quinta-feira, 31 de julho de 2014

AZAMBUJA em Cachimbo (5ª parte)



- Trata-se de uma sugestão do Azambuja, comandante... Sei... sei... Pode deixar, comandante, ... direi isso a ele. 

O tenente Ezequias, virando a cabeça para a porta, onde eu estava acompanhado do Nogueira, despediu-se da autoridade. E, olhando para mim e para o cabo:

- Pois não?

Nogueira disse-lhe o que houve, relatando em detalhes que sofrera humilhação da parte do sargento Pedreira,... logo ele, uma longa folha de serviços, mais de vinte anos. Sim, já havia sofrido outros insultos, mas dessa vez o encarregado da Seção de Transportes havia passado dos limites, e - o pior - isso tudo na presença de militares mais modernos. Enxugava com um lenço o rosto a cada vez que falava uma frase. Deixei Nogueira na sala e retirei-me. Dentro de poucos minutos, o tenente Ezequias entra na nossa sala.

- Duas coisas tenho a dizer, Azambuja. A primeira é "negativo", o Zerohum disse que, se você quiser, que faça requerimento. A segunda é "Ajude o Nogueira com a representação".

Azambuja, indicando uma cadeira, pediu a Nogueira que se sentasse. A mim, fez um gesto de cabeça para que eu lhe alcançasse um exemplar do Regulamento Disciplinar, que estava na minha mesa. Abaixou a cabeça um instante e disse: 

- Vou contar uma fábula: 


"Era uma vez... e isso faz muito tempo, quando ainda os bichos falavam e entre eles não havia distinção de espécie e nem ligavam pra esse negócio de cadeia alimentar, que conviviam harmoniosamente em uma fazenda uma vaca, um porco, uma galinha e um ratinho. Uma noite, o ratinho, circulando pela propriedade, achou uma ratoeira armada. Alarmado com aquela vil armadilha, resolveu pedir ajuda a seus amigos.
A galinha não deu muita atenção, pois o assunto não era dela. O porco também não quis muita conversa, pois era uma ratoeira e ratoeiras não fazem mal a porcos. A vaca disse que a coisa estava direcionada e também não podia fazer nada, e cada um com o seu destino, sua sina.
O ratinho resignou-se e procurou ter mais cuidado.
Uma noite a vaca, o porco e a galinha ouviram um ruído de ratoeira e um grito. Com certeza, o ratinho havia caído na armadilha, e correram para ver. Não era o ratinho e sim uma cobra. A dona da fazenda também correu para ver e, como estava escuro, tateando, acabou por ser picada pela cobra, que estava viva ainda.
A fazenda era distante da cidade e a família teve que chamar um médico para cuidar da senhora. Mais gente em casa, mais uma boca pra alimentar, e mataram a galinha. Ao contrário do que esperavam, o estado de saúde da senhora piorava cada vez mais, e os parentes mais próximos, que moravam na cidade, vieram para fazer-lhe companhia e cuidar dela. Mais gente pra alimentar, mataram o porco.
A saúde dela foi piorando, piorando, até que ela morreu. Para os funerais, vieram parentes da cidade próxima e de outras partes do Estado, além de muitos amigos e conhecidos. Para alimentar tanta gente, mataram a vaca."


- E vamos ao Regulamento Disciplinar. Conte-me, caro Nogueira, o que lhe aflige. - Não fez a menor alusão ao porquê da fábula que acabara de contar, deixando-me na mente uma grande interrogação. Esperaria o momento certo para indagá-lo.

Azambuja, de acordo com o que ouvia, fazia anotações. Perguntava sobre um ou outro ponto que não lhe parecia suficientemente claro. Hora, local, circunstâncias, testemunhas... Em seguida, consultando o Regulamento Disciplinar, fazia destaques nos itens e artigos que possivelmente davam guarida ao reclamante. Vi que fazia com o lápis círculos em volta de cada número, ditando-me as palavras certas. Percebi que o texto resultou em significativa erudição, contrastando com a realidade, vez que Nogueira mal tinha o ensino fundamental e se expressava como se mal fosse alfabetizado.

Ao final, deu o documento a Nogueira, que o leu e assinou. Fez continência a Azambuja e retirou-se.
Depois disso, o tenente Ezequias fez envio ao comandante por meio de mensagem-fax. Em seguida, fez uma ligação telefônica ao coronel Camboim, detalhando o caso. 

Voltei ao relatório, mas ao erguer o rosto observei que as feições de Azambuja estavam carregadas. 

- Algo o preocupa, amigo?
- Sabe, meu amigo, estou preocupado.
- Com a representação do Nogueira?
- Não. Ajudei-o porque o chefe me mandou, e eu costumo cumprir ordens. Faria também o mesmo para o sargento Pedreira, se nos procurasse. É outra coisa. Aliás, duas coisas. - fez uma pausa e continuou, levantando-se e fechando a porta. - O chefe maior, o Zerohum. Voltou no segundo dia, mas não está em Cachimbo. Até aí, tudo bem, ele é o comandante e a missão o obriga a viajar para onde for necessário. A questão é que, para a família, ele está em Cachimbo. Eu sei, você vai pensar que isso não é problema meu. O problema é que está obrigando seus subordinados a mentirem. 
- Mentirem?
- Sim. Os soldados estão orientados a dizerem à esposa que o coronel Camboim está em Cachimbo. Os soldados que ficam de serviço lá em Brasília, no balcão da Unidade.
- E isso incomoda o amigo?
- Sabe, isso de certa forma desfaz o que ele disse logo no primeiro dia. É verdade que eu não estava presente, mas fiquei sabendo. De qualquer forma, não me cheira bem.
- E a outra coisa?
- Sim, a outra coisa é a gratificação de localidade especial que a gente tem direito. Creio que seria obrigação dele tentar, ao menos tentar, junto ao comando superior o pagamento desse direito. A tropa ficaria agradecida.

Depois de algum tempo, quando já estávamos em Brasília, procurei saber junto aos soldados. De fato, por duas ou mais vezes, foram orientados a mentirem sobre o real paradeiro do comandante. A exemplo de Azambuja, também senti vergonha ou algo parecido. 

Quanto ao documento pedindo o reconhecimento da localidade especial, o comandante anterior, coronel Bieniak, o encaminhou ao comando superior meses antes, mas certamente deveria estar parado nalguma gaveta ou arquivo. A ordem era cortar despesas e então era necessário argumentos mais fortes que somente o comandante da Unidade poderia adiantar. No entanto, a experiência mostrava que comandante algum, a não ser que abrisse mão da carreira, punha a mão no fogo assim. Camboim não se queimaria assim por cem reais a mais na conta, embora fosse uma prova de prestígio junto à tropa, e resultasse na satisfação geral. É bem verdade que Azambuja tinha feito um pedido informal, mas não sei se ele faria um documento formalizando a reivindicação. O comandante encaminharia o requerimento? Não sei, talvez sim ou talvez não, conforme a direção dos ventos. Essa direção de vento só ele, que estava lá no topo, sabia. 

Os dias foram passando. O comandante regressou de onde estava. Veio com ele uma jovem, idade talvez de uma filha. Não era filha e nem ao menos guardava semelhança com ele. Era sua namorada. Estava explicada a razão de mandar os praças mentirem sobre seu real paradeiro. 

Numa sexta-feira foi sugerido que no sábado fosse feita uma feijoada. Era preciso saber quantos estavam dispostos a participar. Ia ser na palhoça. Depois do hasteamento da bandeira, enquanto a totalidade da tropa estava reunida, foi feita uma enquete para saber do interesse. O Zerohum - como o tenente Ezequias gostava de chamar o comandante - mandou levantar o braço quem desejasse participar e dois não levantaram o braço. Um deles era Azambuja, que alegou questões de saúde.

Continua...

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