quinta-feira, 19 de junho de 2014

O QUE ERA um peido pra quem já estava cagado?!

FIZ a meia-volta regulamentar e rompi marcha, como um bom soldado. Estava na verdade quase um, literalmente, vez que no dia seguinte estaria na Companhia Igê. Dei dois passos e, levantando a cabeça dei de cara um oficial, que acompanhava o comandante da Escola. Chamou-me: 

- Ei, você, aluno!
- Sim, capitão - corri a até dois passos dele, conforme era o previsto.
- Começa a empurrar o planeta!
- ... (??)
- Não entendeu, né, aluno. Raciocínio lento, hein!?
- Sim. Entendi, claro. 

E imediatamente pus as mãos no solo e paguei as flexões contando em voz alta. 


- Um, dois, três... dez...
- De pé! Um, dois!!
- Três, quatro!
- Vou anotar teu nome e número. Agora, vou quebrar teu galho. Deixarei que descanse os braços, então paga pulinhos de galo porque essa tua águia tá tão preta que mais parece um urubu.
- Sim, senhor. 
- De pé. Se a tua vida já tava complicada, agora que vai complicar de vez. E agora, some da minha frente. Sai conforme o regulamento para se retirar da presença de um superior hierárquico. Vá até o Ceá correndo. Correndo sem olhar para trás.

Ele não precisa dizer nada, eu entendia o porquê. Tinha ferido uma grave regra que era a de não falar ao comandante sem que fosse autorizado, além do mais tinha esquecido de polir com Kaol a fivela, que estava já negra.


O comandante da Escola
Fui do hospital até o Ceá correndo, sem parar nem olhar para trás, cumprindo à risca o que o oficial mandara. Que merda eu fiz, e agora? E se o brigadeiro mandar me prender e me expulsar? Já era o meu plano B, que seria o de permanecer na Fab como soldado. Cheguei quase morto na esquadrilha. Mas se fosse só o castigo físico, tudo bem, fichinha, mesmo no sol inclemente de verão às 11 da manhã . As instruções do Caveirinha já haviam me calejado. O que era um peido pra quem já tava cagado?! O pior viria a ser se, além de nada conseguir da autoridade, ainda por cima fosse punido por ter ido falar com o comandante sem a devida autorização, o que era expressamente proibido. Aí tava tudo perdido realmente, e nem o plano B me restaria. Droga! Era pegar as malas e voltar para a minha cidade natal amargando a derrota.

Na estrada, o oficial passou de automóvel por mim, certificando-se de que realmente eu cumpria suas ordens.

Cheguei, tomei banho e mudei de farda. Acabei de fazer as malas, tirando os últimos objetos que ainda restavam no armário, e colocando-os num saco plástico. À tarde mudaria para meu novo alojamento, apresentando-me ao comandante da companhia.

- Aluno Quinze Setequatro! - Levantei a cabeça de repente na direção daquela voz.

Era o sargento quem chamava. Ou era para cobrar o atraso na minha mudança ou, pior, seria para ouvir-me quanto à audiência sem ordem com sua excelência.

Não era nem uma coisa nem outra.

- Desfaz essa mala!
- Como disse, sargento?
-Você é surdo? Desfaz a mala - e abrindo um sorriso largo - o comandante reconsiderou o seu desligamento, achando justa a sua reivindicação. Você não será desligado do curso. 

Fiquei por um instante sem palavras. Só esperava a decisão no dia seguinte, além de imaginar que essa decisão seria a pior possível. Corri e dei-lhe um abraço. Tinha vencido afinal. Continuaria no Ceá, e me formaria sargento.

De Viação Sampaio rumei até o Rio de Janeiro, onde tentaria apanhar uma carona numa aeronave da Força Aérea. Sem dinheiro para deslocar-me até a minha cidade para as férias, essa era a solução encontrada. Foi o que eu fiz.

Em casa foi só alegria e muitas novidades pra contar à família, aos amigos, aos vizinhos e todos quantos perguntassem. Tirar fotos e tudo o mais. Tantas novidades, tudo empolgação
Minha mãe e eu
Acontecimento mesmo era quando tinha de ir ao Quegê da Primeira Zona para fazer a apresentação regulamentar, que era norma para ser cumprida rigorosamente naquela década. Ia de quinto uniforme, e não tinha quem não me olhasse. Estufava o peito quando notava os olhares de alguma garota.

Pena que aquelas férias tão boas logo terminaram. 

Voltei à Guará mais cedo, uma semana antes, pois era a data do avião para o Rio de Janeiro. O Ceá e a Escola me esperavam para um segundo semestre. Desta vez, porém, eu estava pronto para eles.

Aqueles que se aplicam muito minuciosamente a coisas pequenas, frequentemente são incapazes de coisas grandes. François de La Rochefoucauld

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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