terça-feira, 24 de junho de 2014

SÁBIAS palavras

NAQUELA tarde saí da sala de aula e nem dei bola para a rodinha costumeira que havia se formado à saída do corredor da Deí. Estava brabo comigo mesmo, em parte por não ter levado a sério como deveria a matéria, e também pela equipe de avaliação, que, desta vez, decidira complicar a vida do arataca com algumas questões tiradas das notas de rodapé da apostila de Tebê. Olha que aquelas questões, cinco ou seis, nem tinham utilidade prática (pelo menos na minha cabeça), não servindo para aferir de verdade o conhecimento do aluno; numa delas a resposta era um mero advérbio, coisa que só premiava aqueles cepões, uns caras que viviam queimando a pestana até de madrugada, lanterna em punho, lá no banheiro, que eu mesmo já tinha visto ao acordar às três da manhã para urinar. Eu é que não ia fazer tamanho sacrifício; meia-noite às cinco era sagrado, e servia exatamente para repor as energias. 

Bem que poderia ser melhor essa provinha de quarta. Ia assim pensando no caminho entre a Deí e o alojamento da nona esquadrilha. Uma meia-dúzia de questões ambíguas, das quais uma apenas, depois de muito meditar, preenchi a letra B como resposta. As outras, li, reli, passei adiante, na esperança de, como já ocorreu em uma das provas anteriores, achar uma outra questão mais adiante que me desse a dica daquelas que não achava resposta segura. Nada, só perdi o tempo precioso com as tais questões, sobrando pouco para as outras mais fáceis. Droga! Quando eles cismam de complicar, complicam mesmo, e o aluno, pobre aluno, que se vire.

Estava já a meio caminho, passando a praça dos ônibus, quase na cantina do Portuga, quando Martinelli alcançou-me.

– E aí, Quinze! Como foi desta vez?
– Não tão bem quanto eu gostaria, mas o suficiente para tirar acima de seis.
– Da minha parte, não posso dizer que fui mal. Na verdade, se muito posso ter errado duas, que arrisquei pelo palpite. Sabe aquelas em que você fica entre duas alternativas?
– ...
– Pois é. Quase certeza, então resolvi arriscar. Se errar, não faz mal. Afinal, foram só duas questões. Mas se acertar, é mais um dez para a minha coleção.
– Que bom pra você. Deu uns cinco minutos e chamei o sargento, e sabe o que ele me disse?
– Que 'interpretar o texto das questões faz parte da elaboração da prova'. Eu ouvi.
– É. Creio que todos ouviram. Ainda olhou-me assim tipo fazendo a clássica pergunta: 'O que você fez de meia-noite às seis?'.
– Não fica chateado, Quinze. O importante é camburar.

Sujeito inteligente esse Martinelli. Era o tipo do cara que prestava bastante atenção em sala de aula, lápis na mão destacando os pontos mais importantes, que ele, mais que ninguém, percebia somente pela entonação de voz do professor. Ademais, ainda detinha uma memória fotográfica, não necessitando de mais de duas leituras para cada assunto. Diferente de muitos, não era daqueles que a gente via cepando em cima da cama ou carregando a pasta cheia de apostilas para cima e para baixo.

Ficamos ainda falando sobre algumas questões, que só me fizeram ficar mais puto comigo mesmo, pois era muito mais prestar atenção que puramente lembrar. Era tudo para mim um alto e baixo, mas o problema que é já estava me acostumando com o 'alto', e quando vinha o 'baixo', isso abalava minha auto-estima, que nunca fora lá essas coisas. 

Resolvi que à noitinha iria estudar na capela, que nesse dia da semana, excepcionalmente, ficava até às dez da noite. Era uma deferência especial do capelão, sabedor da preferência de alguns alunos por aquele local repleto de paz. Abriria uma exceção à minha rotina e dispensaria dessa vez o brochante. Não poderia dar chance ao azar como houvera feito dessa fez, subestimando uma matéria aparentemente mole.

Sete da noite e rumei para lá, pasta nas mãos.

Os olhos fixos nas palavras e conceitos. No entanto, passou-se vinte e poucos minutos, e o pensamento me insistia em voltar àquela bendita provinha. De novo à apostila, e a mente teimando em não fixar direito o que eu tinha imposto a mim mesmo como meta de estudos para aquele período do dia. O relativo insucesso na prova de Tebê, pelo menos, servia para que eu não me esquecesse das minhas limitações, que a essa altura já não me importava como dantes. Era como uma luz amarela estivesse piscando ali na caixola, dizendo: 'Cuidado!'. Fui assim pelejando comigo mesmo por mais meia hora, quarenta minutos, quando dei pela presença do padre Sebastião, que estava ali de mãos postas em oração uns dois bancos atrás do meu, assim meio que em diagonal à minha direita. Sua imagem dava um aspecto manso, tranquilo, parecendo santificar mais ainda aquele sítio sagrado.

Ficou assim por mais uns dez minutos, quando, de cabeça fez-me um cumprimento, que correspondi. Aproximou-se sentando no mesmo banco.

– Talvez eu possa lhe ajudar, meu filho.

Ajudar em quê? Pensei.

– Rezando por mim, padre.
– Não, filho, não só rezando. Mas talvez umas palavras, uns conselhos...
– Sim, pois não, padre. Afinal eu nada tinha a perder, se não alguns minutos.
– Veja bem. Posso imaginar como se sente. Você é de longe; do norte ou nordeste, pelo que vejo, pois seu jeito não me engana. Está longe de casa, e nem nos feriadões pode ir ver seus familiares. Provavelmente uma família pobre, e está aqui em Guará com um peso enorme às costas.
– ...

O velho sacerdote fez uma pausa para respirar e, como eu nada respondi, continuou.

– Então, filho... vou dizer qual é o grande problema: o grande monstro é o famigerado 'desligamento', o desligamento do curso. Esse é o grande problema. 
– Verdade. Só não sei como o senhor sabe disso.
– Outro dia, por falta talvez de espiritualidade, ou quem sabe por outra razão que só Deus mesmo sabe, um colega seu cometeu um ato extremo... e, como eu sei? Ora, filho. Há quanto tempo você acha que sou o capelão desta Escola?
– Uns quinze anos...
– Vinte e um anos. Há mais de duas décadas venho lidando com alunos, jovens iguais a você. Quantas vezes eu vi, nestes bancos, fisionomias como a sua. Não precisam dizer nada, a expressão de seu rosto já diz tudo por si mesma. Quantos foram desligados, quantos ficaram aqui servindo na condição de soldado, mas quantos e quantos, a maioria absoluta, superaram toda sorte de dificuldades e venceram, aos trancos e barrancos, mas venceram...
– Eu mesmo tenho muita vergonha de fracassar, voltar para casa de mãos abanando, padre.
– Tenha calma, filho. Se Deus te trouxe até aqui é porque tem um plano para você. Acredite n'Ele, que nos ama, nos ama tanto que deu seu próprio filho, Jesus, para morrer por nossos pecados. Confie n'Ele, filho. E mesmo se isso - um possível desligamento, um insucesso - acontecer, lembre-se de que um fracasso, uma derrota nunca é definitiva; é só não se desesperar, confiar mesmo no bom Deus.
– ...
– Veja que Ele já pôs tanta gente no seu caminho, e colocará muito mais. Pessoas boas, que te ajudaram muito; essas pessoas nada mais são que instrumentos de Deus. Você, filho, jamais conseguirá devolver o que fizeram a você, mas Deus, que é sábio, porá na sua estrada outras pessoas, a quem você ajudará. E ajudará sem pedir nenhum retorno. Essa é uma lei natural da vida, imutável porque foi sancionada pelo próprio Pai.
– Obrigado, padre. Já está ficando tarde, e às dez o alojamento dorme. Não quero perturbar o sono dos colegas, por isso é hora de ir. Obrigado pelas palavras que já me acalmaram.
– Vá com Deus, filho. E não esqueça de agradecer a Ele todos os dias.

Fiz boa prova no dia seguinte. O padre tinha razão. A nota máxima sempre me escapava das mãos, mas as palavras daquele padre deram-me ânimo, renovando-me as energias para a luta de cada dia.

Mais uma sexta chegava. Mais um final de semana no Corpo de Alunos.


"Aprendemos quando compartilhamos experiências" John Dewey

Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado. 

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