terça-feira, 23 de dezembro de 2014

EU QUERIA ter uma filha assim!


ERA o ano de 2001. Pela primeira vez a FAB abre o Curso de Formação de Sargentos da Escola de Especialistas de Aeronáutica para jovens do sexo feminino, as turmas mistas, cuja matrícul. Veio o primeiro concurso e bateste na trave. Não deu. Muitos desistiriam, mas tu não, honrando a valentia da família Moreira; isso provou a tua tenacidade, e o tropeço no primeiro obstáculo não seria razão para desistência. Somente os fracos ficam pelo meio do caminho e os covardes nem tentam.

Viria o segundo concurso, e, se fosse preciso, o terceiro. Não, não foi necessário o terceiro. Neste mesmo segundo curso de turmas mistas, teu esforço foi premiado. Toda a aplicação e determinação nos estudos regulares do Colégio Rego Barros não foram em vão. 

Chegando à Escola, e os primeiros dias tudo era novidade para aquela jovem humilde de apenas 19 anos. Estavas lá, na mesma Escola para onde um dia teu pai partiu, 25 anos atrás, e cruzou o portão das armas naquele ônibus da "Pássaro Marrom", naquela noite fria de agosto de 1977. Viriam então toda a exaustiva rotina dessa escola militar, lugar em que a tecnologia se aliaria ao treinamento físico; Berço dos Especialistas,  em que as experiências de laboratório se revezariam com os exercícios de campanha e de formação básica militar. A cada dia uma batalha, e foram tantas e tantas. Tu o sabes, teu pai - que pisou o mesmo solo daquele pátio - o sabe também.


Tão logo principiaram as rotinas dos livros e apostilas, dos galpões de instrução, dos desfiles, das atividades físicas e dos treinamentos militares, tomaste gosto imediato pela profissão. Foi amor à primeira vista. 

Sim, mas não foi fácil. Foram dias de luta com certeza, procurando adaptar-se às novidades. Aquela dura rotina já indicava àquelas moças e rapazes o quão difícil seriam as lides de caserna que haveriam de vir.

Os dias e semanas se sucederam, e quando te deste conta lá estava o dia da formatura, coroando aqueles três longos semestres. Eis mais uma terceiro-sargento da Aeronáutica, da especialidade de Controle de Tráfego Aéreo. Vitória!



Mas tu não pararias por aí.

Vieram outros desafios. Uma coisa é a teoria dos bancos escolares; outra, bem diferente, a prática, a responsabilidade do dia a dia das torres de controle, das formaturas e das escalas de serviço. Era uma década em que o volume de tráfego aéreo elevava-se de forma significativa, consequência de uma nova era em que a Nação brasileira avançava a largos passos de desenvolvimento. Consequentemente, os novos desafios viriam a requerer do controlador de tráfego aéreo maior volume de trabalho, mais conhecimento, maior preparo intelectual, mais atenção, mais responsabilidade. Isso tudo te obrigou a realizar novos cursos, a te dedicares mais ainda, até seres julgada pronta para o combate. Paralelamente, havia os afazeres tipicamente militares, dos quais certamente não te furtaste. 

O tempo foi passando mas não te acomodaste aos prêmios já conquistadas. O curso universitário, cuja aprovação obtiveste até mesmo antes de seguir para Guaratinguetá, estava à tua espera. Sim, tinhas antes obtido aprovação para dois cursos superiores, cabendo a ti optar por um deles. Por que não cumpri-lo? 

Quase um decênio transcorreu.

Enquanto isso a FAB, a exemplo do que já ocorria em relação aos cursos técnicos da EEAer., também preparava o Centro de Instrução e Adaptação da Aeronáutica (CIAAR) para as turmas mistas, envolvendo alunos de ambos os sexos, vez que os jovens de 2002 agora estavam aptos a galgarem patamares mais elevados. A primeira turma viria, e tu certamente já estavas a te preparar para tais desafios. Veio o concurso, veio a aprovação. Parece que as coisas se tornam mais fáceis quando há preparo e dedicação.

Ali estavam à tua frente mais dois longos anos de estudos e preparação para um novo degrau, o oficialato, agora em Belo Horizonte.

Novamente muitas batalhas. Mas agora com mais rigor, consoante o elevado grau de responsabilidade compatíveis com os novos postos e cargos a serem exercidos pelo futuro oficial especialista.

E eis que chega dezembro de 2014. E aí estás, mas não apenas uma concludente de um curso de alto nível intelectual. 

Tu te sagraste a primeira, a ZERO UM!


Este teu pai te cumprimenta pela vontade férrea que tens mostrado ao lutar pela conquista do topo, não se conformando apenas em participar, mas, principalmente, em chegar à frente de uma turma de 52 colegas. Não te contentaste em ser apenas uma entre os demais, o que já por si só seria grande honra para este teu velho pai. Não, tiveste a honra de receber a espada das mãos da maior autoridade presente, repetindo o feito deste veterano, que um dia, treze anos antes, teve essa alegria.

Filha, inicia agora outro jogo. Mas renhido, mais visível, cujo grau de responsabilidade é  muito mais elevado que o de antes. O oficial encontra-se na vitrine; de um lado, o comando e sua oficialidade; de outro, suboficiais, sargentos, cabos e soldados. É como um juiz que detém sobre si a atenção de jogadores, técnicos e público.

Eis que é chegada a hora hora de veres a floresta e não apenas a árvore.

Ao oficial não é dado o direito de errar. Se errar, terá sobre si um peso de julgamento bem mais forte. E disso foste por mim alertada. Deves também ter em mente que a hierarquia existe para estabelecer os diferentes níveis de responsabilidade, e não para separar irmãos que vivem sob o mesmo juramento. Não te esqueças jamais disto.

Vai. Mas tenhas certeza de que não estarás sozinha nesse árduo caminho. Tens o teu velho pai aqui para aconselhar; dispões também de teu esposo, meu genro Daniel, também ele um oficial, para te apoiar, além naturalmente das palavras de tua mãe para te confortar.

Que Deus te abençoe e ilumine a tua carreira. Sejas feliz, minha filha Charlene Roberta da Silva Moreira Aieta!   

2 comentários:

  1. !Felicidades por tener esa gran continuiodad y feliz Navidad!

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  2. Gracias, amigo Silvo. Tenhas um feliz Natal!

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