quarta-feira, 16 de julho de 2014

NO MEIO do caminho...

... tinha um cemitério


HOUVE um tempo em que a cidade de Vespasiano não tinha estradas, mas trilhas que se formavam pela passagem constante de animais; inclua-se, aí, o bicho-homem.

Pois bem, Herculano era um rapaz de boa aparência... e namorador. Entretanto – seria trauma de infância? – tinha pavor de duas coisas: escuro e cemitério. Apaixonou-se, perdidamente por Efigênia – filha de Josemiro e da Dona Luíza – que morava pelas bandas de Nova Granja. Apaixonou-se, por dois motivos: porque ela era linda e porque ela era loira. Ele não resistia aos encantos de uma loira. Se tivesse olhos azuis, então... hummmmmmm...

Para ir à casa de Efigênia, só havia um caminho, ou melhor, trilha; e esta trilha passava em frente ao cemitério. Assim sendo, todas as vezes em que ia à casa de sua amada, Herculano tinha o cuidado de controlar o tempo, de forma que ao sair de lá e, levando em consideração a distância e o tempo de caminhada, passasse em frente ao cemitério, antes da meia-noite. Afinal, eram tantas as histórias...

Certa vez, justamente no dia em que Efigênia estava deslumbrante e fogosa – rendendo-se às suas ousadas carícias –, Herculano descuidou-se das horas. Quando olhou no relógio, sentiu um frio na barriga e algo não menos frio descer-lhe pela espinha. Fez e refez os cálculos, mentalmente. Não haveria como passar em frente ao cemitério antes da temida meia-noite.

- Cê tá passando mal, benzinho? – perguntou Efigênia, ao ver que ele estava suando.
- Nada não, um mal-estar repentino. Acho que fomos longe demais... – respondeu, sorriso amarelo no rosto.
- Num vô deixá ocê ir embora assim, não. – E para a sua felicidade, gritou: - Ô paiê!!! O Herculano pode dormir aqui, hoje? Ele num tá passando bem...
- O Herculano já tá fazendo hora extra! Já passou da hora de se mandar! – a voz, vinda lá de dentro, era grossa, ríspida, impaciente, sem a menor vontade de negociar.
-É, benzinho, num tem jeito! Ocê vai divagarinho, viu?

Devagarinho??? Só até ter a certeza de que não mais era visto por sua amada. Assim que fez a curva – no meio do mato – Herculano desatou a correr; a lua cheia clareava o caminho. “Tem que dar tempo... tem que dar tempo!” – pensava, esbaforido.

Não deu. Olhou para o relógio, em pânico, e viu que os ponteiros estavam se amando. Parou... não adiantava mais correr. Uma nuvem encobriu a lua... escuridão total. Precisava sair dali.
“Ajudai-me, Nossa Senhora dos Aflitos”, começou a rezar. A lua voltou a iluminar a noite e ele já podia vislumbrar, ao longe, o cemitério. Herculano tremia... e caminhava. Tremia... e rezava.

De repente... “Nossa Senhora, obrigado por ouvir as minhas preces!” De repente, ele vislumbrou – à luz da lua – um vulto de mulher, em frente ao cemitério. Ganhou ânimo... ganhou coragem... apressou o passo. Chegando mais perto, para sua surpresa e alegria, viu que a mulher era uma estupenda loira, de olhos azuis.

- Boa noite! – cumprimentou, excitação na voz.
- Boa noite! – respondeu a loira, sensualidade na voz.
- O que você está fazendo, por aqui, a esta hora? – quis saber, curioso.
- Eu moro aqui! – respondeu a loira, enigmática.
- Eu também! – respondeu Herculano, excitado e distraído. – E acrescentou: - Você não tem medo de passar, a esta hora, em frente ao cemitério? 
- Quando eu era viva, eu tinha! - respondeu a loira.

Herculano sentiu que o coração ia saltar pela boca. Sentiu um líquido quente molhar as suas calças – frente e verso – e, por puro instinto de sobrevivência, disparou numa desabalada carreira.

Nunca mais foi visto em Vespasiano. Consta que está correndo... até hoje.

Alexandre Brito, Belo Horizonte 24jan.2011

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