava em minhas próprias preocupações. Estava lá, em minha cabeça, aquela bendita prova de Matemática e, principalmente, as consequências vindouras decorrente daquele insucesso. Chegamos ao ponto final da corrida, que era o estádio, onde o professor tornaria, antes de nos liberar, ao discurso costumeiro. Era o tal discurso motivador de sempre.

 - Escutem, alunos! Vocês não devem entregar os pontos. Têm de ser otimistas... fortes. Pode aquele que pensa que pode. Se você já entrar em campo pensando que vai perder, certamente vai perder...

Isso era comigo, pensava com meus botões. Será que ele já sabe?


A maioria das pessoas está ligada a um tempo anterior, mas você deve estar vivo em nosso próprio tempo. Marshall McLuhan

Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado.

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