sexta-feira, 12 de setembro de 2014

REMINISCÊNCIAS do front

Há males que vêm para o bem


NEM MESMO o tempo me extraviou da memória aquela manhã de agosto, dia sete, ano de 1979, uma terça-feira. Era o dia de apresentar-me pronto para o trabalho ao tenente Wanderlan, meu chefe em Anápolis a partir daquela data. Iniciava o meu segundo dia na Unidade, pois havia me apresentado oficialmente na véspera, uma tarde ensolarada.
Estava lá naquela seção de pessoal de Base Aérea, conhecida na época como Ajudância da Base, aguardando que o futuro chefe se liberasse da tarefa em que se ocupava naquele momento. Wanderlan era um daqueles oficiais formados pela antiga EOEIG e que antes disso fora sargento, tendo chegado à graduação de primeiro-sargento Escrevente. Já não é mais vivo; podemos elogiá-lo à vontade, como sentenciava Machado de Assis.
Mantinha-me lá imóvel, garboso, achando-me o rei-da-cocada-preta a ostentar aquele vistoso uniforme azul com as insígnias de terceiro-sargento recém-formado. O oficial atendia a um cabo, que mais tarde viria a ser meu auxiliar direto. Indicava-lhe o que me parecia alguns papéis arquivados numa pasta suspensa, enquanto lhe dava orientações acerca dalgum assunto que eu ignorava totalmente pois estava a uma boa distância de ambos. Aguardei que terminasse para somente aí fazer-lhe a apresentação regulamentar. “Com licença, tenente. Terceiro-sargento Valentim apresenta-se pronto para o serviço” era a expressão correta e que já vinha treinando mentalmente. Diria tais palavras assim que o tenente fizesse o sinal para que eu me aproximasse.
Percebi que o oficial se prolongava e nem sequer levantava a cabeça a olhar em minha direção. Já estava inquieto, mas não me passou pela ideia interrompê-lo, nem ao menos com uma falsa tosse ou pigarro simulado. Isso poderia ser entendido como inconveniência, e o oficial poderia me chamar a atenção. Não, não seria boa ideia interrompê-lo.
Fiquei ali, em posição de descansar, a esperar pacientemente pelo momento em que o oficial despachasse o cabo, sanando as suas dúvidas ou qualquer outra dificuldade que o praça lhe apresentava na hora.
Nada.

Decorreram mais alguns minutos, quando o oficial, olhando para mim, que ainda estava lá em posição de descansar correta, deu-me uma baita de uma bronca, em voz alta e estridente, reprovando o fato de eu não tido a iniciativa de interrompê-lo. Não adiantavam os meus “mas...”, ditos assim em voz quase inaudível e tímida. Depois que se calou, aproximei-me dele um pouco mais – gotas de suor a descerem do rosto –, para fazer a apresentação que treinara antes.
O vexatório episódio foi para mim uma espécie de batismo de sangue. Ainda mais assim em público, contrariando o que me foi ensinado nos dois anos que haviam terminado havia menos de um mês. E aqueles praças ali presentes a matraquear as máquinas de escrever nem sequer levantaram a cabeça, como que já acostumados com aquele tipo de espetáculo. Certeza eu não era o primeiro a passar por aquela prova.
Fiquei ciente de que era comum os sargentos antigos receberem sargentos recém-formados com uma espécie de trote. Soube mais tarde que um que perambulou por quase toda a Unidade conduzindo um pacote cujo conteúdo era uma peça de avião. O objeto deveria ser entregue em determinada seção, cujo encarregado já estava avisado e esperando; era somente chegar a peça e os serviços de manutenção reiniciariam, dando como disponível a aeronave. Chegando lá, o infeliz fora encaminhado a outro setor. Ao chegar neste último, novamente era orientado para deixar o pacote em um setor distinto, devendo procurar um outro sargento, que, por sua vez, já estava previamente acertado fazer o novinho andar um pouco mais. Nada continha de interessante o pacote além de uma pedra. Outra vez fizeram a um outro desavisado deslocar-se até o setor de Suprimento Técnico à procura de um certo envelope redondo para ofício circular. O mais comum dos trotes, porém, era fardar um cabo velho de suboficial ou, ao contrário, um sargento velho vestir-se de cabo. Assim que o novinho chegasse, o sacana entrava em ação, provocando toda espécie de atos contrários ao regulamento disciplinar, deixando o recém-formado cheio de vergonha ou vermelho de raiva. Depois de tudo, era-lhe dito a verdade.
Não tomei como o tradicional trote de iniciação aquelas palavras duras, e sim como reação normal diante da minha inércia, até mesmo considerei como ensinamento. Não atinei que a bronca era inevitável: se o tivesse interrompido seria devidamente “mijado”; se, ao contrário, ficasse a espera seria igualmente bronqueado pela falta de iniciativa, uma das virtudes exigidas do profissional que então já me julgava. No entanto, a presepada, em vez de trote, poderia ser bem um mero exercício de exibicionismo. Mais tarde, viria a presenciar atitudes semelhantes. Recebia soldados com direito a cafezinho e tudo o mais, ao passo que a sargentos, deixava-os em posição de descansar, quando não os destratava a título de qualquer insignificância.
Trote ou exibição?
Talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Indiferente a essa questão, comecei a trabalhar ali, no setor de legislação, porém não conseguia adaptar-me às tarefas que me eram apresentadas. Aqueles papéis que estavam à minha mesa me confundiam, e eu não sabendo para onde nem quando e para o quê.  Passou-se um mês e eu não lograva êxito no trabalho, mais perdido que cachorro caído de mudança. Meu pífio desempenho deixava o neurastênico e ranzinza Wanderlan ainda mais nervoso e insatisfeito.
Enquanto isso, colegas mais antigos, mais de uma vez, me paravam e faziam uma pergunta que eu pressentia ambígua, pois vinha sempre acompanhada de um sorriso de ironia: “E a chefia?”. Respondia que ia bem, fazendo-me de desentendido.
Decorridos aqueles trinta dias iniciais, como eu não demonstrava adaptação ao local e ao trabalho, Wanderlan propôs me transferir de seção. Mandou-me para a seção de Instrução, local que estava havia algum tempo pedido o concurso de um sargento da minha especialidade. O trabalho era muito mais simples, e procurei adaptar-me às novas tarefas.
Não demorou uma semana para que eu me sentisse entediado com aquele cargo. Senti que fora desprestigiado. O trabalho da seção para a qual eu fora transferido era por demais simples, resumindo-se a arquivar diariamente alguns papéis e de datilografar documentos de rotina do setor, que naquela época não havia se estruturado. Era fazer essas tarefas e ficar o restante do dia coçando o saco. Aos poucos fui sentido saudades daquele ruidoso trabalho das máquinas da seção de Ajudância, da confecção diária do boletim da Unidade, dos ofícios, partes, radiogramas e outros documentos, que eu não sabia quantos, talvez centenas ou mesmo milhares produzidos a cada mês. O serviço ao qual estava obrigado me deixava feliz. Era colocar no meu lugar um soldado especializado e o praça faria o mesmo trabalho que eu, talvez até melhor e mais eficiente. Não, eu não teria passado dois anos na Escola para ser relegado a um mero datilógrafo e arquivista.
Resolvi pedir a Wanderlan para voltar ao antigo sítio.
Voltei. Foi uma troca tríplice. Eu saí de lá, indo para o meu lugar o Marinho, um primeiro-sargento da Tesouraria. Para o lugar dele, foi o Luciano, da Ajudância.
Wanderlan, em vez do setor de legislação, deu-me o cargo de chefe da seção de Alterações, órgão encarregado de registrar todos os fatos relacionados ao efetivo, do comandante ao soldado mais recruta. Era eu e mais nove ou dez auxiliares.
Pus-me com afinco ao trabalho, chefiando aquela turma boa e competente. Nunca mais teria uma equipe tão numerosa.Pusemos em dia toda aquela papelada, datilografando aquelas alterações que copiávamos diariamente do boletim da Unidade. A cada semestre, mandava aquele catatau de papéis para a assinatura do comandante do esquadrão de Pessoal. Ao cabo de trinta dias, já me via apaixonado por aquele trabalho, que para outros era um castigo.
Dos nove ou dez que trabalhavam comigo, lembro somente de dois: cabo Alves e S1 Amélio. Alves era responsável pela atualização do fichário, umas fichas de papelão guardadas em um fichário de acrílico. Essas fichas controlavam inspeção de saúde, tempo de serviço e data para medalha. Além disso, Alves se responsabilizava pela transcrição dos elogios de oficiais e das transcrições de punições disciplinares de suboficiais e sargentos, que seriam remetidas à Dirap. Já Amélio era o datilógrafo das alterações dos oficiais.
Os computadores de hoje estavam longe de serem inventados. Nossos computadores eram aquelas máquinas de escrever, as fichas, e – é claro – nosso cérebro.
Era exatamente o trabalho intenso que fez gostar daquelas atividades.
Em meu coração, nenhum ressentimento contra o jeitão do chefe. Ao contrário, via nele um cara competente, excelente profissional, e ainda – a seu modo – um ótimo ser humano.
Passaram-se os dias, meses e ano, e nosso desempenho, com alguns altos e baixos pelo meio, foi se firmando. Às vezes pisando em ovos, às vezes com segurança, este escriba foi ganhando confiança dia a dia, e nossa equipe cumpria excepcional nível de eficiência.
Passou-se mais um tempo, até que em abril de 1981, o oficial reconheceu publicamente o nosso status, publicando em boletim da Unidade um elogio individual, recompensa que naquela época estava ainda em vigor.
De acordo com a publicidade dada pelo boletim 95, de 27 de maio de 1981, assim foram as palavras do oficial:
“Tomar decisões e assumir compromissos é próprio daqueles que têm noção do dever a ser cumprido. Não se sentindo conformado com posição onde não poderia produzir o tinha aprendido nos bancos escolares e querendo ir mais além, aceitou voluntariamente o desafio de, sozinho, erguer a Seção de Alterações do EP, trazendo-a ao seu atual grau de eficiência. Tornou-se profundo conhecedor de suas múltiplas facetas e soube vencer gradativamente os obstáculos que se interpunham ao objetivo colimado, conduzindo com serenidade os subalternos que com ele venciam as exigências desta Chefia.
Reconheço no 3S Q EA ADM Antonio Valentim Moreira a sua vontade férrea em vencer suas próprias limitações e concito-o a continuar a trilhar o caminho dos que enobrecem a Força Aérea Brasileira”.
Há exagero nessas palavras, exceção à parte que reconhece a participação daquela equipe valente, além, é claro, de onde fala sobre as minhas limitações.
Aquele estágio na seção de Instrução teve o condão de sacudir-me, transformando-me num verdadeiro profissional.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

OBRIGADO por comentar e volte sempre ao BLOGUE do Valentim!