quinta-feira, 18 de setembro de 2014

REMINISCÊNCIAS do front

Uma questão de vocação



ALGUÉM falou neste espaço sobre vocação. Vocação - aqui entendida como a aptidão ou amor para determinada profissão, especialidade - é coisa que uns têm, outros não têm. No caso do aluno da Escola de Especialistas, assunto no qual venho me ocupando, uma boa parte, talvez a maioria, veio somente a descobrir se tinham ou não vocação para a coisa algum tempo. Para outros, esse tempo nunca chegou.

Descobrir somente algum tempo depois foi exatamente o meu caso. 


Quanto às pessoas e ideias que cada um tinha e procurava por em prática, com o decorrer do tempo e o observar do entorno passei a separar o joio do trigo. Explico. Uma coisa era a Força, a instituição, com sua doutrina, seus nobres objetivos, suas regras e regulamentos, outra bem diferente eram alguns de seus membros. Eram exatamente esses membros, uma minoria que aparece, que estraga tudo.

Certa vez, no ano de 1984, o chefe da seção chamou-me em particular. Era este escriba nessa época encarregado da Seção de Comando do ESM. No dia seguinte haveria uma solenidade importante. O chefe, um tenente especialista em armamento, chegou para mim e disse-me que eu não precisava participar da formatura naquela data. Em vez disso, deveria ficar em alguma seção do Esquadrão, meio que escondido, e observar quem, alegando serviço de manutenção em avião, não compareceria ao evento, devendo "entregar" os possíveis escamões ao chefe, prontamente relacionados. Esse estratagema - alegar necessidade do serviço - era muito comum a muitos que fugiam de uma formatura como o capeta foge da cruz, o que deixava os oficiais contrariados pois não tinham como saber ao certo se não passava de um pretexto para alguns se furtarem ao dever.

Pego de surpresa com aquela proposta, depois de alguns segundos, pedi-lhe que me dispensasse daquela missão. Preferia desfilar a fazer um papel sujo daqueles. "Não, obrigado" e que fosse pedir a outro que se prestasse a isso. Não sei se essa minha recusa em "colaborar" tenha me subtraído alguns pontos na ficha de conceito daquele ano.

O tempo passou e eu fui aprendendo a separar os bons dos maus. Embora alguns elementos, oficiais e praças, não detivessem muita honra, passei a gostar da instituição Força Aérea apesar disso. Ao final da minha carreira, chegava na segunda-feira meio entristecido com a semana a iniciar, mas eis que na quarta-feira me via apaixonadamente trabalhando e completamente envolvido nas minhas tarefas de caserna. Fazia isso sem nenhum interesse. Já havia chegado ao máximo de minha carreira, e nenhum centavo iria acrescer ao salário no final do mês. Na sexta-feira já me despedia do ambiente com saudade de tudo. 

Convivi com outros maus profissionais, como aquele tenente de 1984, mas mesmo assim descobri que a minha vocação era a Força Aérea, independente de seus homens e mulheres.

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