segunda-feira, 18 de agosto de 2014

REMINISCÊNCIAS do front

Seria só psicologia?


FUI chamado ao comando de uma das esquadrilhas da nossa turma. Não lembro qual esquadrilha, somente seu comandante: tenente Cutrin. Fomos eu e mais dois colegas. O assunto que levou o oficial a nos chamar era a prova de Matemática, a primeira prova dessa disciplina no ensino básico. 

Eu e meus colegas fomos muito mal nessa prova, razão pela qual estávamos ali, em posição de descansar correta, na presença daquele oficial subalterno, um ex-cadete da Academia da Força Aérea. Fomos severamente repreendidos, destratados, insultados, chamados de burros ou coisa parecida. Estávamos pela bola sete, era só mais um vacilo e dificilmente passaríamos de semestre. O nosso destino seria a Companhia IG, pois a legislação da época nos obrigava a cumprir um ano obrigatório de serviço militar, e não apenas cinco ou seis meses. 


Quedei-me ali imóvel a ouvir as duras palavras daquele oficial de infantaria, pensando comigo mesmo que "aquele filho da puta ia ver que eu não me daria por vencido assim fácil" e que "Eu vou dar a volta por cima, e ele vai ver só". Terminou o monólogo e nos autorizou a nos retirarmos do recinto. Assim, fizemos a continência regulamentar e demos a meia-volta, tudo conforme nos fora ensinado.

Digo isto não somente para exaltar o método empregado pelo tenente Cutrin com o fim de nos concitar à aplicação firme aos estudos, o empenho de forma a superar as nossas próprias limitações. Quanto a isso, não resta dúvida de que o método funcionou. Com a ajuda de dois colegas, o Jandir e o Montanholi, minha nota da segunda prova de Matemática foi superior a sete. Nada mal, comparada à primeira, que foi -- expressando-me na linguagem dos números -- uma dízima periódica simples, 3,33. Era inevitável que fosse à final nessa área, de forma que a média final chegou aos exatos 5,64, contra os 8,21 da segunda série. Como se pode depreender dos números, a questão maior era a falta de ambientação, problema comum a tantos naquele primeiro semestre.

A questão que lanço aqui é: a Psicologia, e somente a Psicologia, foi a responsável pelo método truculento empregado pelo oficial?  Isso é relativo, como dizia Chico Anísio. Eu, por mim creio que existia naquele homem uma boa dose de arrogância inata, somada naturalmente a outros fatores como, por exemplo, o recalque. Aquela ocasião teria levado Cutrin a aproveitar-se da situação para, sob pretexto de incutir amor próprio e mexer com os nossos brios, humilhar-nos daquela maneira. Como disse aqui neste espaço um colega, a Força Aérea nem sempre apresenta as mesmas oportunidades a todos. Assim como é verdade que não é fácil para cada um administrar as opções e caminhos que lhes são apresentados e que, muitas vezes apenas pela questão de sobrevivência, se obrigam a trilhar, não sendo este necessariamente a opção de seu melhor agrado. Ora, nesse mesmo momento alguns de seus colegas de Academia participavam das atividades aéreas de esquadrão, conforme o tipo de aviação que haviam escolhido durante o curso de oficial aviador, dos briefings específicos, das instruções áreas e de outras rotinas da aviação ou ainda outras funções congêneres e que fazem parte das lides cotidianas dos aviadores.  Seus colegas estavam sendo preparados ao longo da carreira para os cargos de comando. Chegariam ao posto de major enquanto ele marcava passo como tenente, e quando ele chegasse a major, seus colegas de turma já seriam tenentes-coronéis, comandantes de esquadrão, ou coronéis comandantes de Unidade. Enquanto isso, aquele oficial subalterno ali pilotando uma escrivaninha, tendo que lidar, por força de sua formação universitária e por questão de cumprir ordem superior, com aqueles imbecis. Logo ele, com tanta capacidade, que poderia estar em posição mais destacada?

Outra questão: sempre fora assim, ou a arrogância se devia unicamente ao recalque? Digo assim porque em outras ocasiões presenciei o oficial comportando-se de idêntica forma quando, em função do cargo e do posto, se lhe apresentava a oportunidade de humilhar o inferior, no caso o aluno da Escola de Especialistas.

E com quantos cutrins eu - e cada um de nós que convivemos aqueles dois anos -  não tive que conviver. Convivi também com os calmos e serenos, por conseguinte, sábios, em cuja liderança inata me espelhava. Não importando a graduação ou posto que ocupava, sempre levei a sério o juramento de "tratar com bondade o subordinado". Aprendi também que a hierarquia existe para definir os níveis de decisão -- isso não só nas forças armadas como em qualquer sociedade organizada --, jamais para separar aqueles que vivem sob o mesmo juramento. Esse meu modo de ser sempre rendeu bons resultados, realizando-me -- malgrado os dissabores e as injustiças confrontadas -- nos meus trinta anos de caserna.

Independente de tais conjecturas, a bem da verdade, a ação psicológica ministrada pelo tenente Heitor funcionou. Não fosse isso, a vida certamente teria me indicado outros caminhos a trilhar. 

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