sexta-feira, 25 de julho de 2014

FUI passear na cidade


Em um instante de relax
NÃO havia muitas opções de diversões numa cidade do porte de Guará naqueles anos, essa foi a minha primeira impressão; e ainda que houvesse, os poucas cédulas de cruzeiro no bolso não me davam como usufruí-las. Ainda assim era melhor que ficar na Escola, e a simples visão de gente diferente, sem uniformes, já era por si só compensadora.

Existia uma praça, a principal da cidade, de formato circular, a praça Rodrigues Alves, que os alunos, irreverentemente, chamavam de errepeeme (rotações por minuto). Fixei a atenção a num grupo em particular; alguns rapazes em conversa animada com uma jovem, que, desinibidamente, correspondia distribuindo sorrisos e simpatia - belo sorriso, sorriso que nunca vira antes, um charme. Se não chegava a ser muito bonita, também não era feia; exibia um quê de diferente.


Na padaria, outros alunos bebendo cerveja ou mesmo fazendo um lanche; um e outro ainda na fila do cinema. Dei três ou quatro voltas pela errepeeme.

Ao passar pela segunda vez, notei um colega numa elegância de fazer inveja a artista de tevê; alinhado, bastante alinhado. Era meu conterrâneo, paraense, e só podia ser filho de pai rico, pois, não obstante o pagamento não tivesse saído, trajava roupas muito elegantes e caras, adequadas ao o inverno reinante naquele período do ano. Um homem engraxava seu sapato marrom de couro legítimo, que recebeu em paga uma uma cédula de cem cruzeiros, valor bem acima do normal, dispensando o troco.

Na terceira ou quarta volta, verifiquei que havia um homem de meia idade, também elegantemente trajado. Ele fitava os alunos que passavam, se demorando um pouco mais nos mais altos e fortes. Duas vezes, pelo menos, ouvi dizendo que Aluno só é pobre porque quer. Falava em tom suficiente para que ouvissem, não se esforçando em ser discreto, os demais circunstantes - pelo visto - já acostumados àquelas insinuações. Não entendi bem o que o velho queria dizer com aquelas palavras; só mais tarde fui saber que se tratava de alguém bastante endinheirado; ele era fornecedor exclusivo de fardamentos para todo o Corpo de Alunos, também explorava o aluguel de armários, onde os alunos faziam parada obrigatória para trocar do uniforme de passeio para os trajes civis, quando vinham à cidade, pois naquele tempo era proibido sair da Escola em trajes civis, sendo o quinto uniforme o traje obrigatório. Um ou outro aluno virava motivo de piada entre os demais, com ou sem razão; mas a verdade mesmo é que tinha aluno sempre esbanjando, nem se importando muito para a crise.

Ouvia falar muitas vezes duma tal Maria do Ceá, a quem nunca fui apresentado, mas cuja imagem ficou para sempre na minha cabeça como sendo a da tal moça da errepeeme que vi naquela noite de sexta. Outros dias, nos outros finais de semana que se seguiram, passava pela mesma praça,  e indo na direção a outros pontos, que não eram muitos, na vã esperança de revê-la. Nunca mais, a não ser nalguns de meus sonhos sob aquela manta azul-marinho.

Algum tempo depois descobri uma certa palavra, o findu, palavra esta que abria as portas de tudo o que era boteco e loja. A Japonesa, local onde éramos bastante assíduos, passara a ser parada quase obrigatória nos sábados em razão da facilidade de crédito (e também das meninas de lá, verdade seja dita). 'Fica para o findu?', essa era a senha mágica, que abria tantas outras portas. Na verdade o que abria as portas mesmo era a nossa condição de alunos da Escola de Especialistas, cujo salário no findu era garantido, sendo a nossa inadimplência era severamente punida. Os comerciantes sabiam disso.

Quatro voltas na Errepeeme e uma sessão de cinema. Encerrada a saga de Rock, o Lutador,  me obriguei a voltar à Escola. Felicitei-me quando o coletivo da Pássaro Marrom cruzou o portão das armas, de volta. Como a gente é estranho! Na Escola, era muito normal ficar incomodado com a agitação, as cobranças, o estresse, o compromisso, o corre-corre, as formaturas, o Caveirinha, o boi-ralado... Fora dela, sentíamos falta. Vai entender o ser humano! Ainda mais se este foi um dia aluno da Escola de Especialistas, e ainda por cima um arataca como eu naquela terra diferente. Ademais, uma porrada de apostilas estavam à minha espera, prontas para serem devoradas. A responsabilidade me chamava ao berço e eu não podia dar mole.


Uma vela nada perde quando, com sua chama, acende outra que está apagada. Orison S. Marden

Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado.

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