terça-feira, 2 de setembro de 2014

NÃO ao racismo e às hipocrisias

MUITO REPERCUTIU nos meios de comunicação social durante a semana que passou o triste caso acontecido com o goleiro Aranha, no jogo em que a sua equipe, o Santos Futebol Clube, jogou contra o time da casa, o Grêmio de Futebol Porto-Alegrense.

Explicando, não justificando. Um pouco por se sentirem inconformados com o desempenho de seu time e muito por serem naturalmente racistas mesmo, um grupo considerável de torcedores puxou coro racista contra o atleta santista, chamando-o de "preto fedido", "macaco", e outros insultos raciais do gênero.

Não fosse um evento de dois grandes clubes da primeira divisão do futebol brasileiro, não um fosse um evento transmitido ao vivo por uma grande emissora de televisão, este seria mais um episódio não registrado. Ninguém saberia de nada sobre o acontecido, ninguém repercutiria, ninguém exibiria sua indignação nas redes sociais.


Atos de racismo como aquele ou ainda outros menos perceptíveis e mais sutis ocorrem diariamente, não somente no Rio Grande do Sul, mas em qualquer outra Unidade Federativa do Brasil, não sendo restritos à área esportiva, mas comuns ao dia-a-dia da população brasileira. Sendo assim, manifestações racistas como aquelas não são exclusividade da torcida gremista, gaúcha, nem de qualquer outra torcida brasileira - para deixar o assunto restrito ao Brasil.

Há uma grande hipocrisia nisso. Explico. Quando o problema ocorre longe da gente, todos ficamos indignados e nos solidarizamos com a pessoa insultada. Já se o problema ocorre no nosso quintal, é diferente. A tendência é colocarmos panos quentes, deixando o assunto esfriar até que venha a ser esquecido. Não havendo um veículo poderoso a repercutir o problema, o assunto é varrido para baixo do tapete. 

Esse mesmíssimo caso, não fosse a repercussão dada, não fosse a insistência do atleta em chamar o árbitro e denunciar, não fosse o problema envolvendo um grande evento público, não seria sequer registrado. O próprio árbitro em princípio quis fazer vistas grossas, somente depois - quando percebeu a repercussão pela tevê - ele enviou um adendo à súmula, relatando o caso.

Sobre racismo vou reproduzir aqui neste espaço o que ocorreu no futebol paraense por duas vezes, ao menos. Dois casos envolvendo o preparador físico Wellington Vero, quando o profissional trabalhava pela equipe do Paysandú Sport Club. 


E que fique claro que, o racista estava no Paysandú, assim como poderia estar trabalhando no Remo ou por qualquer outro clube. O racista é a pessoa e não a instituição a que ele serve.

Ora, hoje todos, em Belém, no Pará, no Brasil, demonstraram sinceros protestos de indignação com o ocorrido com Aranha e lhe oferecem solidariedade no combate a essa chaga que chamamos de preconceito racial. No entanto, ninguém gosta de relembrar que problemas dessa natureza também ocorrem no Pará, sendo os protagonizados pelo profissional de Educação Física mencionado os mais recentes. É claro que há muitos outros casos, conhecidos ou não.


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Após o empate entre Águia e Paysandu, em 2 a 2, no estádio Zinho Oliveira, o preparador físico bicolor, Wellington Vero, foi levado para a delegacia de Marabá por acusação de racismo. Segundo informações da polícia responsável pela segurança da partida, Vero direcionou um comentário racista a um dos funcionários do estádio.

Esta é a segunda vez que o preparador físico do Papão se envolve em uma polêmica de racismo. Em 2008, após uma partida contra o Castanhal, pelo Parazão daquele ano, Wellington Vero foi detido pela Polícia Militar pelo mesmo motivo. Acusado de injúria racial, Vero foi levado para a delegacia por injúria qualificada, porque teria dito palavras de cunho racista contra o gandula Cézar Espírito Santo de Souza, de 23 anos, que trabalhava durante a partida.

Segundo o Artigo 140 do Código Penal, injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, pode resultar em prisão que vai de um a seis meses ou multa. Neste momento, Wellington Vero está na delegacia prestando depoimento.  (Diário do Pará)


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O preparador físico do Paysandu, Wellington Vero, foi preso logo após o jogo contra o Castanhal, ontem pela manhã, no Estádio Maximino Porpino, acusado de injúria racial. Segundo o delegado Alberto Teixeira, que estava de plantão na Seccional Urbana de Castanhal, o fisicultor foi detido por injúria qualificada, por ter dito palavras de cunho racista contra o gandula Cézar Espírito Santo de Souza, 23, que trabalhava no jogo. De acordo com a denúncia, no final do primeiro tempo da partida, quando o Paysandu já perdia por 1 a 0, Vero teria ficado irritado com a atitude do gandula que estaria atrasando propositalmente a reposição de bola. A partir daí, o fisicultor teria passado a ofender o rapaz, inclusive o chamando de 'macaco'. Depois de ouvir a ofensa, o gandula comunicou o fato à guarnição da Polícia Militar, que fazia a segurança da partida. Orientado a registrar queixa contra Wellington Vero, ele saiu direto do estádio para a Seccional de Castanhal, localizada no bairro da Jaderlândia. Duas testemunhas - o funcionário da Prefeitura de Castanhal Fábio Corrêa e o jornalista Marcelo Filho - foram ouvidas na delegacia e confirmaram as denúncias. 
Foi então que o delegado Alberto Teixeira, acompanhado de sua equipe de investigadores, foi até o estádio e, logo após a partida, conduziu Wellington Vero para a delegacia, onde ouviu os envolvidos no caso e determinou que o preparador físico ficasse detido até que um juiz determinasse o valor da fiança a ser paga por seus advogados. Por ter curso superior, Vero não pôde ficar na carceragem da Seccional junto com presos comuns. Até o início da noite de ontem, ele ocupava uma sala do setor administrativo da unidade policial.
O delegado explicou que o crime cometido por Vero não foi de racismo, mas injúria qualificada, com agravante de discriminação racial. 'O crime de racismo só ocorre quando um ato ou ofensa é direcionado à coletividade. Já no caso de uma ofensa direcionada a uma pessoa específica, o que ocorre é a injúria racial', afirmou Teixeira.

Ainda de acordo com o delegado, o crime de injúria racial está prevista no parágrafo 3º do artigo 140 do Código Penal Brasileiro. A pena prevista é de um a três anos de reclusão. O relaxamento da prisão em fragrante só poderá ocorrer depois que um oficial de Justiça apresentar um alvará de soltura com o comprovante do pagamento de uma fiança fixada por autoridade judicial da comarca onde o crime foi cometido.


O gandula Cézar Espírito Santo de Souza, que acusa Wellington Vero de tê-lo chamado de 'macaco', entre outras ofensas, disse que trabalha há três anos em jogos promovidos pela Federação Paraende de Futebol (FPF), principalmente em Castanhal, e que jamais havia passado por uma situação constrangedora como a de ontem. O rapaz disse ainda que só teve coragem de denunciar o fisicultor porque as ofensas foram testemunhadas por outras pessoas.

'Eu estava fazendo o meu trabalho como sempre e não merecia ser ofendido como fui. Lembro que pouco antes do preparador físico do Paysandu começar a me xingar, eu coloquei uma bola em cima da linha de fundo para que o goleiro (Anderson) do Paysandu pegasse. Essa é a minha função. Não estava atrasando em nada o início do jogo', disse Souza. 'Me senti humilhado quando ele me chamou de ‘macaco’. Graças a Deus que outras pessoas também ouviram e eu pude prestar queixa. Se fosse a minha palavra contra a dele, não sei se valeria a pena fazer a denúncia', ponderou.

As ofensas direcionadas ao gandula chamaram a atenção de várias pessoas que trabalhavam na organização ou na cobertura do jogo. O funcionário da Prefeitura de Castanhal, Fábio Corrêa, que presenciou a confusão, acompanhou o gandula até a Seccional Urbana da Jaderlândia, onde o caso foi registrado, para testemunhar em seu favor. 'Resolvi testemunhar porque essas coisas não podem passar em branco. Não é porque o sujeito trabalha em um clube como o Paysandu que pode ofender as pessoas, inclusive de forma racista, e sair impune. Espero que a Justiça seja rigorosa neste caso', comentou Corrêa.

O que diz o Código Penal

Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro:
Pena - detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa.
§ 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena:
I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria.
§ 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes:
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa, além da pena correspondente à violência.
§ 3º - Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem:
Pena - reclusão de um a três anos e multa.
* § 3º acrescentado pela Lei nº 9.459, de 13 de maio de 1997. (Amazônia Jornal




























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O preparador físico do Paysandu, Wellington Vero, foi acusado de injúria racial e foi mantido na delegacia de Marabá-PA por quase três horas, acusado de injúria racial por Nelmo Vieira, torcedor do Águia de Marabá. A discussão entre ambos teria ocorrido após a partida entre Paysandu e Azulão marabaense, que aconteceu na noite de terça-feira, no Estádio Zinho Oliveira, pelo Campeonato Paraense 2013. (ESPBR)

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Por força da leniência de alguns e da impunidade que campeia em todos os níveis, o futebol paraense tem servido de cenário para atos racistas nos últimos três campeonatos. O preparador físico Wellington Vero foi protagonista de dois episódios, um em Castanhal em 2011 e outro em Marabá em 2012. Nada aconteceu para coibir a prática discriminatória. Um novo incidente foi registrado, sábado, no estádio Maximino Porpino, em Castanhal, depois da partida entre Paissandu e Águia pela Série C. O auxiliar técnico Brigatti, do Papão, teria dirigido ofensas racistas ao jogador Eduardinho, do Águia. Os jogadores do time marabaense se revoltaram com o ocorrido, o diretor João Galvão exigiu um posicionamento por parte dos bicolores, mas a história mudou de curso depois que o próprio atleta decidiu não levar o caso adiante. Todos se contentaram com a visita cordial que o presidente Vandick Lima, do Paissandu, fez a Eduardinho ainda nos vestiários, desculpando-se pelos impropérios do auxiliar.  O caso Eduardinho amplia o histórico de ocorrências de ódio racial no Pará e a impunidade sempre tende a estimular a repetição. Se é verdade que aumentou muito o nível de consciência quanto à gravidade do crime, é inegável também que as próprias vítimas não se sentem encorajadas a sustentar as denúncias.  (Gerson Nogueira )



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Um comentário:

  1. A diferença entre um caso, o do Aranha, e os outros dois, que envolveram o preparador físico W. Vero contra o gandula César Espírito Santo de Sousa, no jogo do Paysandú contra o Castanhal em 16mar.2008, e contra o torcedor do Àguia Nelmo Vieira, em 12mar.2013, é que estes últimos não tiveram os holofotes e a indignação pública, como se viu no caso do goleiro santista insultado por parte da torcida gremista.

    Ambos os casos contra o preparador físico foram provavelmente arquivados, já que nunca mais se ouviu falar neles.

    Simples assim.

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